Entrevista a Joana Marques

"Gostava de dar palestras de desmotivação. Sou a única na seita da anti-ajuda"

12 jul, 2019 - 14:24 • Inês Rocha

Um mês depois de lançar "Vai tudo correr mal", Joana Marques confessa-se triste por não ter tido grandes insultos ou processos judiciais. Os gurus da auto-ajuda "têm boas energias, por isso, mesmo que achem isto tudo péssimo, não se manifestam", revela a humorista da Renascença... à Renascença.

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“Vai Tudo Correr Mal” é o novo livro da humorista e radialista Joana Marques – um livro de “anti-ajuda”, que pretende desconstruir, com humor, os discursos dos “gurus” da auto-ajuda.

Cerca de um mês depois do lançamento, a animadora de rádio – um dos elementos do programa “As Três da Manhã”, na Renascença – conta como afinal tudo correu bem. Além de o livro continuar nos “tops” de vendas e de estar já caminhar para a terceira edição, Joana Marques (ainda) não recebeu qualquer insulto ou processo judicial – ao contrário do que acontece habitualmente, com os seus conteúdos “extremamente desagradáveis”.

Nesta conversa, a humorista revela algumas das suas visões sobre a auto-ajuda, o “coaching”, o desapego e a descoberta do “eu interior” (e como, sem querer, essa descoberta se torna muitas vezes narcisista).

Mostra-se ainda disponível para dar palestras de desmotivação (para empresas com trabalhadores demasiado motivados) e garante que não vai haver segundo volume – “mas é como dizem os “coaches”, depois a vida vai-nos ensinando coisas, o universo põe coisas no nosso caminho e pode haver de repente uma energia que me puxe para escrever um novo livro”, admite.

Um mês depois do lançamento do teu novo livro, “Vai Tudo Correr Mal”, já há insultos e processos judiciais?

Não, pelo contrário! Por acaso, acho que o título "Vai correr tudo mal" deu sorte porque até está a correr bem. Nada de pessoas indignadas, o que é estranho, normalmente, nas coisas que eu faço. Nada de pessoas a quererem processar-me e muitas pessoas a comprarem o livro. Tem sido surpreendente. Acho cómico porque, por exemplo, ontem, no top da Fnac, estava em terceiro e os dois primeiros eram livros de auto-ajuda.

Acho que pode acontecer as pessoas irem ao engano. Veem aquele livro ali ao pé dos outros, confundem-se e pensam "este também é de auto-ajuda, vou levar". Ainda por cima aqueles livros de auto-ajuda que têm os palavrões na capa estão muito na moda. São meio pela negativa.

Não foi isso que eu pensei quando fiz este, mas olha... acho que as pessoas compram assim um pack e este vai também por arrasto. Soube ontem que ia já para a terceira edição, e ainda bem. Fico contente. No fundo sou como os gurus da auto-ajuda, também quero enriquecer.

Mas os "gurus" da auto-ajuda também são mais positivos do que os outros e não se dão ao trabalho de te insultar, não achas?

Pode ser por isso. Por acaso reparei que ficaram atentos. Nas semanas após ter lançado o livro, começaram a seguir-me no Instagram vários "coaches" disto e daquilo.

Eles pensaram "esta pessoa está a fazer pouco de nós, vamos lá ver quem ela é". Mas eles não têm maus sentimentos, têm boas energias e por isso, mesmo que achem isto tudo péssimo, não se manifestam. Acho isso positivo.

Porquê um livro de anti-ajuda? Porque é que te lembraste de ser desagradável com estas pessoas desta vez?

Porque sou fã. Antes de fazer o livro, para saber do que estava a falar, li uma série deles, aqueles mais conhecidos. Antes disso não comprava, via só as pessoas a ler e a falar sobre isso.

Apanhamos isso muitas vezes em conversas, "li o Segredo e mudou a minha vida!” Percebi que era uma tendência, que há cada vez mais à venda nas livrarias.

Via sobretudo material em vídeo desses gurus, gostava muito. Sobretudo porque eles diziam mais ou menos as mesmas coisas, comecei-me a aperceber que há certos termos que todos usam. Então achei que talvez fosse giro satirizar isso.

Aí comprei uma data deles, li tudo e vi que de facto havia coisas em comum entre todos.

Quão penosa foi essa pesquisa?

Diverti-me. Eu gosto, lá está. Porque estava nessa procura. Em cada livro em que eu pegava, dizia "vamos lá ver se neste também encontro coisas sobre auto-estima e amor próprio, sobre encontrar o ‘eu interior’, ou sobre sermos a melhor versão de nós mesmos”.

Há assim umas frases cliché que todos têm. Como eu ia nessa procura, era quase uma caça ao tesouro.

Divertia-me a ler, estava a ler com um objetivo e não só para melhorar a minha vida (tanto que não melhorei, cheguei ao fim e estava igual).

Conseguiste resumir num ou dois parágrafos essas grandes obras todas...

Sim, porque eles não têm uma narrativa muito grande. Pegam numa história muito simples, que se resume em três linhas, para depois tirar daí ensinamentos.

