A+ / A-
Forças Armadas

Quem quer ser militar? "O baixo salário não compensa”

01 ago, 2019 - 08:00 • Sofia Freitas Moreira

Dois jovens com contextos de vida diferentes viram no Exército uma oportunidade de encontrar novas experiências. Desiludidos, acabaram por fazer parte dos 25% do total de efetivos que abandonaram as Forças Armadas desde 2005. Este ano, já saíram 342 efetivos das instituições militares.
A+ / A-
Quem quer ser militar? "O baixo salário não compensa”
Quem quer ser militar? "O baixo salário não compensa”

Antes de se aventurar no Exército, Rui Pinheiro estava a tirar duas licenciaturas em simultâneo – uma em Ciências Musicais, outra em Composição Musical. Aceitou uma proposta para dar aulas, mas rapidamente percebeu que precisava de um novo desafio. Acabou por ser um dos primeiros colocados nas provas de admissão ao Exército, em 2016. Mas há três meses deixou o cargo de oficial de alferes.

Colocado em Santa Margarida da Coutada, em Constância, Rui fez novas amizades e acumulou experiências, mas diz que não sente saudades. “O tratamento que dão aos contratados é o de nos fazerem sentir um bocado burros, por sermos inexperientes", explica o jovem de 26 anos à Renascença. "Isso não vai ao encontro das minhas ideologias nem da minha forma de ver o mundo.”

Embora admita que "nem tudo foi mau" no seu percurso no Exército, Rui queixa-se da falta de motivação e da “arrogância” dos seus superiores. “Já tinha visto o mundo, tinha experiência e era licenciado, mas, de repente, era como se nenhum dos meus conhecimentos valessem alguma coisa ali dentro”, explica.

Por motivos pessoais e de saúde, o ex-oficial teve de se ausentar do Exército durante oito meses. Quando regressou, não se sentiu integrado, pelo contrário, sentiu-se pressionado. “Era como se me dissessem que, como não estive lá, mais valia ir embora.”

Aos 76 anos, com grande parte da sua vida passada no Exército e na Força Aérea, Carlos Espírito Santo é crítico dos jovens que hoje ingressam nas Forças Armadas. Percorrendo as suas memórias, Carlos, que saiu há 20 anos já com patente de general, recorda com saudade o orgulho na prática que o levou a ingressar na "tropa" aos 17 anos.

A mudança de mentalidades é uma necessidade primária para combater os problemas da falta de efetivos nas Forças Armadas, segundo Carlos. O general aposentado entrou para o Exército na altura da guerra colonial, quando as motivações eram “muito diferentes quando comparadas com as atuais”.

“O que falta aos jovens de hoje em dia é o respeito, o conhecimento e a paixão pela pátria portuguesa”, defende.

"Não me sentia feliz, era muito isolamento"

O presidente da Associação Nacional de Sargentos (ANS) discorda de Carlos Espírito Santo.

“Os jovens comparecem, mas existe uma certa confusão, porque os valores nacionais não são só a seleção nacional, são tudo o que se prende com a valorização da soberania e independência, das quais as Forças Armadas são um pilar fundamental”, explica o sargento-mor Lima Coelho à Renascença.

No seu primeiro ano de recrutamento, Rui Pinheiro foi aspirante, tendo sido promovido findo esse ano. A promoção aconteceu, mas com 12 meses de atraso. “Nesse tempo de espera, o Exército ficou-me com cerca de seis mil euros que não foram repostos”, sublinha. O caso não foi único; aconteceu com outros ex-camaradas seus.

Tendo-se dedicado especialmente à formação de recrutas, Rui diz que muitos dos seus instruendos lhe diziam que “tinham ido atrás de um sonho, de uma vida que aparece nos anúncios publicitários, que depois não tem nada a ver com aquilo que vêm a desempenhar lá dentro, que muitas vezes é cortar relva ou apanhar lixo durante semanas seguidas”.

