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Reportagem

Um campo de férias que é uma porta para outro mundo

12 ago, 2019 - 13:08 • Ana Catarina André

Todos os anos, a associação Pegadas prepara uma semana de atividades para crianças e jovens que vivem em bairros sociais. Há jogos e banhos na barragem, mas também tempos de oração e conversas sobre a importância de preservar o planeta.
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Tudo parecia correr como planeado. Na noite anterior, porém, uma discussão em crioulo entre duas adolescentes acabaria por demonstrar que, às escondidas dos mais velhos, grande parte dos participantes infringia as regras do campo de férias.

“Descobrimos que havia uma grande balburdia na hora de dormir. Em vez de se deitarem, iam para os quartos uns dos outros. Era um perigo porque havia uma estrada nacional perto e eles andavam na rua”, recorda Teresa Sande Lemos, na altura uma das animadoras. Preocupados e furiosos, os responsáveis pela atividade ponderaram acabar a atividade mais cedo e chamar os autocarros para os levarem para casa.

“Ficámos de cabeça perdida. Afinal, o que é tínhamos andado a fazer a semana toda? Andámos a ser amigos deles, a falar-lhes da verdade e do amor e eles faziam aquilo? Demos-lhes até ao meio-dia para que se acusassem. E assim foi: ao meio-dia e dois minutos começaram a aparecer miúdos de cabeça baixa.”

Nessa altura, o padre que acompanhava o grupo, o sacerdote Hugo Gonçalves, decidiu adotar uma postura diferente e começou a falar-lhes sobre a importância de perdoar.

“Disse-lhes que depois de perceberem que tinham errado, o importante era recomeçar. Os miúdos ficaram a olhar. Não percebiam o que é que era fazer uma coisa mal e ter uma segunda oportunidade”, conta Teresa. “No dia seguinte, depois de termos desistido de os mandar embora, uma das meninas dizia: “Em casa, faço coisas erradas e batem-me. Por que é que aqui me estão a dar um dia ainda mais divertido?” Para Teresa, o segredo é simples: “Aqui as respostas são dadas com amor e estes miúdos, pelo seu contexto familiar, não estão à espera disso.”

O episódio passou-se em 2016, mas segundo Teresa Sande Lemos diz muito sobre a essência do Pegadas, uma associação de campos de férias que trabalha com cinco instituições sedeadas em bairros sociais nos arredores de Lisboa. Para cada uma destas organizações, os voluntários – por norma jovens – preparam uma semana de atividades que inclui jogos, banhos de rio ou barragem, mas também momentos de oração, missa diária e conversas.

Teresa Sande Lemos é desde 2018 uma das coordenadoras do campo que se realiza no Monte de São Bento, no concelho de Alcácer do Sal. Durante seis dias, a herdade que vive da produção animal e de extensos arrozais é ocupada por 16 animadores, um padre e 43 crianças e jovens da Academia do Johnsson, associação fundada por João Semedo para prevenir situações de risco na infância e juventude.

“São miúdos com vidas difíceis. Vêm da Cova da Moura, do bairro da Boavista, do bairro do Zambujal e de outras zonas ali à volta. Alguns vivem com os avós porque têm os pais presos. Outros têm famílias pouco estruturadas”, explica Pedro Palhavã Silva que, com Teresa Sande Lemos, forma a dupla de diretores responsáveis pela atividade. “Para estes miúdos, o campo de férias representa um mundo totalmente novo.”

Desde que foi criado, em 2008, o Pegadas tem chegado a um número crescente de crianças e jovens – este ano são 214 –, mas também de animadores e outros voluntários (80 atualmente). A expansão tem sido acompanhada, nos últimos anos, pelo surgimento de dezenas de outras iniciativas do género.

De acordo com a Rede de Campos de Férias Católicos (RCF), organismo que nasceu em 2015 para agregar projetos deste tipo, decorrem este verão pelo menos 110 atividades do género – cada uma com cerca de 50 participantes. “Contando com os animadores e com os padres assistentes, estamos a falar de um universo que ronda as cinco mil pessoas”, disse à Renascença Marta Ramalho, responsável pela comunicação da RCF. Alguns estão ligados a associações, como é o caso do Pegadas, outros a paróquias, movimentos e ordens religiosas.

