A+ / A-

"Um homem raro, um português de excelência". As reações à morte de Alexandre Soares dos Santos

16 ago, 2019 - 23:00 • Redação

Alexandre Soares dos Santos, ex.-presidente do grupo Jerónimo Martins, morreu esta sexta-feira aos 84 anos, vítima de cancro.
A+ / A-

Sucedem-se as reações à morte do empresário Alexandre Soares dos Santos, vindas de todos os quadrantes da sociedade portuguesa.

O chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa, apresentou esta sexta-feira as condolências à família de Alexandre Soares dos Santos e realçou "o seu relevante papel na vida económica, social e cultural portuguesa".

"O Presidente da República evoca a personalidade singular de Alexandre Soares dos Santos e o seu relevante papel na vida económica, social e cultural portuguesa, e, pessoalmente consternado, apresenta à Família muito sentidas condolências", pode ler-se no site da Presidência da República.

"Perdeu-se um grande líder empresarial"

O ministro Adjunto e da Economia escreve, em comunicado, que, "com a morte de Alexandre Soares dos Santos, perdeu-se um grande líder empresarial, com um perfil multifacetado e um percurso incontornável na História recente de Portugal.

Ao longo dos anos, transformou uma empresa familiar num dos maiores grupos empresariais portugueses, apostando sempre na formação de quadros, nas parcerias empresariais, na inovação e na internacionalização como suportes de uma estratégia de crescimento sustentado".

"Tendo contribuído para o desenvolvimento da economia nacional, Alexandre Soares dos Santos, através da Fundação por si criada, deu também um contributo, raro entre nós, para o estudo e conhecimento da sociedade e das instituições portuguesas", acrescenta Pedro Siza Vieira.

Cavaco Silva: "Visão estratégica vai fazer falta ao país"

O ex-Presidente da República Cavaco Silva considera que "a visão estratégica de Alexandre Soares dos Santos fará muita falta" e que, com a sua morte, se "perde uma das vozes mais conscientes das fragilidades e capacidades" de Portugal.

"Portugal perde a sua ímpar capacidade de liderança empresarial, mas perde simultaneamente uma das vozes mais conscientes das fragilidades e das capacidades do país, sempre acutilante e desassombrado na sua análise. A sua visão estratégica fará muita falta", afirma Aníbal Cavaco Silva, numa declaração escrita enviada à agência Lusa.

Na opinião do antigo Presidente da República, "Soares dos Santos soube dar um impulso extraordinário ao grupo empresarial da sua família, mas manteve em cada momento a vontade de contribuir para o bem comum, a igualdade de oportunidades, a justiça social e o progresso do nosso país".

"A Fundação Francisco Manuel dos Santos, fruto da sua reflexão sobre as nossas necessidades coletivas, aquilo que somos e os passos que devemos dar para sermos melhores, é um testemunho vivo da sua generosidade e da sua liderança", acrescenta Cavaco Silva, apresentando "sentidas condolências" à família do empresário e "a todos os colaboradores do grupo empresarial".

"Fim de uma geração"

O economista João Duque começa por "dar os pêsames à família, mas em nome dos portugueses, porque Alexandre Soares dos Santos representa o bom espírito empresarial português ao serviço do coletivo, com interesse comercial, mas privilegiando uma relação muito boa com os seus colaboradores e ao serviço do interesse de Portugal".

"É um dia triste para os portugueses porque veem partir um dos seus grandes empreendedores”, acrescentou.

Duque refere ainda que a morte de Soares dos Santos representa "o fim de uma geração".

"Empresário eficiente, mas muito humano"

O jornalista Francisco Sarsfield Cabral diz que Alexandre Soares dos Santos “era não só um ótimo empresário, eficiente e capaz, como muito humano, preocupado com quem trabalhava por ele. O país fica-lhe a dever a Fundação Francisco Manuel dos Santos, um verdadeiro presente que ele deu ao país”.

"Era um empresário de sucesso, mas era um homem com uma ética muito clara e muito aberta. Havia quem se irritasse com isso, não se inibia de criticar aquilo que achava mal na governação, fossem ministros de um partido ou de outro e isso é muito raro em Portugal, porque grande parte dos empresários vive muito encostado ao Estado e ele não o fazia", acrescenta.

Rui Rio: "Agora temos de ter empresários de qualidade que continuem o trabalho”

O presidente do PSD lamenta a morte de Alexandre Soares dos Santos, um dos empresários que considera terem marcado uma época em Portugal.

Lembrando que a morte do antigo presidente da Jerónimo Martins se seguiu à de Belmiro de Azevedo e à de Américo Amorim, Rui Rio destaca que os "três empresários marcaram uma época em Portugal” e “deixaram um grande legado”.

"Agora, temos é de ter empresários de qualidade que possam continuar este trabalho que eles fizeram e outros trabalhos que o país precisa para poder progredir", afirmou aos jornalistas, em Viseu.

CDS-PP realça "forte personalidade"

O CDS-PP reconhece Alexandre Soares dos Santos como "um dos empresários mais emblemáticos e marcantes nos últimos 50 anos em Portugal" e salienta a sua "forte personalidade".