Tal como Rui, Mariana Gonçalves frequentou o Campo Militar de Santa Margarida, durante um ano e meio. Depois dos descontos feitos, ganhava pouco mais de 400€ por mês. Decidiu sair do Exército há um ano e, hoje, frequenta o segundo ano do curso de Repórter de Som e Imagem, no Instituto Politécnico da Guarda (IPG).

Para além das típicas funções de soldado da Brigada Mecanizada, Mariana era fotógrafa de eventos, exercícios de preparação e reuniões da sua unidade. O baixo salário, o facto de haver poucas mulheres, a rotina cansativa e a falta de organização das folgas levaram a jovem de 20 anos a decidir seguir outro caminho.

“Não me sentia feliz, era muito isolamento”, explica a ex-soldado, que refere ainda que a falta de efetivos significava mais trabalho para “os poucos que estavam presentes”. “Éramos ‘tapa-buracos’", adianta. "O trabalho tinha de estar feito a horas, mas não havia tempo para fazer tudo.”

Denúncias "pecam por tardias"

Rui e Mariana rejeitam a hipótese de, algum dia, regressarem às suas carreiras no Exército ou noutro ramo das Forças Armadas. Juntos, engrossam as fileiras de efetivos que abandonaram a carreira militar nos últimos anos.

O problema da falta de efetivos persiste há vários anos, mas, ao longo do último mês, tem dado que falar e ganhou estatuto de polémica, sobretudo depois de o Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), ter alertado, em entrevista à Renascença e ao "Público", para o que diz ser "o problema mais premente das Forças Armadas" – nas suas palavras, "uma situação insustentável".

​Almirante Silva Ribeiro. A situação das Forças Armadas "é insustentável"
​Almirante Silva Ribeiro. A situação das Forças Armadas "é insustentável"

“Infelicidade de linguagem”, reagiu o ministro da Defesa, desdramatizando as declarações e acrescentando que se o CEMGFA não concordasse com as medidas do executivo já teria abandonado o cargo.

A acesa troca de palavras levou à divulgação de um manifesto, assinado por um oficial piloto aviador reformado. Nele, João José Brandão Ferreira sugere que o CEMGFA não deve demitir-se do cargo nem deve "deixar que o ministro o trate mal”. Aconselha ainda que “os outros três chefes [dos ramos das Forças Armadas] se unam aos conselhos superiores dos ramos” e que, caso o Almirante Silva Ribeiro seja retirado da sua função, não deixem que outra pessoa assuma o cargo.

Mais de 300 já saíram este ano

Desde o início de 2019, já saíram 342 militares das Forças Armadas, revelam dados do Minstério da Defesa revelados à Renascença. 223 abandonaram a profissão durante o período de formação. Destes, 215 eram do Exército.

Mais de 15 mil militares saíram das Forças Armadas por vontade própria ou por rescisão dos contratos a termo certo, entre 2014 e 2018. Só no último ano, mais de três mil militares abandonaram os cargos e oito em cada dez partiram antes do tempo previsto. O Exército é o ramo que vive a situação mais preocupante. Segundo o Almirante Silva Ribeiro, faltam 4.100 praças no Exército, 535 na Marinha e 950 na Força Aérea.

Questionado pela Renascença, o presidente da Associação Nacional de Sargentos diz que as declarações do CEMGFA “pecam por tardias” e que o ministro da Defesa “tende a desvalorizar algo que é uma ingerência há décadas”.

“Este alerta foi feito há quase 20 anos e na altura foi desvalorizado”, acrescenta Lima Coelho. "As dificuldades de recrutamento e de retenção hoje passam pela falta de atratividade, pela falta de respeito de sucessivas leis de serviço militar, pelo incumprimento de diversas leis que se aplicam aos militares, quer no regime de incentivos, quer no próprio regime do associativismo profissional.”

