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Voluntariado missionário

Convite de Mariana Costa: “Não deixem de arriscar”

17 set, 2019 - 06:35 • Ângela Roque

A jovem parte esta terça-feira em missão, por um ano, com os Leigos para o Desenvolvimento. Em entrevista à Renascença conta como a fé a fez deixar tudo para trás para abraçar um projeto ligado à defesa do ambiente na ilha de São Tomé.

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Missionária Mariana Costa entrevistada por Ângela Roque
Missionária Mariana Costa entrevistada por Ângela Roque
Ouça a entrevista de Mariana Costa à jornalista Ângela Roque

Mariana Costa tem 26 anos e parte, esta terça-feira, por um ano para S. Tomé, com os Leigos para o Desenvolvimento (LD). Vai trabalhar num projeto que nada tem a ver com a sua formação académica.

A jovem vai dedicar-se a uma vida comunitária, de serviço e simplicidade, não fazendo ideia se no final ficará por dois, como acontece com tantos voluntários.

Com um mestrado em engenharia química, Mariana explica que escolheu a área académica "porque adorava matemática e química".

"Sempre achei que fosse um curso que me diria muito. Tal não aconteceu. Fui procurando outras coisas que me interessassem e ajudassem a que a minha vida não fosse só aquele curso, e encontrei esta área mais virada para o social, para a pessoa, que me dava outro propósito, outro sentido, e com isso outro alento”, conta à Renascença.

Setembro é um mês habitual de partidas para quem faz missões de longa duração. Deixar o trabalho e a família para dedicar um ano, às vezes dois, ao voluntariado missionário não é para todos, mas os dados oficiais indicam que este tipo de projetos está a atrair cada vez mais jovens adultos. Há quem decida interromper os estudos, outros pedem licenças sem vencimento para fazer missão.

Um chamamento que ganhou espaço

A dimensão social e de solidariedade foi ganhando espaço na sua vida depois de algumas experiências de voluntariado. Numa delas esteve dois meses numa roça na ilha do Príncipe.

“Também foi um projeto de voluntariado missionário, de curta duração, mas no qual aprofundei imenso a minha fé. Eu costumava dizer que ali ser cristão era fácil, porque parecia que se via Deus em alta definição. Estive lá dois meses, e acho que foi aí que começou este bichinho de depois procurar algo maior e mais longo, para prolongar esta graça”.

A certeza de que o que queria mesmo era partir em missão só a teve no último ano, em que trabalhou como monitora no Centro Social 6 de Maio, na Amadora.

“Estive a trabalhar num projeto comunitário, com jovens e crianças, num apoio pós escolar, quase como um centro de tempos livres com apoio ao estudo. Estive lá de outubro a julho, e foi neste tempo que fiz este discernimento”.

Um processo para o qual foi decisiva a formação que fez com os LD. “É uma formação que permite que nos vamos conhecendo a nós próprios e também à organização, para ver se nos identificamos ou não com os seus valores, se vestimos a camisola dos Leigos para o Desenvolvimento”.

No seu caso, não teve dúvidas. “Cheguei à conclusão que neste tempo é a isto que sou chamada”.

Nestas declarações, em vésperas de partir em missão, Mariana diz-se entusiasmada. “Espero que seja um desafio grande e um tempo extraordinário. Não que espere que seja tudo incrível, mas que seja fora do normal”. Mas, também não esconde o nervosismo, e muito menos que aquilo que a move é a fé, que lhe dá confiança.

“Apesar de não saber aquilo que vou encontrar confio muito que estou bem entregue e que tendo decidido que este era o caminho a seguir, que Ele também me vá apoiar”.

Missão? Um bairro mais limpo

Na primeira missão de voluntariado missionário que fez, na ilha do Príncipe, Mariana trabalhou com crianças. “Naqueles dois meses estive numa roça, no sul da ilha, estávamos ligados à missão que estava lá. Os miúdos estavam de férias, por isso houve um misto entre um campo de férias e um apoio escolar. Também acompanhávamos o padre na visita aos doentes e na ida a outras roças”, para celebrar missa.

Na nova missão em São Tomé espera-a um trabalho diferente.

“Foi-me confiado o projeto do Grupo Comunitário do Bairro da Boa Morte, na cidade de São Tomé”. Uma zona “com alguma pobreza, porque há bastante desemprego”, o que já contrasta com a sua experiência anterior.

“Na roça, no sul da ilha, os miúdos vão na estrada e apanham uma fruta, é fácil subir às árvores e conseguir algo para comer. Não há fome, e na cidade isso já não acontece”, diz.

O trabalho que vai fazer “está ligado ao lixo, recolha e depósito de resíduos sólidos urbanos. Vamos procurar que o bairro seja um espaço mais limpo, não haver o risco da poluição das águas, para que depois consigamos outras coisas. Uma das pessoas que vai comigo vai tentar implementar um roteiro turístico, o que não será fácil se o bairro continuar sujo”.

“Isto é um trabalho que já está a ser feito, eu vou agarrá-lo a meio. Já há uma moto-carrinha para recolha do lixo em pontos específicos do bairro para a lixeira, por isso acho que agora será mais com as pessoas, é preciso sensibilizar a população”.

Ganhar balanço através da formação

Como acontece em todos os projetos dos Leigos para o Desenvolvimento, o objetivo é que “seja sustentável e que as pessoas da comunidade sejam capazes de agarrar e fazer disto dia-a-dia, para que quando nós nos retirarmos lhes seja fácil e quase natural seguir aquilo que fomos fazendo com eles”, diz ainda Mariana, explicando que não estará sozinha em missão.

“Na cidade vamos estar três pessoas com três projetos diferentes: eu com o Grupo Comunitário; o Diogo com o roteiro turístico e o grupo de Comerciantes; e a Diana vai com o centro informático; a roça vão estar quatro pessoas a trabalhar em projetos semelhantes”.

Ao todo, em 2019/2020, os Leigos para o Desenvolvimento vão ter sete voluntários em missão em São Tomé e Príncipe – três na cidade de S. Tomé e quatro na Roça de Porto Alegre. Há mais três voluntários que vão passar o próximo ano em Angola, e outros três na missão que a organização ligada aos jesuítas abriu na Caparica-Pragal, que é a primeira de longa duração em Portugal e onde um dos voluntários renovou pelo segundo ano.

A quem quiser saber mais sobre a organização, os projetos e missões, Mariana deixa um convite, em jeito de desafio: “a formação dos Leigos para o Desenvolvimento acontece todos os anos. Na verdade, a experiência começa logo no momento em que a pessoa decide ir a uma primeira reunião, e depois quinzenalmente vai decidindo se continua a aparecer. É quase como se fosse ganhando balanço. Às tantas é mesmo isto que está à procura, é a isto que é chamado. Por isso, se têm interesse ou curiosidade, não deixem de arriscar”.

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