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“Finalmente a primeira mulher” à frente da Comissão Europeia. Reações à eleição de Ursula von der Leyen

16 jul, 2019 - 18:58 • João Pedro Barros

Presidente da República e primeiro-ministro juntos nas congratulações à alemã. Entre os partidos portugueses, apenas os representantes de Bloco de Esquerda, PCP e PAN votaram contra.
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Um Green Deal, solidariedade no Mediterrâneo e prazo do Brexit alargado. O que propõe Ursula von der Leyen?
Um Green Deal, solidariedade no Mediterrâneo e prazo do Brexit alargado. O que propõe Ursula von der Leyen?

Não é como começa, o que interessa é mesmo como acaba. Nas reações à eleição de Ursula von der Leyen para a presidência da Comissão Europeia, esta terça-feira, em Estrasburgo, governantes e eurodeputados portugueses passaram para segundo plano o processo conturbado que levou à nomeação da alemã de 60 anos pelo Conselho Europeu e destacaram o futuro (com mais ou menos otimismo, de acordo com o quadrante político). O facto de ser a primeira mulher no cargo foi outra das ideias-chave.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, saudou e felicitou Ursula von der Leyen pela sua eleição, desejando-lhe “os maiores êxitos”. Numa mensagem divulgada no site da Presidência, Marcelo Rebelo de Sousa destaca o facto de a alemã ser “finalmente a primeira mulher a ser eleita para dirigir os destinos da Comissão nos próximos cinco anos”.

O Presidente da República felicita também o Parlamento Europeu, o Conselho Europeu e os seus membros pelo que considera ser “este final feliz, muito importante para o normal funcionamento das instituições europeias”. Marcelo recorda que, agora, segue-se o processo de composição do novo colégio de comissários, que será submetido a um voto de aprovação em outubro.

O primeiro-ministro, António Costa, também já felicitou a nova presidente da Comissão Europeia. “Aguardamos com expectativa o trabalho conjunto com a equipa da @EU_Commission para a implementação da agenda estratégica progressista da UE com que a Presidente se comprometeu para os próximos 5 anos”, escreveu António Costa na rede social Twitter.

Do lado do Governo, a primeira reação foi de Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros. “Portugal regozija-se com o resultado da votação e a aprovação por parte do Parlamento Europeu das perspetivas da própria Comissão Europeia. Como o primeiro-ministro teve ocasião de dizer, entendemos que os compromissos assumidos pela presidente eleita são muito claros e vão todos no mesmo sentido: a defesa do Estado de direito, a criação de instrumentos orçamentais para a convergência, atenção à descarbonização da nossa economia”, declarou.

O governante admitiu que a votação “não foi fácil”, devido à fragmentação do Parlamento Europeu. “É preciso o consenso de pelo menos três famílias políticas, hoje na Europa é precisa esta negociação e sentido do compromisso e o nosso primeiro-ministro foi muito ativo na procura e obtenção dos compromissos necessários”.

Socialistas vão “cobrar” o apoio

Carlos Zorrinho começou por lembrar que o processo nasceu torto – “a viabilização de Frans Timmermans [candidato socialista] não foi possível pelas piores razões possíveis” –, mas está convicto de que a orientação política europeia vai entrar na linha.

“Temos consciência de que foram também os votos do grupo S&D [família política socialista] que tornaram possíveis esta eleição. Agora vamos acompanhar de forma próxima como esta candidatura se vai traduzir no colégio de comissários. Se cumprir, e acredito que sim, os cidadãos europeus serão beneficiados e os portugueses sentir-se-ão melhor representados por aqueles que elegeram para estar aqui a tomar esta decisão”, sublinhou.

O líder da delegação do Partido Socialista ao Parlamento Europeu confirmou que “os socialistas portugueses estiveram com esta solução” e, agora, “ninguém pode esquecer o papel do Parlamento Europeu”. “Se a candidata não se tivesse comprometido com objetivos e políticas progressistas não teria sido eleita. Iremos lembrar-lhe isso todos os dias, se necessário for”, avisou.

Nova presidente conhece a realidade portuguesa, garante Rangel

Pelo PSD, Paulo Rangel vê como uma “grande notícia para a União Europeia (UE) e a política em geral” a eleição de uma mulher, a que se deverá juntar outra, Christine Lagarde, na liderança do Banco Central Europeu. Quanto à votação pouco mais do que tangencial, argumentou que as expectativas para a candidata da sua família política (o PPE, Partido Popular Europeu) “não eram altas”.

“Também mostra à nova presidente que precisa de trabalhar com o Parlamento e isto vai obrigá-la a ter em conta o Parlamento Europeu em todos os passos que der. Por outro lado dá força à presidente, à própria Comissão e à UE, porque não abre uma crise e um momento de tensão”, explicou aos jornalistas.