Ainda que cada campo tenha características específicas, há aspetos comuns entre todos, como a presença de um sacerdote, os momentos de oração e a missa. No Pegadas, os dias começam sempre com as Megas Manhãs, um tempo em que se pretende transmitir aos mais pequenos valores ou mensagens cristãs através de uma história. “Este ano, o tema do campo é ‘Ele vive em mim’”, explica Teresa Sande Lemos. “Pretendemos mostrar aos miúdos que Deus está em todas as vertentes da nossa vida, através de temas diários como ‘Ele vive no meu ser’, ‘Ele vive nas relações’, ‘Ele vive nos meus sonhos’, ‘Ele vive na natureza’, etc.”

Um dia no Pegadas

O dia dedicado à natureza, por exemplo, começa com uma encenação sobre o relato bíblico da criação do mundo. Dos mais novos, com 7 anos, aos mais velhos, com 18, todos assistem à representação feita pelos animadores, debaixo de um telheiro agrícola. De vez em quando, riem-se das roupas e dos adereços improvisados pelos mais velhos – há cabeleiras, óculos e chapéus. Pelo meio, vão conhecendo Adão e Eva, o primeiro homem e a primeira mulher criados por Deus. Alguns entusiasmam-se e querem saber mais eles. “Eles eram namorados?”, pergunta uma das meninas.

Assim que o teatro termina, Pedro Palhavã Silva encaminha o grupo para a atividade seguinte: uma caminhada até à barragem. A deslocação é feita em pequenos grupos, onde se conversa sobre o tema da manhã. “O que quer dizer casa comum?”, questiona João Maria Trincão, de 20 anos, animador no Pegadas pela primeira vez. “Quem é que aqui faz reciclagem? Sabem dizer-me para que serve o ecoponto amarelo?” As respostas sucedem-se – quase todas certas.

Um pouco mais à frente, Jorge Gonçalves, o padre que este ano acompanha o campo de férias, reúne o grupo. Depois de entoarem juntos o “Sabor da Maçã”, canção cujos versos lançam perguntas como “Quem é que fez o mundo? Quem inventou o sabor da maçã?”, o sacerdote fala-lhes sobre o cuidado do meio ambiente. Cita alguns conselhos do Papa Francisco: reduzir o consumo de água, utilizar transportes públicos e separar os resíduos. “No Inverno, também devemos usar maior quantidade de roupa para evitar ligar tantas vezes o aquecimento”, diz Jorge Gonçalves, de imediato surpreendido com a resposta de um dos participantes mais velhos. “Às vezes, o swag fala mais alto, senhor padre”, diz um dos adolescentes divertido, procurando justificar o uso de t-shirts e calções em dias mais frios.

Mais tarde, o padre Jorge Gonçalves dirá que um dos objetivos da sua presença é evidenciar que a “fé não é uma coisa de velhos”. “Queremos mostrar-lhes que Jesus veio para todos, que os ama. À medida que eles vão percebendo isso, vão respondendo de outra maneira àquilo que lhes é proposto no campo. Isso também se vê na proximidade e na autenticidade das relações que vão criando aqui no Pegadas”, diz o sacerdote de 28 anos, ordenado em julho deste ano. Sobre o aumento do número de campos de férias católicos – 50% dos 44 movimentos existentes [associações ou grupos que organizam estas iniciativas] têm menos de 10 anos –, Jorge Gonçalves diz que “como aconteceu com o escutismo há 100 anos, o espírito santo vai encontrando novas maneiras que nos ajudam a partilhar a fé com os outros”.

Por que é que o céu é azul?

O relógio começa a aproximar-se das onze da manhã e o grupo faz-se de novo ao caminho. O percurso é curto, mas suficiente para que voltem a conversar sobre plantas e animais. “Alguém sabe dar-me um exemplo de um omnívoro?”, pergunta o animador João Maria Trincão, estudante de medicina dentária. Uma das meninas responde apressadamente: “Os pombos. Comem tudo o que está no chão. Que nojo”. João esboça um sorriso e esclarece. “Não, os pombos até podem andar por todo o lado, mas não são omnívoros. Para serem teriam de comer peixe, carne e vegetais e isso não acontece.”

