Graça Franco
Opinião de Graça Franco
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Crise aproxima-se. Aumentamos o pastor ou investimos em guarda-sóis para ovelhas?

12 set, 2019 • Opinião de Graça Franco


Através do Banco Central Europeu, ficámos a saber que a crise económica está cada vez mais perto. Podemos apenas atrasar a sua chegada com uma política monetária de emergência. Taxas de juro ainda mais negativas e regresso à compra massiva, pelo Banco Central Europeu, de títulos da dívida de países da zona euro.

Tudo é possível. A partir de agora tudo pode acontecer. E não estou a falar da cartola dos partidos de que vão saindo propostas, tão caras quanto originais, como se os recursos fossem inesgotáveis. Falo do Mundo e da sua mudança alucinante. Aquele de que nunca falamos, distraídos a procurar soluções para problemas “muito complicados” como a gestão da água que evapora nas barragens ou o salário mínimo dos pastores. A solução é reduzir? Ou será melhor cobrir? Devemos aumentá-los? Ou antes investir nos guarda-sóis das ovelhas?

Através do Banco Central Europeu, ficámos a saber que a crise económica está cada vez mais perto. Podemos apenas atrasar a sua chegada com uma política monetária de emergência. Taxas de juro ainda mais negativas e regresso à compra massiva, pelo Banco Central Europeu, de títulos da dívida de países da zona euro. Foi isso que Draghi, um homem que não se dobra facilmente, anunciou esta quinta-feira. Mas nada garante que a insistência na politica dos últimos anos assegure o sucesso.

Do outro lado do Atlântico, Trump respondeu com uma declaração de guerra ao seu Banco Central. A Reserva Federal é um dos poucos organismos onde ainda não conseguiu impor uma politica impulsiva e ziguezagueante. A FED, para o presidente dos Estados Unidos, continua “sentada, sentada, sentada…” sem nada fazer para antecipar e prevenir os efeitos da política europeia de encarecimento do dólar. Fica implícito um aviso aos europeus: quem se mete com os Estados Unidos, leva.

Ninguém consegue explicar-lhe que o problema do BCE é uma Europa que vê implodir o próprio poder de compra, ao mesmo tempo que Trump lhe declara uma guerra comercial de efeitos imprevisíveis. O reforço do valor do dólar vai mesmo permitir aos europeus vender “em saldo” para a América e torna mais caras as importações dos Estados Unidos, mas, bem vistas as coisas, esse é um mero “dano colateral” e a sobre reação de Trump torna os seus efeitos ainda mais imprevisíveis.

Como também são imprevisíveis os efeitos da outra guerra comercial em curso China-EUA ou os da ainda menos calculáveis da saída da Grã-Bretanha do Clube Europeu. Ontem, Santos Silva veio avisar que o plano de emergência do Brexit é para levar a sério: mais de 3,8 mil empresas portuguesas exportadoras e importadoras vão ser contactadas uma a uma e alertadas para as medidas a adoptar para reduzir prejuízos. Isto, a somar aos efeitos perversos sobre a vasta comunidade britânica em Portugal e a incerteza gerada junto da nossa comunidade emigrante no Reino Unido, só complicam o cenário.

Mas há mais: a bolha imobiliária ameaça voltar a fazer estragos, incluindo em Portugal. Um dos efeitos do agravamento e permanência das taxas de juro negativas no mercado interbancário são as baixas taxas de juro praticadas pela banca em empréstimos e depósitos. Estas só ajudam quem pede emprestado, ao mesmo tempo que sufocam os aforradores que veem na especulação imobiliária (por cá ligada sobretudo ao turismo e à recuperação urbana) um dos poucos nichos de aplicação rentável das poucas poupanças disponíveis. Uma das causas de uma taxa de poupança nacional historicamente baixa e pouco superior a 4% está aqui.

Sem poupança não haverá investimento privado. A obsessão pelas “contas certas” partilhada por todos os partidos com aspiração parlamentar (da esquerda radical à direita da direita) impede, além disso, qualquer veleidade de reforço do investimento público à custa de um maior défice. Draghi, na sua conferência de Imprensa, bem apelou a menos ortodoxia dos Estados membros, pedindo aos Governos para evitarem políticas orçamentais que impeçam o funcionamento dos chamados “estabilizadores automáticos”. Resumindo: adeus crescimento.

Reparem que nem é preciso falar do outro lado, mais político, da moeda: das eleições de Israel e do acentuar da crise do médio oriente, da instabilidade das Coreias e do reforço da ameaça nuclear, a somar aos custos de prevenção e combate às alterações climáticas que mostram um mundo literalmente a rebentar pelas costuras e que teimam em nos desinstalar entre incêndios de Verão, chuvas torrenciais e tufões que arrasam países em meia dúzia de horas.

Mas o que se passou esta quinta-feira que piorou tudo? Repito: o Banco Central Europeu e os seus peritos reviram de novo em baixa o crescimento e a inflação. Décimas apenas. Vimos o mesmo senhor de azul a debitar números face aos mesmos jornalistas que seguem os telexs da Reuters e da Bloomberg. Uma cena comum. O problema é que isso inverteu tudo o que se esperava depois do discurso de julho e o crescimento revisto já só varia entre 1,1 previstos para este ano e 1,4 para 2021. Quanto à inflação, a nova previsão ficou, para o mesmo intervalo de três anos, entre 1,2 e 1,5.

Ou seja: temos praticamente uma economia estagnada, enquanto países tão grandes como a Itália e tão importantes como a Alemanha estão já à beira de sentirem a economia entrar em recessão. Isto é, a riqueza ameaça reduzir-se em vez de crescer. Só faltam os números do próximo trimestre para o confirmar.

Mal tirámos o nariz da água e já estamos outra vez a afundar. Um, dois, pelo menos mais três longos anos, a somar à década pedida.

E a inflação ainda mais baixa não é uma boa notícia? Não. É mesmo uma notícia péssima. Como alertava, já há muitos anos o Dr. Miguel Cadilhe, a inflação pode ser vista como “sal do crescimento”. A Europa com medo da tensão alta, e ultraortodoxa, resolveu dizer ao BCE que a sua função é zelar por uma inflação em torno dos 2%. Nem mais, nem menos. Mas sem deixar a inflação “empatar” o crescimento.

Como o BCE está atado com muitas outras restrições, apesar da rebeldia de Draghi, pouco pode fazer. O quê agora? A opção foi confundir os analistas e repor o programa suspenso em final do ano passado, voltar já a lançar de novo dinheiro na economia a partir de novembro (ao ritmo mensal de 20 mil milhões ao mês, o que é o mínimo indispensável e está longe dos 50 mil milhões já antes praticados). Por outro lado, desce a taxa cobrada aos bancos centrais pelos próprios depósitos de menos 0,4 para menos 0,5. É só uma décima, mas as taxas cada vez mais negativas são já uma inovação que dura há tempo demais. Além disso, a dúvida é se mesmo em conjunto as duas medidas terão algum efeito significativo a curto prazo, se não forem acompanhadas de uma nova politica, menos conservadora, em matéria orçamental.

O estranho é que nesta pré-campanha ainda não ouvimos falar de nada disto! Pelo contrário, a única coisa que ouvimos é: as minhas contas são mais certas do que as tuas. Certas porquê? Em quê? E à custa de quê?

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