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Domingos Gomes: “Fui médico do FC Porto por causa de uma dor de dentes de Pedroto”

05 set, 2019 - 15:00 • Pedro Azevedo

O trabalho com Pedroto, a responsabilização de Artur Jorge, o feitio de Ivic e o chocolate no lanche de Bobby Robson passam por uma entrevista de Domingos Gomes a Bola Branca
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Domingos Gomes está a assinalar 50 anos como médico.

Licenciou-se em 1970 na Faculdade de Medicina do Porto. Com muitos anos de medicina desportiva, foi o responsável pelo departamento clínico do FC Porto entre 1976 e 1999. Depois do Dragão, foi médico da UEFA e da FIFA durante 15 épocas. Nessa qualidade, fez 500 controlos em 15 anos.

O início da carreira no futebol profissional ficou a dever-se a uma dor de dentes: “Aconteceu tudo por coincidência. Entrei como médico para a natação do FC Porto, em 1973, e estive lá três anos. O Dr. Santana, que era médico do FC Porto, teve que sair e foi uma dor de dentes de Pedroto que originou a minha entrada para o futebol."

"O Sr. Pedroto queixou-se de uma dor de dentes ao saudoso Hernáni Gonçalves. Este sugeriu que o treinador fosse ao 'Dr. Bee Gees'. O 'Bee Gees' era eu, porque era parecido com um dos membros desse famoso grupo musical. Resolvi-lhe o problema na hora. E foi na sequência deste episódio que me indicou ao então chefe do departamento de futebol, Pinto da Costa”, conta Domingos Gomes, em entrevista a Bola Branca.

Revolução na área médica do futebol profissional

Com a chegada ao futebol profissional do FC Porto, e com o apoio de José Maria Pedroto, Domingos Gomes implementou várias mudanças na área médica do clube, que marcaram uma época em Portugal.

“Havia muitas coisas para fazer. O Dr. Santana tinha as coisas bem organizadas, mas levei os conceitos de quem estava na fisiologia, na Faculdade, e estava dentro da Medicina Desportiva, por causa da cardiologia feita aos jogadores e por estar na natação. Cerquei-me de trinta e tal pessoas. Do Dr. Espergueira Mendes ao Dr. Emílio Peres, chamei os melhores a vários níveis e tudo aquilo funcionou em pleno. Foi uma grande revolução, no clube e no país", recorda.

Torneiras abertas para os jogadores

Na década de 70, as torneiras eram fechadas durante os treinos e ninguém bebia. Era um preconceito que havia de que os atletas não deveriam beber água nos treinos.

“Pura ignorância, esse condicionalismo. Falei com o Sr. Pedroto e as torneiras abriram-se completamente”, enfatiza Domingos Gomes.

Mais tarde, já nos anos 80, o FC Porto começou a levar cozinheiro para os jogos fora: “Eram razões de defesa, controle e rigor. Quando fomos a Kiev e Dontesk, levámos cozinheiro e alimentos, porque Chernobil tinha sido muito recente."

Sessões de treino às 3 da manhã nas Antas

Na preparação para a final da Taça Intercontinental, em dezembro de 1987, Domingos Gomes recomendou a Ivic treinos de madrugada, no Estádio das Antas, o primeiro às 3h00, para adaptação ao fuso horário do Japão, onde os portistas venceram a Taça Intercontinental frente ao Peñarol.

“Voou tudo o que estava em cima da secretária do Sr. Ivic, porque ele não gostou. Mas Teles Roxo, diretor do futebol, e o presidente Pinto da Costa disseram ao treinador que se teria de fazer o que o médico mandasse. Eu tinha por escrito a opinião da NASA e da medicina aeronáutica da TAP, que era das melhores do mundo. A preparação que preconizei, se não tivesse sido feita, teríamos tido no Japão complicações sérias", sustenta o médico.

Pedroto, Artur Jorge e Sir Bobby Robson

Nos 23 anos de FC Porto como responsável médico pelo futebol profissional, Domingos Gomes fala dos principais treinadores com quem trabalhou.

“Pedroto foi o que mais me marcou e a todo o universo do FC Porto que é José Maria Pedroto. Mas tenho de reconhecer que Artur Jorge foi o treinador que responsabilizou o departamento médico. Nenhum jogador entrava em campo sem a assinatura do médico. O treinador que me marcou profundamente foi Bobby Robson. Tinha um enorme respeito ao Departamento Médico, a quem dedicou a distinção atribuída pelos jornalistas quando foi campeão", lembra.

Domingos Gomes conta que Bobby Robson "alegrou tudo o que trabalhava à volta dele":

"Um dia, perguntou-me porque não lhe colocava um chocolate no lanche quando regressava dos jogos. Disse-lhe que receava um distúrbio digestivo. Ele lembrou-me que não jogava e por essa razão passei a colocar-lhe sempre um chocolate na bolsa do lanche."

Domingos Gomes tem 79 anos e, na quarta-feira, 4 de setembro, foi homenageado em Matosinhos, por um grupo de jornalistas de todo o país.


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