Opinião de João Ferreira do Amaral
A+ / A-

​Continuidades

19 jul, 2019 • Opinião de João Ferreira do Amaral


As posições da nova presidente da Comissão não surpreendem face ao que é a postura habitual da burocracia comunitária.

A nova presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no seu discurso ao Parlamento Europeu, transmitiu um puro exemplo de mensagem tradicional da burocracia europeia: auto-elogios sobre o funcionamento da União, sem uma palavra sobre a evolução desastrosa da união económica e monetária nas últimas décadas, total conservantismo sobre as questões económicas, grandiloquentes declarações, sem a mínima solidez, sobre os desafios futuros, nomeadamente as alterações climáticas e tentativa de intromissão harmonizadora sobre leis laborais, coisa que o Tratado de Lisboa especificamente impede.

Nada de novo, portanto. A crise da União continuará, por isso, a desenvolver-se e a agravar-se com a efectivação do Brexit que parece cada vez mais provável e próxima.

Estas posições da nova presidente da Comissão não surpreendem face ao que é a postura habitual da burocracia comunitária.

Mas há uma situação que causa enorme perplexidade nos eleitorados de alguns países: é que os socialistas europeus desses países votaram a favor de uma candidata cujo currículo político é demonstrativo de uma postura conservadora, perfeitamente legítima, mas que nada tem a ver, principalmente na economia, com aquilo que se julgava serem as posições socialistas.

Pensando bem, talvez não haja razão para essa perplexidade. Porque, afinal também há aqui uma continuidade. Não foram os socialistas europeus que viabilizaram entusiasticamente o Tratado de Maastricht onde ficou determinada (depois inscrita e agravada no Tratado de Lisboa e regulamentos do chamado Semestre Europeu) uma concepção de política macroeconómica ultraconservadora, certamente a mais conservadora a nível mundial?

E se nos lembramos que é justamente a partir da execução de políticas desse tipo que a União entrou em decadência, que a divergência entre países se agravou, que as desigualdades se aprofundaram e que os conflitos norte-sul dentro da União se instalaram, não necessitamos de mais explicações para compreender o quase desaparecimento de boa parte dos partidos socialistas europeus. Com esta atitude de apoio a Ursula von der Leyen é só esperar pelo senhor que se segue. E não valerá a pena atribuir culpas ao populismo…

Artigos AnterioresJoão Ferreira do Amaral

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.