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Itália. Novo Governo já tomou posse (mas as notícias sobre a "morte" de Salvini são manifestamente exageradas)

05 set, 2019 - 12:49 • Redação com agências

O Governo de coligação é integrado por 10 ministros do Movimento 5 Estrelas (antissistema) e nove sociais-democratas. À Renascença, Miguel Poiares Maduro, especialista em assuntos europeus, defende que a solução teve o condão de “evitar que Salvini chegasse ao poder com uma maioria parlamentar”, mas, se tudo correr mal – e pode correr mal –, pode vir, "dentro de dois ou três anos", a reforçar a posição política do líder da extrema-direita italiana.

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Os membros do novo Governo italiano, liderado pelo primeiro-ministro Giuseppe Conte, prestaram juramento e foram empossados nos seus cargos esta quinta-feira, no Palácio de Quirinale, sede da Presidência italiana. O primeiro a jurar fidelidade à República e à Constituição foi Giuseppe Conte.

O Governo de coligação é integrado por 10 ministros do Movimento 5 Estrelas (M5S/antissistema), nove do Partido Democrático (PD/social-democrata), um do partido de esquerda Livres e Iguais e um independente. Para ser confirmado, o novo Governo (que deve permanecer no cargo até ao final da legislatura em 2023) ainda deverá receber o voto de confiança do Parlamento italiano.

Este novo Executivo é mais pró-europeu do que o anterior, que era formado pelo M5S e pela Liga, e no qual Matteo Salvini (Liga) havia adquirido um peso preponderante, causando tensões com Bruxelas e várias capitais europeias, em especial, Paris e Berlim.

Salvini retirou recentemente o seu partido da coligação, o que provocou esta nova reformulação no Governo italiano. Durante os seus 14 meses como ministro do Interior italiano, Salvini frequentemente criticou os seus parceiros na União Europeia (UE), acusando-os de quererem transformar a Itália num "campo de refugiados" e de falta de solidariedade na gestão dos migrantes.

Em questões económicas, diante de um Salvini muito "pró-negócio", o M5S (movimento construído sobre a rejeição da velha classe política) opôs-se a grandes projetos europeus, como a ligação ferroviária de alta velocidade Lyon-Turim.

Depois de prestarem juramento, os 21 ministros, que incluiem sete mulheres, irão à sede do Governo para participar num primeiro conselho de ministros. Giuseppe Conte, um advogado de 55 anos e novato na política até ao ano passado e considerado próximo ao M5S, trabalhou para formar uma equipa que respeita o equilíbrio entre as duas forças políticas.

Conte falará na próxima segunda-feira na Câmara dos Deputados, antes de um voto de confiança ao novo Governo do parlamento, em que 340 dos 630 deputados pertencem aos partidos do Governo.

O fim (político) de Salvini? Se tudo correr... mal, pode voltar "dentro de dois ou três anos", prevê Poiares Maduro

Em entrevista à Renascença, o professor universitário (hoje a viver em Florença, Itália) e ex-ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional de Pedro Passos Coelho, Miguel Poiares Maduro, defende que Matteo Salvini é o grande “derrotado” nesta solução de Governo, mas garante que “no médio-longo prazo não sabemos o que vai acontecer”, pelo que não é de excluir um regresso do líder da extrema-direita ao poder.

Desse regresso, ou não, vai depender, em igual medida, o sucesso ou insucesso do novo Governo italiano.

“O fim de Salvini? Não tiraria já essa conclusão. Infelizmente. Em primeiro lugar, não sabemos a estabilidade que este Governo vai conseguir demonstrar. Em segundo, este Governo vai exercer funções num momento em que o ciclo económico e o contexto internacional vão voltar a ser difíceis. E, portanto, isso pode ser manipulado do ponto de vista de Salvini e da Liga, no sentido de poder vir a tirar partido disso eleitoralmente dentro de dois ou três anos” explica Poiares Maduro.

E conclui: “Esta solução conseguiu retirar Salvini do poder e evitar que chegasse ao poder com uma maioria parlamentar, mas pode vir a reforçar a posição política futura de Salvini”.

Certo é que, com Salvini longe do poder, a relação entre a Itália e a União Europeia.

“Um dos aspetos mais reveladores do que pode ser este Governo e do que se pretende com este Governo é a circunstância das pastas económicas e europeias estarem dominadas pelo Partido Democrata, um partido mais claramente pró-europeu e um partido mais tradicionalmente no centro da política europeia”, lembra o professor universitário e especialista em assuntos europeus.

No entanto, e internamente, a mudança (sobretudo quanto à questão dos migrantes) não se afigurou fácil. E ainda não afigura. Poiares Maduro explica: “Penso que terá de existir uma alteração de política. Mas esse foi um temas que gerou mais discussão na composição deste Governo, na medida em que o Movimento 5 Estrelas sabe o quão popular em Itália são, infelizmente, as posições que Salvini tem nesta matéria. Estava [Movimento 5 Estrelas] muito resistente a alterar aquilo que tem sido uma posição muito dura do Governo italiano, desde logo no sentido de recusar a entrada de requerentes de asilo nos portos italianos”.

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