Por exemplo há aquele que é "O Monge que vendeu o seu ferrari", do Robin Sharma. Nesse caso é um homem que trabalha muito na bolsa de Nova Iorque, tem uma desgraça qualquer, vai parar ao hospital e fica ao lado de um monge, e muda a sua vida.

É fácil resumir as histórias desses livros, sem querer estragar a experiência a ninguém. Se quiserem podem saltar esses spoilers. A minha intenção era que as pessoas gastassem menos dinheiro nesses livros, porque eu resumo aqui tudo. Acaba por ser um dois em um.

Mas ainda assim, têm muitos volumes.

É verdade! Acho que chegou a haver o Segredo 2. O que é estranho, porque a pessoa já contou o segredo.

Eles são muito bons nisso! Eu, por exemplo, depois deste já não conseguiria escrever outro, porque tudo o que tinha para dizer sobre anti-ajuda já disse aí.

Eles estranhamente conseguem fazer 10, 20, 30 volumes. A coleção do Osho é uma coisa impressionante. O Gustavo também tem vários... eles são muito produtivos. Eu não, já esgotei.

Vi uma vez uma entrevista de Gustavo Santos ao 5 Para a Meia Noite, em que dizia orgulhosamente que não lê livros porque não tem tempo, está sempre a escrever.

(risos) Sim, eu percebo! É muito absorvente, a sua profissão. Para quê, também, ler outros livros? Todo o conhecimento está dentro dele. Ele parece-me um defensor disso. E do cão! Numa altura ele disse que o cão o ensinou a ser pai. Lembro-me que o cão se chama Doutor, achei um bom nome para cão.

Entre ele, a mulher, o filho e o cão, tem tudo o que é preciso. E percebo que possa prescindir de livros, o que é bom, porque assim significa que não vai comprar este e não se vai enervar comigo.

Na tua leitura destes livros, chegaste à conclusão que a auto-ajuda é também um pouco narcisista, certo?

Sim, acho que começa com uma boa intenção, as pessoas empenham-se muito em serem melhores e em serem a tal melhor versão delas próprias, mas depois isso bem espremido é uma coisa egoísta, porque estão tão concentradas nelas que se esquecem que há mais pessoas à volta.

Estão a investir tanto em si e em serem melhores, com aquela teoria de "se eu não gostar de mim, quem gostará?", que nunca chega o tal momento de evolução em que finalmente são tão bons que conseguem ser bons para os outros.

Eles falam muito do desapego - começam por falar do desapego material, de não ter muitas roupas, eu com isso até concordo. Até adquiri o livro da Marie Kondo, para destralhar a casa. Realmente temos todos muita coisa de que não precisamos e não faz sentido estar sempre a comprar mais tralhas.

Mas depois levam o desapego para o lado mais humano e acho que, resumindo, é livrarmo-nos das outras pessoas. Concentrarmo-nos só em nós.

Eles dizem muitas vezes "se a pessoa lhe transmite más energias, mesmo que seja o seu pai, a sua mãe, livre-se dela!". O que é uma coisa um bocado cruel. Se a pessoa está com más energias naquele momento, na semana seguinte pode estar melhor.

Acho que no fim de contas, a auto-ajuda torna-se um bocadinho egoísta e narcisista, porque as pessoas ficam obsessivamente a pensar nelas e no seu aperfeiçoamento e esquecem-se que têm outras pessoas.

Falas também no teu livro do coaching. A Ordem dos Psicólogos acha que o coaching devia estar reservado a psicólogos...

Sim, agora há cursos de um fim-de-semana que te tornam coach.

Achas que o mundo do coaching já é mais um negócio ou muitos acreditam realmente que podem ajudar?

Não sei, fico sempre na dúvida. "Será que esta pessoa acredita mesmo naquilo que está a dizer ou quer só para ganhar dinheiro?".

Não sei qual das duas até respeito mais. Por um lado, estar a fazer isso só para ganhar dinheiro parece mal, é um interesseiro, um aproveitador. Por outro lado, acreditar mesmo naquilo também não é bom sinal. Fico sempre na dúvida, não posso garantir o que as pessoas acham.

Há umas que parecem mesmo acreditar no que estão a dizer, mas acho que para haver tantos - e hoje em dia há um coach em cada esquina - há muitos que perceberam "está aqui um bom negócio e as pessoas estão sedentas disto, e vou deixar o meu trabalho chato para me meter nisto". Acho que há muitas que aproveitam.

Achas que os livros de auto-ajuda, apesar disto tudo, podem realmente ajudar pessoas?

Acho que sim. É como determinados tratamentos que funcionam nuns pacientes e não noutros.

Para mim a auto-ajuda nunca dá porque tenho sempre essa visão meio crítica e sou sempre muito cética, não estou a acreditar no que me estão a dizer. É um bocado como quererem-te hipnotizar e estares a fazer força para não te deixares hipnotizar. Enquanto outras pessoas estão tão dispostas àquilo que são logo hipnotizadas.

Acredito que a auto-ajuda sirva a algumas pessoas, mas também acho que muita gente compra esses livros na expectativa de que vai mudar, mas se calhar 90% chega ao fim do livro e está na mesma. Isto nunca foi estudado, seria interessante fazer esse estudo.

