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"Proteger o Modo de Vida Europeu". Comissão acusada de dar nome "absurdo" a pasta da imigração

10 set, 2019 - 15:00 • Filipe d'Avillez

Paulo Rangel diz que críticas da esquerda são uma tempestade num copo de água e que o Modo de Vida Europeu significa precisamente “proteção social, acolhimento, tolerância e diversidade”.

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Ainda mal foi anunciada e a nova proposta de Comissão Europeia já está a merecer muitas críticas da parte de alguns setores do Parlamento Europeu, sobretudo à esquerda, e nas redes sociais.

Vários dos novos nomes das pastas estão a provocar curiosidade, como é o caso de “Democracia e Demografia” e “Coesão e Reformas” da portuguesa Elisa Ferreira, por serem vagas ao ponto de não se compreender o que significam na realidade.

Mas o nome mais polémico é o do comissário para “Proteger o Modo de Vida Europeu”, que tem a pasta das migrações.

Rui Tavares foi uma das muitas personalidades de esquerda que se insurgiu, neste caso no Twitter, perguntando se não teria valido mais a pena a Comissão ter criado uma pasta para “Escolher Títulos de Pastas que não são Escandalosamente Ridículos, ou Pior”, e fez questão de reencaminhar um outro tweet que diz: “Então o Comissário para Proteger o Modo de Vida Europeu é, na verdade, o Comissário para Evitar que as Pessoas Alcancem o Modo de Vida Europeu”.

Em declarações à Renascença, o ex-eurodeputado e fundador do Livre diz temer que o nome seja “orwelliano”.

“O nome ou é absurdo ou é orwelliano. O comissariado para proteger o modo de vida da União Europeia parece ser o comissariado que tem a ver com a 'Europa fortaleza' e o impedir gente de aceder ao modo de vida da União Europeia.”

“Se nós pensamos que o modo de vida da União Europeia é desejável, e se de facto serve de modelo e de exemplo para muita gente à volta do mundo, o que precisamos de ter é canais legais de migração para que as pessoas não arrisquem a vida no Mediterrâneo e de um programa conjunto de reinstalação de refugiados na União Europeia para os poder distribuir de forma solidária para com os refugiados e com os Estados-membros. Precisamos disso porque as pessoas querem aceder ao modo de vida da União Europeia”.

“Como tudo o que é orwelliano em política é enganador e sinal de um desvio autoritário”, diz ainda Rui Tavares, apesar de estar disposto a dar o benefício da dúvida ao novo comissário que ocupará esta pasta, o grego Margaritis Schinas.

“Ele era antigo porta-voz da Comissão Europeia, um funcionário muito competente nos briefings europeus, mas também um exemplo de subida por dentro de funcionários que deviam ser neutrais e se politizam. Enquanto político não sabemos ainda o que revela, e portanto pode ser que seja qualquer coisa diferente”, sublinha o antigo eurodeputado.

Tempestade num copo de água

Opinião diametralmente oposta tem o eurodeputado do PSD, Paulo Rangel, que acusa a esquerda de estar a fazer uma tempestade num copo de água. O termo “Modo de Vida Europeu”, muito pelo contrário, é garante de inclusão e diversidade.

“O Partido Popular Europeu tinha na sua divisa eleitoral ‘European Way of Life’, e o que é que isso queria significar? Era no fundo a defesa da economia social de mercado. Isto é, era não tanto a defesa de um modelo ultraliberal, apenas centrado na economia, mas com uma componente social.”

“Portanto qual é o estilo de vida europeu? Porque é que tanta gente procura a Europa como destino, nomeadamente imigrantes? Porque é o sítio onde se vive melhor, e vive-se melhor não apenas porque tem uma economia mais rica do que muitas zonas do globo, mas que tem um sistema de proteção social, de acolhimento, de tolerância, de diversidade”, explica, dizendo ainda que o termo contrasta, propositadamente, com a expressão “American Way of Life”, que denota um maior individualismo.

“Sinceramente, considero que essa é uma leitura completamente desfasada do contexto e mesmo do contexto de surgimento das palavras, porque basta comparar o ‘European Way of Life’ com o ‘American Way of Life’ para se perceber que o que está em causa não é nenhuma agenda xenófoba e discriminatória.”

Já André Costa Jorge, da Plataforma de Apoio aos Refugiados, reconhece na designação algum “simplismo” e por isso algum perigo, mas em declarações à Renascença prefere ter uma visão otimista.

“É verdade que a designação é porventura um pouco simplista, e por isso perigosa, mas no contexto atual, e olhando um pouco para o comunicado da Comissão Europeia, há também um sinal de construir um modo de vida europeu que assenta naquilo que é a natureza da própria Europa”, diz.

“A Europa funda-se como uma resposta colaborativa da diversidade, uma resposta de defesa dos direitos fundamentais e organizações como a nossa têm vindo a defender que a Europa regresse a essa matriz de defesa da diversidade, de proteção dos mais vulneráveis, de sermos capazes de ultrapassar as nossas diferenças, construindo um futuro melhor para todos.”

“E é nessa perspetiva que se assenta a minha esperança nesta pasta, que saibam não só defender o modo de vida europeu mas relançá-lo e recolocá-lo como diferenciador de outros modos de vida e outras visões políticas que não são visões que a Europa tem para si e para aqueles que chegam à Europa, incluindo aqui os novos e futuros europeus, os migrantes e os refugiados a quem queremos dar a proteção e dignidade de vida que merecem”, conclui o coordenador da PAR.

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