José Miguel Sardica
Opinião de José Miguel Sardica
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​António Costa: o poder como programa

04 set, 2019 • Opinião de José Miguel Sardica


Costa diz que os portugueses não gostam de maiorias absolutas; secretamente, o que ele pensa é que não as haverá melhores senão comandadas por si.

À medida que o tempo vai passando pela democracia portuguesa, parece reforçar-se a ideia de que poucos são os governos apostados em fazer reformas de fundo e muitos aqueles que pretendem apenas ser governo, nisso e com isso esgotando a sua razão de ser. O poder deixou de ser um meio para um fim e passou a ser um fim em si mesmo. Há que conquistá-lo e segurá-lo; o resto vai-se vendo. António Costa é, infelizmente, a demonstração disto e é útil recordar de onde ele vem.

Já nem falo do seu passado guterrista ou socrático, no primeiro caso como ministro de um governo que acabou no pântano, no segundo caso como n.º 2 de uma maioria absoluta da qual saltou para a Câmara Municipal de Lisboa, em 2007, e que agora publicamente denigre, para garantir que a toxicidade política do seu antigo chefe não lhe macula o sorriso de vendedor. Diz Costa que os portugueses não gostam de maiorias absolutas; secretamente, o que ele pensa é que não as haverá melhores senão comandadas por si. O pecado original que quero sublinhar é o de 2014-15. Quando António José Seguro ganhou as eleições europeias por “poucochinho”, Costa declarou-o incompetente, tratando de o “defenestrar” (figura de estilo) da janela do Largo do Rato. Ia haver eleições dali a um ano e cheirava já a poder, porque a “tenebrosa” austeridade de Passos Coelho iria ser trucidada na urna. Em outubro de 2015, porém, Passos venceu as eleições. E Costa, apesar de ter sido segundo, não teve problemas em juntar-se ao BE e ao PCP para montar a geringonça e afastar a coligação PàF do governo. Houve ilegalidade? Não. Houve imoralidade? Sim. E também hipocrisia e oportunismo. Seguro fora corrido, apesar de ganhar; Costa achou que devia ficar, apesar de perder. E não só ficar (no PS), mas governar, com parceiros de igual oportunismo, cujo mínimo denominador comum era puramente negativo: impedir que a direita governasse. Não vale a pena insistir em águas passadas? Vale, sim. Porque esse pecado original mostrou quem é António Costa: um prestimoso democrata que acha que a direita não pode governar (porquê? será ela moralmente inferior?), e que para agarrar o poder está e estará disposto a todas as piruetas, a todas as contradições e a todos os conúbios de ocasião (fosse ele o líder do PS nos idos de 1985 e teria arrastado o PRD para uma geringonça a dois, com o único fito de barrar Cavaco Silva!)

Só uma comunicação social amorfa e esquerdizada não viu o que é preciso ver e não o denunciou como tal: o pecado original de 2014-15 existiu e é a partir dele que é necessário avaliar o atual primeiro-ministro.

Resta que irá continuar a sê-lo, equilibrando-se entre a austeridade camuflada de Centeno, as reposições de algum rendimento para segmentos votantes escolhidos e o folclore das “causas” que anima as hostes “progressistas”.

Costa quer ser, e julga-se, indispensável. Elogia Jerónimo, de olho em alguma paz sindical que os comunistas lhe vão dando, e também o PAN, não vá a causa animalista dar-lhe jeito. Não descura o Bloco, com quem sabe que pode ter de geringonçar, embora não se importe de o reduzir, em declarações que roçam a ingratidão, a um “partido de mass media”, para piscar o olho ao eleitor centrista ou desiludido do PSD, de quem espera um voto útil no PS para contrabalançar o temido crescimento desse mesmo Bloco. E mantém Rui Rio na expetativa de umas migalhas de bloco central.

Reformas de fundo? Zero. Ideias novas? Poucas. Ambição e auto presunção? Muita. António Costa vive do poder. Fora disso, não existe. Não é o único. Mas é hoje o primeiro-ministro de Portugal. É certo que podíamos ter pior. O meu desejo é que tivéssemos melhor.

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