“E sabem por que é que o céu é azul?”, questiona de novo. “Alguém pôs corantes”, garante um dos rapazes, motivando de imediato uma gargalhada geral. Entre charadas, adivinhas e novas discussões, chegam à barragem. Saltam para a água, sob vigilância dos mais velhos, e entoam o hino do campo de férias. “Hoje canto esta canção com o Pegadas no coração”, repetem entre salpicos e pequenos saltos.

Com o aproximar da hora de almoço, chega Sofia Fragoso, de 25 anos, a “mamã do campo”, como é conhecida. E ela quem está responsável por preparar o almoço e o jantar para todos, com a ajuda de mais dois adultos. “Quando me convidaram para este serviço, disse logo que sim. Só passado algum tempo é que me caiu a ficha e percebi que teria de cozinhar. Não tenho muita experiência”, conta divertida. E adianta: “Tem corrido bem. A massa de pizza – esparguete com molho de tomate, fiambre e outros ingredientes que se usam na pizza – é sempre um sucesso.” É uma semana intensa, mas no fim vale a pena, garante. “Estar com eles faz-me tão bem que o mínimo que posso fazer é proporcionar-lhes as melhores coisas possíveis ao longo destes dias.”

Maiara tem 11 anos e é a terceira vez que participa no Pegadas. “O ano passado, não dormi na noite antes de vir para o campo. Estava tão ansiosa.” E conta: “Aqui sinto-me bem. Gosto dos jogos, das pessoas”. A missa diária nem sempre é fácil, assume. “Como estou muito tempo parada, às vezes lembro-me de coisas bonitas, mas outras penso em coisas de que não gosto”, confessa.

Santiago, de 9 anos, veio para “aprender mais coisas sobre Jesus, mas também para descansar a cabeça aos pais”. “Gostei muito da batalha naval, mas também houve outros momentos divertidos”, conta. Ao seu lado, sentada numa toalha, está Catarina, de 10 anos. “Claro que venho para me divertir, mas aqui também se aprende a amar Jesus e a ficar feliz sempre.”

Não se trata apenas de uma experiência marcante para os mais pequenos. Os animadores também acabam por ser tocados pela intensidade daqueles dias.

“No primeiro campo que fiz, quando os miúdos foram embora, não consegui parar de chorar. É uma semana tão mais do que nós, tão superior a nós, que desarma pessoas frias como eu”, diz Teresa Sande Lemos. João Maria Trincão diz que o contato diário com estas crianças e jovens tem sido “uma chapada de humildade”. E explica: “Estamos com eles a 110% e temos de nos habituar a receber muito pouco em troca, pelo menos ao início”. Muitos vivem sem gestos de carinho e atenção ao longo do ano. “Alguns ficam espantados por sabermos o nome deles e os tratarmos pelo nome.”

Além do programa preparado pelos animadores e dos tempos de oração, os participantes têm um tempo de sorna depois do almoço. “É um período mais livre em que há música, mangueiradas e futeboladas”, conta a directora do campo, Teresa Sande Lemos.

Ao longo de uma hora e meia, há jogos de corda, danças, penteados e conversas. “É a parte que eles mais gostam: a parte sem regras, mas com regras”, constata. Depois da missa ao fim da tarde, em que cada um deles tem oportunidade de fazer pequenas orações em voz alta, ainda há um jogo depois de jantar. A maioria prefere jogos de terror. “O ano passado havia um jogo com fantasmas e duendes que adorei”, recorda Margarida, de 10 anos.

Do Pegadas ficam memórias de dias felizes para a grande maioria dos participantes, diz Teresa Sande Lemos. “Alguns miúdos levam daqui uma semana divertida. Outros uma semana de encontro com Deus e com os outros que os desperta para a fé.” Depende muito de caso para caso, conclui. “O importante é eles se terem sentido amados nestes dias.”


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