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O que é e para que serve a câmara hiperbárica que está a tratar Ângelo Rodrigues

03 set, 2019 - 11:12 • Anabela Góis , Inês Rocha

Ator fez já uma sessão no Hospital das Forças Armadas. Tratamento consiste num "mergulho" que simula a pressão atmosférica do fundo do mar.
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Depois de ter sido submetido a quatro cirurgias, transfusões de sangue e de ter estado em coma induzido até à passada sexta-feira, o ator Ângelo Rodrigues está a ser tratado numa câmara hiperbárica, no Hospital das Forças Armadas, em Lisboa.

O ator fez já uma sessão na segunda-feira, segundo confirmou à Renascença a Capitão-Tenente médica Carla Amaro, subdiretora do Centro de Medicina Subaquática e Hiperbárica.

As câmaras hiperbáricas são um recurso em vários tipos de patologias. Simulam um "mergulho" ao fundo do mar, onde a pressão ambiente é superior à pressão atmosférica a que estamos habituados, ao nível do mar. Assim, aceleram a cicatrização e potenciam os efeitos dos medicamentos, em particular, dos antibióticos, o que acaba por evitar algumas cirurgias.

Em Portugal, há seis câmaras destas: duas nos Açores, uma na Madeira e três no continente, em Matosinhos, Lisboa e Algarve.

Mas em que consiste um “mergulho hiperbárico” e quem pode beneficiar dele? Carla Amaro explicou tudo, na Renascença, durante o programa “As Três da Manhã”.

Quem vos procura mais? São mais civis ou militares?

A medicina hiperbárica é procurada sobretudo por doentes civis, que representam 90% dos nossos doentes, apenas 10% são militares. Fornecemos um grande apoio à sociedade civil.

A câmara hiperbárica é usada para tratamentos de rotina e de urgência, em que a doença pode pôr em risco a vida do doente. A nossa urgência funciona 24 horas por dia.

Dentro das situações de urgência, a mais frequente é a intoxicação por monóxido de carbono. Resulta das intoxicações pelos esquentadores, lareiras, braseiras. Neste caso, o tratamento pode mesmo salvar a vida do doente.

Como funciona e o que é que se espera do tratamento?

Foi construída sobretudo para tratar doenças relacionadas com o mergulho, como a doença de descompressão. Quando há um acidente de mergulho, há uma libertação de bolhas de ar inerte, que ficam espalhadas por todo o organismo. Isso faz com que haja oclusão vascular e não haja fornecimento de oxigénio nesses tecidos.

A medicina hiperbárica, com o aumento da pressão, vai reduzir o tamanho da bolha e fazer com que o vaso seja finalmente aberto. Por outro lado, a hemoglobina só se consegue ligar a quatro moléculas de oxigénio, a partir daí não se consegue ligar mais.

Com o aumento da pressão hiperbárica e a fornecer oxigénio a 100%, conseguimos que o oxigénio vá pelo plasma e pelos tecidos à volta. Mesmo que haja uma oclusão, conseguimos garantir que existe um fornecimento de oxigénio aos tecidos em sofrimento.

E no caso da cicatrização, como funciona?

Outra das situações é a fasceíte necrotizante (uma infeção que causa a morte dos tecidos moles do corpo), muitas vezes associada a gangrenas de Fournier. Também é uma situação de urgência, porque tem elevado risco de mortalidade. Nessa situação, não só fornece o oxigénio necessário para produzir os radicais livres (moléculas produzidas pelas células, durante o processo de queima do oxigénio), para matar as bactérias - nós precisamos de radicais livres para as matar - como vai favorecer a atividade dos glóbulos brancos, para matar as bactérias - existem vários estudos a comprovar isso.

Por outro lado, faz com que a concentração do antibiótico nos tecidos em sofrimento seja superior, pelo aumento da pressão. E vai melhorar a vascularização. Há vários estudos a comprovar, melhora a quantidade e a qualidade do colagénio, que é fundamental no nosso organismo.

O tratamento nesta câmara melhora também a formação, de novo, do tecido muscular e do tecido ósseo. Acaba por ter uma cicatrização não só dos tecidos moles, mas também tendinosa e na cicatrização óssea.

Como funciona exatamente? A pessoa entra numa câmara e depois...

Vamos pensar que é um submarino com umas escotilhas - existem várias câmaras. O doente é colocado na câmara, o ambiente é pressurizado - o nível de pressão depende do tratamento que queremos fazer, da situação clínica. Pode ir até 15 metros de profundidade, que corresponde a duas atmosferas e meia, ou pode ser bastante mais.

Quando o doente estiver no fundo, com a pressão pretendida, é colocada uma máscara e inala oxigénio a 100%. Os tratamentos de rotina são normalmente de uma hora e meia, no total, com pressurização, o oxigénio a ser feito durante 75 minutos e depois a despressurização, mas há tratamentos prolongados que podem ir até oito horas.

Tem sempre de haver um enfermeiro a acompanhar os doentes dentro da câmara, porque pode haver alguma complicação e tem de atuar de imediato. O médico está cá fora e, se houver necessidade, é pressurizada uma antecâmara, e ele entra também para socorrer o doente.

Quais os casos mais graves que já trataram?

Ainda no ano passado tratamos dez doentes ventilados, que estão em risco de morte. A câmara tem capacidade para receber doentes ventilados - temos de ter todos os aparelhos adaptados a ambiente pressurizado.

Qual é o grau de eficácia deste método?

Normalmente os tratamentos são eficazes. Todos os dias avaliamos os doentes e pode ser necessário repetir no dia a seguir, com a mesma duração ou não. É um processo dinâmico.

Não podemos achar que fazemos determinado número de sessões e avaliamos no final. Os doentes são avaliados de forma rotineira e exaustiva.


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  • 04 set, 2019 14:34
    Um hospital militar para civis! Que coisa estranha!