Até porque o livro não é mágico, propõe regras que a pessoa se calhar não cumpre. Às vezes há "os 20 passos que vão mudar a sua vida". A pessoa consegue um ou dois, mas aquilo é tão exigente que não consegue os 20 e se calhar fica mais frustrada do que estava antes de ler o livro.

Mas eu acredito que funcione para muita gente.

Mas ao mesmo tempo acho que outros livros normais podem ser de auto-ajuda. Podemos ler um livro do Fernando Pessoa e encontrar uma mensagem qualquer que faz sentido.

Não sentes então que podes estar a ser injusta com alguns autores.

Ah, posso, com certeza! Posso estar. Devo estar e acho que os fãs desses autores vão considerar isso de certeza. Acho que há sempre um leitor para cada livro. Deve haver muita gente que diz "a mim fez-me muito sentido ler um livro do Paulo Coelho".

Eu que não sou fã de Paulo Coelho não vejo isso assim, mas entendo. Espero que não se sintam ofendidos. Não era essa a intenção, mas é um dano colateral. Há sempre alguém que se ofende com qualquer coisa, até com este livro, acredito que sim. Embora, como disse, ainda não tenha tido nenhuma queixa, felizmente.

Também porque acho que não está escrito de uma forma muito agressiva. Simplesmente mostro porque é que não acredito muito naquilo, mas não obrigo ninguém a aderir à minha seita.

Sou só eu, na verdade. É um movimento que vai acabar rápido. Quanto à auto-ajuda, acho que ainda vamos levar com ela muitos anos e cada vez mais. Nota-se cada vez mais que até a linguagem da auto-ajuda entra cada vez mais nos vários domínios da sociedade.

Mas com tanta gente a comprar o teu livro se calhar ainda vais ter uma legião de fãs da anti-ajuda...

Pois é, se calhar vou ter... eu sugiro no fim do livro dar palestras de desmotivação.

Era uma coisa que eu gostava de começar a fazer, porque as empresas têm muitas palestras de motivação e acho que às tantas os trabalhadores podem ficar motivados demais, o que é até perigoso.

Às vezes, para baixar um bocadinho os ânimos, fazia sentido eu ir lá e fazer uma espécie de chamada até à realidade, para porem os pés no chão e perceberem que não, aquela empresa não vai ser também a melhor do mundo. Mas é possível viver com isso e viver bem.

Nunca te convidaram para uma palestra de desmotivação?

Ainda não, mas eu tenho de começar a enviar uns cartões de visita.

Estes livros também falam da educação dos filhos. Dedicas até um capítulo a isso, aos perigos da auto-ajuda para crianças.

Sim. Acho que às tantas há uma ideia de que as crianças não podem ser contrariadas. Não vamos fazer nada como fizeram os nossos pais e avós, estava tudo errado. Hoje em dia as crianças têm de ter liberdade, e há muito aquela ideia da escola moderna, cada criança faz o que quer. Se só tem jeito para a Matemática, não vai estar a perder tempo em Português.

Eu não concordo muito com isso e dou aí a minha visão de que qualquer dia os filhos já podem chicotear os pais e eles dizem "à vontade", porque não se pode contrariar, não vão as crianças ficar traumatizadas.

Faz-me um bocado confusão, essas crianças que mandam efetivamente nos pais e acho que é preciso ter cuidado nessa ideia da liberdade total.

Sou um bocadinho contrária a isso. E tenho medo que qualquer dia haja uma revolução infantil e eles mandem em nós. Imagina: invadem o Parlamento e ficamos sujeitos às vontades do Vasquinho.

No livro, prometes que no próximo sábado vais começar a escrever outro.

Pois foi, prometi e falhei.

Não vai haver mesmo um segundo?

Neste momento não. Mas lá está, é como dizem os “coaches”, depois a vida vai-nos ensinando coisas, o universo põe coisas no nosso caminho e pode haver de repente uma energia que me puxe para escrever um novo livro. Neste momento, tudo o que tinha a dizer sobre anti-ajuda está aí.

Tentei abordar essas áreas todas, a educação das crianças, as nossas relações no trabalho, se gostamos do nosso trabalho ou não, as novas profissões. A questão da auto-estima, do amor-próprio, do desapego. Aquela história do "eu interior", o que será isso, será que vale assim tanto a pena encontrá-lo? E das pessoas irem para a Índia e para Bali à procura disso, essas viagens que também estão muito na moda.

Tentei ir por capítulos e falar de todas as áreas em que a auto-ajuda normalmente toca. Portanto, à partida, acho que o assunto está encerrado, vou ter de pensar noutro assunto com o qual me meter para arranjar problemas. Já que este não deu muitos problemas, estou triste - tenho de pensar noutro.

Acho que vou mudar radicalmente de tema. O anterior tinha a ver com futebol, este com anti-ajuda, daqui a uns tempos, quem sabe receitas, não sei.

Entretanto ainda tens que plantar a árvore....

Pois é, ainda não plantei. Sou pouco dada à agricultura. Mas olha, se calhar interessar-me mais por botânica e um dia fazer um livro sobre isso.

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