Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

​O ambientalismo é para as pessoas (não para os animais)

20 set, 2019 • Opinião de Henrique Raposo


Devemos combater o diesel, porque o tubo de escape é mau para as nossas crianças antes de ser mau para os ursos polares.

A Boeing cometeu uma falha muitíssimo mais grave do que a Volkswagen. No entanto, o “Boeing gate” tem sido uma nota de rodapé; não tem nem dez por cento da atenção do “Diesel gate”. Esta assimetria mediática é um sintoma de uma desordem moral.

Para competir à pressa com a Airbus, que lançara um soberbo avião logo comprado às dezenas pela American Airlines, a Boeing alterou o equilíbrio aerodinâmico do 737, colocando-lhe motores novos. Ora, quando se tem um motor novo, não basta colocar esse motor num avião já existente; é necessário fazer um avião novo de raiz com a sua respectiva fórmula aerodinâmica. A Boeing, debaixo da complacência do regulador federal, não cumpriu esta regra. Improvisou para não se atrasar anos e anos em relação à Airbus - um improviso escandaloso.

Há pelo menos dois desastres aéreos com centenas de vítimas que têm a sua origem nesta fraude. Contudo, os média falam sobretudo do “Diesel gate”, que não colocou nenhuma vida humana em risco. A imoralidade da Boeing não tem equivalente na indústria automóvel. Para chegar ao opróbrio da Boeing, a Volkswagen tinha de produzir - em consciência e de propósito - um carro de alta cilindrada com travões defeituosos. Como é que chegámos aqui? Como é que “o carro que polui o meio ambiente” pode ser mais importante do que “o avião que coloca em risco vidas humanas”?

Na agenda mediática, os desastres aéreos provocados pelo avião defeituoso da Boeing são menos importantes do que as vendas de carros a diesel, porque vivemos num clima intelectual que transformou o ambientalismo numa ideologia anti-humanista, anti-civilização, anti-presença humana. Esta agenda quer proteger uma natureza sem seres humanos, é como se o homem não fizesse parte da natureza. Ao falar tanto desta natureza desumanizada, a agenda verde faz política e jornalismo como se não existissem de facto seres humanos.

Olhe-se para o caso Macron/coletes amarelos. Ao levantar novos impostos sobre os combustíveis com o objectivo de salvar o meio ambiente, Macron colocou uma espada por cima do dia-a-dia dos franceses mais pobres. Quem vive no centro de Paris não precisa de carro. Quem vive nos subúrbios e nas pequenas vilas e cidades precisa de carro, o seu quotidiano está feito em redor da mobilidade automóvel. E, como é óbvio, esse quotidiano não pode ser refeito de um dia para o outro em nome de impostos verdes, que, na ânsia de salvar a sacrossanta natureza, acabam por empobrecer ainda mais os seres mais pobres dessa excrescência chamada humanidade. O ambientalismo não pode ser feito contra as pessoas, sobretudo não pode ser feito contra as pessoas mais pobres – mas tem sido esse o caso.

Querem convencer as pessoas a não comprar carros a diesel? Recuperem o humanismo.

O ambientalismo deve ser para as pessoas, não para os animais. Devemos combater o diesel, porque o tubo de escape é mau para as nossas crianças antes de ser mau para os ursos polares. Não subam ao palanque da insuportável arrogância moral do animalista que passa a vida a destratar as outras pessoas, os outros seres humanos que são retratados como o grande cancro da natureza. Falem para as pessoas, não para a natureza. Digam às pessoas que o diesel é mau para a nossa saúde, para o nosso nariz, para a nossa pele, para os nossos pulmões. No fundo, coloquem a poluição dentro da narrativa próxima da “saúde pública” antes de a colocarem na ameaça longínqua do “aquecimento global”.

Comentários
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  • João Lopes
    21 set, 2019 18:43
    Concordo com HR: «vivemos num clima intelectual que transformou o ambientalismo numa ideologia anti-humanista, anti-civilização, anti-presença humana. Esta agenda quer proteger uma natureza sem seres humanos, é como se o homem não fizesse parte da natureza. Ao falar tanto desta natureza desumanizada, a agenda verde faz política e jornalismo como se não existissem de facto seres humanos».
  • César Augusto Saraiva
    21 set, 2019 Maia 17:40
    Excelente; Muito obrigado pelo esclarecimento!
  • Vera Costa
    20 set, 2019 14:00
    Brilhante!!! Henrique Raposo, até me fez rir! a comparação entre Boeing, e a Volkswagen, que é muito certa, não é para rir! mas não sei porquê ultimamente eu tenho visto notícias, que acho imensa piada! vamos deixar de fora, agora, o Macron com as ideias dele! e passamos pelo nosso aeroporto, que uns querem no Montijo outros em Alcochete! outros querem touradas sem touros, outros querem que não se coma carne de vaca porque é um animal quadrúpede e ruminante! e temos que ter consideração por todos os que têm as quatro patas! sorte dos macacos que ficam fora disto, porque são mais parecidos com os homens e não têm patas, têm quatro mãos! Depois, uns querem dar livros escolares às crianças e habituá-los a conservarem os seus livros! outros querem que as crianças, tenham direitos de poder estragar os livros escolares! uns querem os aumentos dos salários, mas reduzirem as horas aos trabalhadores, eu ainda não percebi muito bem, se as horas de trabalho reduzidas, são para dar emprego a outros nas horas que sobram, porque, quem é que paga a estes, se o salário for aumentado aos outros? Temos um mês para resolver estas niquices! porque depois, o resto, logo se vê!
  • Desabafo Assim
    20 set, 2019 10:42
    A substituição da tração dos veículos de combustível fóssil por elétrico é na prática bastante simples, mas de extrema dificuldade não entrar na banca rota no mesmo ano. De forma racional constatamos que o transito das cidades tem uma velocidade média, abre o semáforo e grande parte dos automobilistas “corre” até ao próximo semáforo, sem com isso ganhar nada, nessa corrida não é seguro ultrapassar 40 km por hora, tendo em atenção esse facto seria racional deslocar as viaturas de um para o outro semáforo sem euforias, a 30 km por hora ou menos. Tal como antigamente era alimentado a energia elétrica, (para iluminação nas pedaleiras), assim se poderia anexar uma tração elétrica ao veículo sem ambicionar mais que 30 Km por hora. Rompendo um dos guarda lamas de uma das rodas traseiras (que ocuparia lugar na mala), e criando um braço móvel para o conjunto de motor elétrico, (semelhante ao dínamo primitivo, mas sendo a superfície de contacto na base do pneu e não na lateral), que forçaria a roda do carro a girar e deslocar o veículo. A direção e a travagem deixariam de ser assistidas nessas circunstâncias de velocidade reduzida. Como consequências inevitáveis teríamos um problema conjuntural grave, onde taxar, da mesma forma e na mesma proporção a população para alimentar esta máquina a que chamamos estado. Fora esse problema grave, (taxar por cabeça?) que pensariam disto os nossos “paizinhos” quando lhes disséssemos que não queríamos mais brinquedos caros.
  • Paulo Fernandes
    20 set, 2019 Montijo 08:59
    Estará o Sr. Henrique Raposo a querer explicar aos engenheiros da Boeing como se constrói um avião? Isto sim são cronistas instruídos, capazes de opinar com autoridade desde o aparelho digestivo das vacas, à construção de um avião.