Não passou despercebido o facto de Paulo Rangel ter sido um dos primeiros eurodeputados a felicitar Ursula von der Leyen pela nomeação e a conversa que se seguiu teve Portugal como assunto: “Ela tem conhecimento da realidade portuguesa, o que pude testemunhar ao longo das reuniões que realizámos. Vai tratar todos os países por igual, por isso não haverá nenhum problema. Temos é de conhecer bem os dossiês, reclamar, exigir. Isto não vai lá com cunhas, vai com competência”.

Nuno Melo votou a favor, mas sob condições

O sentido de voto que tinha ficado em aberto entre os eurodeputados portugueses era o de Nuno Melo, do CDS, que esta manhã disse que ainda iria refletir. Ficou a saber-se que o voto foi positivo, apesar do desagrado do centrista para com o processo que terminou esta terça-feira.

“Votei a favor, mas só depois de, no grupo parlamentar do PPE, ter dito que só o faria se ficasse claro que lutaria contra qualquer tentativa futura de imposição de uma Europa federalista, do fim do direito de veto dos estados, que considero fundamental, ou da imposição de listas transnacionais. Tendo isso ficado bem claro votei a favor, foi o meu contributo para o equilíbrio das instituições europeias, que neste momento é determinante”, resumiu.

Os votos contra da esquerda

Bloco de Esquerda (BE) e PCP, integrados no grupo parlamentar da esquerda unitária (GUE/NGL), votaram contra von der Leyen, como já estava anunciado. O único ponto elogiado pelos dois partidos foi o facto de ter sido eleita uma mulher, contribuindo para a paridade entre sexos. Mas mesmo esse facto não inibiu críticas.

“É uma comissão da qual têm emanado decisões lesivas dos direitos das mulheres. Vemos orientações como a desregulação do mercado laboral, a precariedade, a instabilidade no trabalho e na vida, a dificuldade na compatibilização da vida familiar e profissional. Há que combater este caminho e não é por aparecer uma mulher a propor e pôr em prática políticas lesivas dos interesses das mulheres que vamos passar a ter uma situação mais favorável para as próprias mulheres”, considerou João Ferreira, do PCP.

De resto, o comunista classificou o resultado de “esperado” e criticou a tentativa falhada de António Costa de conseguir uma aliança entre socialistas e liberais que determinasse o rumo europeu: “Quem promete uma aliança progressista e termina a votar a favor de uma ministra de Merkel tem uma entrada de leão e uma saída de sendeiro. Também aqui não há surpresas, o PS fez aquilo que faz há cinco, 10, 15 anos”.

José Gusmão, do BE, também criticou os socialistas europeus por terem perdido a oportunidade de rejeitar a candidata da PPE e assim serem determinantes. “A eleição marginal mostra que o Parlamento Europeu perdeu a oportunidade de fazer valer a sua legitimidade democrática, num processo que várias bancadas consideram não transparente e que não resolve os principais problemas da UE. Nas últimas duas semanas a candidata fez promessas contraditórias a todos os grupos, disse o que queriam ouvir e houve grupos que entraram nesse jogo de ilusões, comprometendo as escolhas fundamentais da UE nos próximos anos”, disse.

PAN também votou contra

A bancada dos Verdes terá votado unanimemente contra e Francisco Guerreiro, o único eurodeputado português dessa família política, confirmou ter seguido essa orientação. A descarbonização da economia foi o grande obstáculo à aprovação da comissária.

“Foi à tangente. Foi apenas por nove votos que se conseguiu a maioria. No entanto, van der Leyen foi eleita e agora tudo faremos para garantir que a continuidade seja feita com objetivos e metas muito claras. Não o conseguimos previamente, mas tudo faremos para que o compromisso seja real e a retórica passe à concretização. São cinco anos muito importantes para a União Europeia, teríamos chegado a um consenso se houvesse metas mais claras para determinados temas, como a descarbonização”, observou o estreante eurodeputado.

Anteriores comissários desejam boa sorte

Presidente da Comissão Europeia entre 2004 e 2014 e atual presidente não executivo do banco Goldman Sachs, Durão Barroso congratulou von der Leyen na rede social Twitter. "As minhas sinceras congratulações e os melhores desejos para @vonderleyen depois da sua eleição como Presidente da Comissão Europeia. Penso que ela tem mesmo todas as qualidades de competência política e compromisso europeu para liderar a nossa #Europa", escreveu.

O luxemburguês Jean-Claude Juncker utilizou a mesma via para endereçar votos de felicidade à sucessora, em alemão e inglês: "Parabéns Ursula von der Leyen. Finalmente, uma mulher está à frente da Comissão Europeia. Este trabalho é uma enorme responsabilidade e um desafio. Tenho a certeza de que será uma grande presidente. Bem-vinda a casa".


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  • Cidadao
    18 jul, 2019 Lisboa 10:04
    Mas afinal o que é que interessa? A competência para o cargo, ou ser mulher?