No rescaldo da polémica, o Governo apresentou um novo Portal do Recrutamento com o objetivo de facilitar o processo aos interessados numa carreira nas Forças Armadas. Gomes Cravinho descreveu o portal como uma “ferramenta urgente”, frisando a sua expectativa de, nos próximos dois anos, se chegar a “uma estabilização ou melhoria dos números” de recrutamento e retenção de militares.

A ferramenta faz parte de um plano de ação para a profissionalização, apresentado em abril deste ano, como mais uma medida para “responder ao desafio de recrutar mais e reter”.

De fora vão ficar Rui Pinheiro e Mariana Gonçalves. Nenhum dos jovens pretende voltar "à situação em que estava", nas palavras de Rui. Para Mariana, "o baixo salário não compensa" face à enorme carga de trabalho a que os militares estão sujeitos. E Rui já está de olhos postos no próximo capítulo: uma licenciatura em História, que vai iniciar no próximo ano letivo.

[ Notícia alterada às 16:30h com a especificação de que a saída dos 15 mil militares das Forças Armadas, entre 2014 e 2018, se deve à saída por vontade própria ou por rescisão dos contratos a tempo certo. ]


Todos os dados podem ser consultados no portal de dados abertos da Renascença


legislativas 2019 promosite
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Bruno Marques
    02 ago, 2019 Matosinhos 10:51
    Já compensou. Hoje, não compensa. Até 2024 e se não houver outro rumo na política, ficamos sem forças armadas e polícias visto que querem criar um país autónomo federal, uns Estados Unidos da Europa, onde haverá um unico governo federal, e mutio provavelmente seremos nada mais nada menos, que províncias europeias! Já para não falar na imigração paquistanesa e árabe que tem assolado a Europa juntamente com os ilegais legalmente chamados de refugiados vindos desses países com culturas completamente diferentes e religiões completamente diferentes! Meus senhores e senhoras, ou há novo rumo político, à semelhança de Itália, Hungria, Austria entre outros ou então Portugal deixa de o ser!
  • voz da experiência
    01 ago, 2019 19:28
    Querem é praças/sargentos/oficiais milicianos para explorarem até ao tutano e quando faltarem 6 meses para acabarem contrato começam as pressões de superiores para rescindirem de forma a simularem a saída por vontade própria (evitar pagar os milhares de euros de indemnização final). Os paizinhos fazem muito bem em aconselharem os filhos a evitarem de todo essa carreira que de carreira tem pouco ou nada visto as progressões para quadros do que quer que seja estarem muito "limitadas".
  • Joao Nogueira
    01 ago, 2019 16:00
    O que os Srs das forças armadas andam há procura , é de carne para canhão , ou seja pau para toda a obra . Porque graduados ( oficiais , sargentos ) existem muitos dentro da organização . Para fazer as tarefas diarias de farda 3 vestida ( para arranhar como se dizia na minha altura ) , ai é que falta pessoal . porque as missoes no estrangeiro , bem pagas apesar do risco , não são para todas , são só para alguns
  • ze
    01 ago, 2019 aldeia 15:20
    Não se pode ou não se deveria encarar ir para a "tropa" por não haver emprego ,mas sim ir por vocação,o que nos dias de hoje também há cada vez menos candidatos,salário baixo,longe de casa e da famila e amigos,etc.Teria de haver incentivos fortes que chamassem candidatos a "tropa".
  • Cláudio André Nobre
    01 ago, 2019 Coimbra 15:11
    É verdade que as forças armadas estão com prementes diculdades em recrutar e reter pessoal, é também verdade que a remuneração tem de ser revista para maior atratividade e real poder de compra por partes dos militares, não é verdade a remuneração de 400 euros de um soldado depois de descontos para a segurança social, irs e ADM, na verdade são 600 euros, somente uma diferença de 200. Renascença é uma rádio de renome logo sejam isentos e verdadeiros nas noticias partilhadas. Obrigado