"O CDS-PP lamenta a morte do empresário Alexandre Soares dos Santos e destaca o papel relevante que, desde cedo, teve na economia, na sociedade e na cultura portuguesas", lê-se no comunicado.

Alexandre Soares dos Santos destacava-se "pela presença imponente que não deixava ninguém indiferente", recordando que era "alguém que levou a sério a responsabilidade social".

O CDS lembra ainda importância do grupo Jerónimo Martins para economia portuguesa e diz que o setor da distribuição “ficará para sempre com a sua marca indelével”. À família, o partido apresenta “os mais profundos sentimentos”.

"Um homem raro, um português de excelência"

No dia em que Portugal se despede de Alexandre Soares dos Santos, Graça Franco, diretora de Informação da Renascença, recorda “um português de excelência, que não quis essa excelência só para si”.

“Tive a sorte de o conhecer e tive e tive a sorte de aprender com ele o que é o exemplo de alguém que luta por uma educação e depois vive para dar formação e educação aos seus empregados e aos seus concidadãos”, conta.

Graça Franco relembra ainda que o maior legado que nos deixa o empresário é “o exemplo de que é bom partilhar com os outros aquilo que a sociedade nos dá e no fundo contemplar essa criação com os olhos que ele contemplou”.

“O senhor Alexandre Soares dos Santos foi um homem raro e um grande exemplo. Na altura em que lhe foi concedido o prémio Fé e Liberdade, percebeu-se bem que ele não era só um exemplo no mundo empresarial, era no mundo da cidadania também alguém que merecia o reconhecimento da sociedade”, acrescenta.

“Acho que soube aproveitar as oportunidades, percebeu a importância da educação e, sem nunca ser ‘doutor’, foi um verdadeiro senhor em todos os sentidos. Acho que pôs a render os seus talentos e os seus talentos eram muitos e se recebeu seu, eu acho que devolveu à sociedade mil”, conclui.

"Grande perda para a economia e mecenato"

O presidente do conselho de administração da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), Jaime Gama, considera a morte do empresário Alexandre Soares dos Santos como "uma grande perda" para a economia e para o mecenato no país.

"É uma grande perda, não só para a economia portuguesa, como para o mecenato em Portugal", disse à agência Lusa.

Em 2009, o empresário criou a Fundação Francisco Manuel dos Santos, que gere o portal "Pordata", Base de Dados do Portugal Contemporâneo, e lançou uma coleção de livros de ensaio, a preços reduzidos, sobre temas da atualidade.

Para Jaime Gama, Alexandre Soares dos Santos "era um espírito livre que gostava de apresentar com frontalidade todas as suas ideias e que se manteve até ao fim da vida com uma incansável energia, a refletir não só sobre o horizonte estratégico do seu grupo empresarial como também sobre as questões relevantes do país, da Europa e do mundo".

"Na Fundação Francisco Manuel dos Santos, tivemos sempre a sua presença interveniente, o estímulo para trilhar caminhos de independência, julgamento crítico, objetividade e incentivo ao debate de ideias", acrescentou o antigo presidente da Assembleia da República e antigo ministro dos Negócios Estrangeiros.

Jaime Gama destaca ainda que Alexandre Soares dos Santos, "muito para além da sua condição de empresário, era alguém profundamente ligado à reflexão sobre as questões nacionais e ao seu desejo de ver um país moderno, orientado pela lei e sem privilégios de qualquer espécie".

"Era um homem com um profundo apego ao empreendedorismo e à justiça social e que não punha balizas de nenhuma ordem ao pensamento livre e independente", diz ainda o presidente do conselho de administração da FFMS.

Perfil: “Sou um tipo feliz”

Alexandre Soares dos Santos, ex-líder da Jerónimo Martins, morreu esta sexta-feira aos 84 anos, vítima de cancro.

Nascido no Porto a 23 de setembro de 1934, Soares dos Santos reformou-se em 2013 de presidente do grupo, que liderou durante 46 anos e que tornou numa multinacional, com presença na área da distribuição em Portugal, Polónia e Colômbia. Criou também, em 2009, a Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Em dezembro de 2013, saiu da liderança do grupo e, numa entrevista ao “Jornal de Negócios”, não deixou dúvidas: “Chego a esta idade sem a mínima frustração. Tudo me correu bem. Fui feliz no casamento, fui feliz nos filhos, tenho netos. Os negócios correrem muito bem, gosto das pessoas e as pessoas gostam de mim. De maneira que sou um tipo feliz”.

Já em março de 2014, foi condecorado por Marcelo Rebelo de Sousa com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Empresarial, que distingue “quem haja prestado, como empresário ou trabalhador, serviços relevantes no fomento ou na valorização de um sector económico”.

Segundo a Lusa, que cita fonte próxima da família, as cerimónias fúnebres serão "reservadas à família, por vontade expressa" de Alexandre Soares dos Santos. "Haverá um momento público de homenagem em data a anunciar", adiantou a mesma fonte.


[Notícia atualizada em 17/08/2019, com reação do antigo Presidente Cavaco Silva, de Rui Rio (PSD) e do CDS]


legislativas 2019 promosite
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.