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José Miguel Sardica
Opinião de José Miguel Sardica
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Quem tem medo de Salazar em 2019?

18 set, 2019 • Opinião de José Miguel Sardica


Para os críticos, musealizar Salazar é ofender as vítimas do Estado Novo e desprestigiar a democracia, branqueando o ditador.

O plano da Câmara Municipal de Santa Comba Dão de criar um “museu Salazar” suscitou uma guerra surda de abaixo-assinados contra e a favor. Em assuntos polémicos, os portugueses trocam a serenidade crítica pela emoção epidérmica. Para os críticos, musealizar Salazar é ofender as vítimas do Estado Novo e desprestigiar a democracia, branqueando o ditador e construindo um altar para romarias de saudosistas do autoritarismo.

Um museu Salazar não será nada disto. Como historiador, sou totalmente a favor da iniciativa, e nem preciso do eufemismo do “centro interpretativo”, com que parece que se pede desculpa pela ideia. Um bom museu é sempre um centro interpretativo, porque não amontoa peças, antes conta uma história. E na história que este particular museu precisa de contar – tal é a amnésia e a confusão de lugares-comuns sobre o que de facto foi o Estado Novo – tem de estar plasmada a complexidade da época, em todos os seus aspetos. Assim, a preocupação não deveria ser se ele deve existir, mas antes o que se pode e deve ali mostrar, posto que Salazar deixou muito pouco espólio pessoal e o espólio político-institucional já está tratado e integrado alhures.

Porque é isto que os apoiantes da iniciativa pretendem, preocupam-me as críticas cegas dos que se lhe opõem e ainda mais que o parlamento tenha votado uma resolução contra o dito projeto.

Os antissalazaristas arrogam-se hoje o direito de policiar a memória. Não aceitam que recordar não é homenagear e que estudar não é desculpabilizar. E não se dão conta, sequer, da contradição em que vivem, porque eles, mais do que os supostos saudosistas, deveriam ser os primeiros interessados em tal museu, para dar a conhecer aos que já só viveram a democracia o que era viver sem democracia. Isto para não falar da duplicidade de critérios típica da maioria das esquerdas: recusa-se o estudo público de Salazar (ou só se aceita fazê-lo pela cartilha do marxismo), ou aplaude-se a exumação do cadáver de Franco do Vale dos Caídos, mas nada se diz, por exemplo, sobre o mausoléu de Lenine, em Moscovo (esse sim, um verdadeiro altar laudatório de uma ideologia nada democrática).

Mais uma vez como historiador, não só acho que Salazar precisa de um museu, como considero que Franco e Lenine devem continuar onde estão – em nome do passado e da história, que é do que precisamos de cuidar. A glorificação de Lenine é parte da narrativa do comunismo, da mesma maneira que a sepultura de Franco é uma chave para a correta compreensão do franquismo. E a compreensão (informada pela história) é uma operação prévia ao juízo moralista e muito distinta deste. Dirão os críticos que uma democracia não pode conceder “espaço público” à memória das ditaduras. Pode e deve, sim, na medida em que isso contribua para clarificar o passado contra o qual se ergueram essas democracias. No fundo, o que se passa – tanto em Portugal, com os demolidores de Salazar, como lá fora, com todos os silenciadores de todo o passado que não (lhes) interessa – é que há sempre gente que quer mutilar e reescrever a história segundo cânones mais ou menos grupais. Sabemos que o passado e a história não são a mesma coisa. Todavia, se se esquecer ou falsear aquele quando se reconstrói, tentativamente, esta, nenhum dos dois se salva. E pior ainda acontece quando é de agendas mais ou menos ideologizadas do presente que se parte para a consideração de épocas anteriores à nossa. Quando assim sucede, adeus passado e adeus história, porque a verdade factual e a objetividade (que não sendo assética, não pode ser exclusivista) do discurso desaparecem na retórica míope dos intolerantes de serviço.

Comentários
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  • Luso
    19 set, 2019 Lisboa-PORTUGAL 09:06
    Há quem queira esconder a história ou refazê-la segundo ideologias deturpando os fatos e escondendo a verdade comportando-se como DITADURAS AMORDAÇADAÇANTES e INTOLERANTES e glorificando-se ou vitimizando-se para que os seus grandes feitos ou traições sejam glorificadas e monumentalizadas mascarando a verdade ou nâo.A verdade e os factos acontecidos devem ser postos a nu sem artifícios em toda a história senão ninguém compreenderia o MUNDO HOLISTICO e não segundo visões parciais.Neste caso especifico tenha a dizer que não foi SALAZAR o HOMEM mas um conjunto de HOMENS ,MILITARES,POLITICOS e Civis da época que foram pedir os seus serviços que o mesmo recusou 2 ou 3 vezes e acabou por aceitar com todos os perigos inerentes da época.A época ao ser retratada com verdade e perante a realidade de então e a de hoje vai agradar e desagradar a muita gente ,principalmente porque temos uma sociedade mais culta e que não acredita em estórias fantasiosas e até nem no MENINO JESUS.Quem tem MEDO DOS FACTOS PASSADOS OU VIVE AINDA NO PALEOLITICO POLITICO E DESTRUTURANTE .DEMOCRACIA OCIDENTAL LIVRE SEM GRILHETAS CLARIFICADORA É SEMPRE BENVINDA e a VERDADE É A VERDADE não pode mudada e não deve ser OCULTADA.
  • António Almeida
    18 set, 2019 Alfena 20:47
    Sim, faça-se o Museu. Ninguém é perfeito nem capaz de agradar a Gregos e Troianos mas, não deixa de ser interessante conhecer tudo que faz parte do nosso passado e que manteve a Nação a Navegar na procura da prosperidade. Longe, muito longe desse estado continuamos, apenas 20 % da Nação vive à Francesa e todos os outros lutam na procura de melhor futuro, que só virá se bem conhecer-mos o passado.--- Subscrevo totalmente esta publicação do JMS.
  • jose teixeira
    18 set, 2019 Portlo 17:58
    Muito bem escrito.
  • José Luís Caldeira F
    18 set, 2019 Elvas 16:57
    Que não se esqueçam de mencionar os civis - dos militares não tenho pena nenhuma - mortos na guerra colonial e dos corpos que o Salazar recusou devolver às famílias. Que não se esqueça a morte do grande Liberal Humberto Delgado mandado assassinar por Salazar. A cobardia foi de tal forma que nem a secretária desarmada pouparam. Que não se esqueça o grande Vassalo e Silva que salvou os portugueses da Índia, os quais não tinham sequer armas para resistir à União Indiana.
  • José Joaquim Cruz Pinto
    18 set, 2019 Ílhavo 12:53
    "Bonito" discurso - muito correcto e, aparentemente, até racional - à historiador competente, sem ironia absolutamente nenhuma, ... mas para ingénuos ouvirem, lerem e acreditarem. Não é medo de Salazar que move os que se opõem à iniciativa - é simplemente DESPREZO, e talvez gosto em não desperdiçar recursos, tempo e hipotético interesse, em quem teve MEDO de tudo o que verdadeiramente interessa - das pessoas, da sua vontade, da sua cultura, da sua felicidade e do seu progresso -, excepto do seu imerecido sofrimento - e isto por parte de um professor universitário (?), do qual apenas sobraram os discursos enquanto político (todos eles "bonitos", mesmo quando obscenos) mas nenhuma lição ou obra que mereça ser estudada.