José Luís Ramos Pinheiro
Opinião de José Luís Ramos Pinheiro
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Malditos croissants

27 ago, 2019 • Opinião de José Luís Ramos Pinheiro


A obsessão com a autodeterminação sexual desde a tenra idade vem de uma agenda ideológica que em Portugal o Bloco corporiza como ninguém e que o PS assume por razões mais utilitárias do que identitárias. Mas ao fazê-lo, acaba por dar força à extrema-esquerda, cuja expressão eleitoral António Costa desejaria agora contrariar.

O primeiro-ministro queixou-se, em entrevista ao Expresso, do ativismo incessante do Bloco de Esquerda. E da obsessão bloquista de pretender ser notícia a toda a hora e a todo o momento. A análise de António Costa é lúcida, mas não original. Lúcida, por traduzir o que se passa, mas não original porque desde há 20 anos que as coisas estão assim.

De há duas décadas para cá, os bloquistas comandam a agenda da esquerda. Constituíram-se numa espécie de grilo falante aos ouvidos - e na cabeça - do PS. O Bloco ‘rouba’ a bola aos colegas mais próximos, antecipa-se, desdobra-se em iniciativas, acelera o ritmo da esquerda, baralha prazos e marca o terreno. Reclama para si a iniciativa política e mediática. Um sufoco, esta chamada esquerda caviar, especializada em atrair a atenção dos media quando lhe convém, mas também em subtrair-se-lhe, sempre que não lhe interessa.

E ao comandar a esquerda, o Bloco condiciona o país. O Bloco diz, o PS faz. O Bloco cheira a moderno e o PS inveja-lhe a fama. Vai-lhe no rasto, não quer - e acha que não pode - ficar atrás.

O ascendente bloquista é indesmentível, sobretudo nos ‘costumes’ ou nas chamadas questões ‘fraturantes’. É uma agenda que gradualmente se tem imposto à sociedade. Não começou nesta legislatura. A geringonça da agenda fraturante nasceu muito antes da geringonça governamental.

A poucas semanas das eleições, António Costa vem tentar sacudir a pressão eleitoral do Bloco. Compreensível. O país nada ganharia em ser governado por um executivo socialista em quase tudo dependente do Bloco de Esquerda.

Porém, do ponto de vista eleitoral, a aposta do PS tem sido ganhadora. Ao deixar-se comandar pela agenda fraturante do Bloco, os socialistas não têm perdido votos e - coisa tida como essencial - aparentam ser modernos.

De facto, nada indica que os socialistas tenham sido ou venham a ser proximamente penalizados nas urnas, por este tipo de questões. Será surpreendente, mas tem sido assim. Muitos dos que pensam de modo diferente, não deixaram de votar PS, por causa dos temas fraturantes. Esses eleitores encolhem os ombros perante os devaneios da esquerda nos costumes e valorizam sobretudo a economia e o bem-estar.

Outros, embora descontentes, engrossam os números da abstenção. Abstendo-se não reforçam o sistema democrático, mas ainda assim não representam uma ameaça direta para o PS.

Esta estratégia do Partido Socialista teve um beneficiário direto. Se o Bloco é hoje o que é, deve-o em grande medida ao PS, incapaz de gerir e conter a agenda da extrema-esquerda que mudou de fato, até para chegar aos mais jovens, mas não trocou de identidade.

Veja-se o caso do despacho governamental que visa impor a ideologia do género nas escolas. O Estado, lê-se no despacho, “deve garantir a adoção de medidas que promovam o exercício do direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género e do direito à proteção das características sexuais das pessoas”. E pretende fazê-lo “no sistema educativo, em todos os níveis de ensino e ciclos”.

Como diz um amigo meu, o Estado não reconhece às crianças idoneidade para rejeitarem chocolates e croissants açucarados, e por isso legisla a todo o vapor para limitar a publicidade a estas iguarias. Mas já quanto à orientação sexual, o mesmo Estado, sobre as mesmas crianças, não hesita – reconhece-lhes todas as capacidades para se autodefinirem.

Na visão do Governo, as tais crianças e adolescentes que não se controlam alimentarmente têm, pelo contrário, toda a capacidade para se autodeterminarem sexualmente. E – por que não? – para definirem mesmo as casas de banho e os balneários que pretendem frequentar, nas escolas, tendo “sempre em consideração a sua vontade expressa”, como se lê no referido despacho.

Ao impor regras como esta e ao escrevê-las como escreveu, o Estado acaba por dividir as comunidades escolares. Não protege verdadeiramente quem precisa e merece ser protegido, devido à sua singularidade, nem tem em conta outros interesses legítimos em presença, nomeadamente a privacidade das outras crianças que serão, seguramente, a maioria.

Claro que bastaria uma criança em dificuldade, para que a escola devesse ser proactiva no seu acompanhamento e enquadramento, promovendo a integração e combatendo a discriminação. Mas não só no plano da orientação sexual. Na maior parte dos casos de alunos em dificuldade, os temas são outros: pedagógicos, sociais, económicos, culturais e comportamentais.

A obsessão com a autodeterminação sexual desde a tenra idade vem de uma agenda ideológica que em Portugal o Bloco corporiza como ninguém e que o PS assume por razões mais utilitárias do que identitárias. Mas ao fazê-lo, acaba por dar força à extrema-esquerda, cuja expressão eleitoral António Costa desejaria agora contrariar.

Compreendo o secretário-geral do PS. Mas ele e os seus antecessores não se podiam ter lembrado disto mais cedo?

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