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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Ter filhos aos 40: um fracasso colectivo

05 jul, 2019 • Opinião de Henrique Raposo


Não conheço melhor introdução ao fracasso colectivo da sociedade portuguesa. Uma sociedade composta por casais que começam a ter filhos aos 40 é uma sociedade em autodestruição.

“Há dias na MAC em que nenhum parto é de uma grávida com menos de 40 anos. É uma brutalidade”. Este é um facto salientado por Daniel Virella, presidente do colégio de neonatologia, ouvido pelo Expresso na semana passada. Não conheço melhor introdução ao fracasso colectivo da sociedade portuguesa. Uma sociedade composta por casais que começam a ter filhos aos 40 é uma sociedade em autodestruição. Lutar contra esta autodestruição tem sido, de resto, o coração desta coluna. Escrevo aqui na Renascença precisamente para isolar as causas deste fracasso.

Como é que chegámos a esta “brutalidade” que começa por colocar em risco a saúde ou mesmo a vida de mães e bebés? Para começar, o sacrifício e a renúncia não são valores da “geração mais bem preparada de sempre”. A minha geração e a geração ainda mais nova foram educadas no egocentrismo, num individualismo extremo que procura os prazeres imediatos e os sonhos profissionais. Portugal é um caso extremo da cultura pós-moderna que desvalorizou nas últimas décadas os conceitos de compromisso, casamento e família. Criámos uma sociedade de indivíduos solitários que jantam sozinhos, tendo a Netflix e o cão como única companhia. As nossas cidades vivem num presente perpétuo sem respeito pelo passado e sem consideração pelo futuro. É por isso que esta sociedade está a trocar as pessoas pelos animais. Literalmente. É por isso que temos os nossos velhos (o passado) a viver numa solidão que nos envergonha. É por isso que temos uma das taxas de natalidade (o futuro) mais baixas do mundo.

Por outro lado, quem rompe este cerco do egoísmo e procura de facto formar uma família encontra um rol de obstáculos. Em primeiro lugar, é mais difícil ser pai em 2019 do que em 1989. O caderno de encargos que o “ar do tempo” impõe aos pais é asfixiante. Apetece inverter a canção dos Pink Floyd, "leave the parents alone". Em segundo lugar, as grávidas e as mães são hostilizadas nos locais de trabalho - este é talvez o grande escândalo ou tabu que falta debater na sociedade portuguesa. Assim que engravida, a mulher é hostilizada; quando volta da licença, é hostilizada; quando tem de faltar devido às doenças, é hostilizada e despedida. É despedida directamente pelo patrão, mas também é despedida indirectamente pelo próprio marido, que nunca se sacrifica pela sua mulher e filhos, que nunca fica em casa a tomar conta dos miúdos. Neste contexto, é claro que as mulheres adiam o primeiro filho até à beira dos 40. Só que à beira dos 40 já é difícil engravidar. Só que à beira dos 40 ter mais do que um filho é uma proeza obviamente rara. Em terceiro lugar, o estado não tem feito políticas de família. Ter filhos não colhe benefícios fiscais e é sempre difícil e caro encontrar um lugar numa creche. Vivemos num país onde ter um bebé na creche é mais caro do que ter um filho na faculdade. Está tudo virado ao contrário.

Estive até aqui a debater o presente que criou esta “brutalidade”. Mas agora quero olhar para o futuro próximo. Se as crianças nascem quando os pais têm 40 anos, isto quer dizer que vão ter 10 anos quando os pais tiverem 50. Aos 50 anos como é que se tem energia para educar uma criança? Não se tem. Ou seja, estas crianças que nascem agora serão ainda mais egocêntricas e mimadas do que as gerações anteriores. Quase sempre filhos únicos, estas crianças vão controlar ainda mais os pais do que as crianças actuais. Por outras palavras, vamos ser uma sociedade ainda mais envelhecida e egoísta.

Que este tema não seja “o” tema é - em si mesmo - um sintoma do nosso fracasso colectivo.

*O autor escreve ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

Comentários
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  • Andreia
    30 nov, 2019 Faro 08:57
    Grande parte deste “fracasso colectivo” deve-se à crise económica que se instalou de 2010-2014, e mais outra mão cheia de anos pós crise. Estes pais agora de 40 anos, à data estavam na casa dos 30....sem emprego e sem perspectivas futuras, conhecidos também pela geração com 30 anos que ainda co-habitavam com os pais, não porque queriam, mas porque não havia alternativa, ou ... emigrar seria a solução. E não, não éramos egocêntricos, a dita crise adiou todos os nossos sonhos e ambições por uma década. Esta julgo ser a verdadeira razão deste “fracasso”. Também sou mãe quase aos 40 por tudo isto...
  • Fatima
    16 out, 2019 Brasil 03:21
    Que ABSURDO!!! Sou portuguesa, amo minha terra! Moro no Brasil porque meus pais vieram pra cá a trabalho. NUNCA li tantos absurdos!!! O autor do artigo deve ser um infeliz mau amado!
  • mia
    13 out, 2019 Brasil 19:48
    Uma sociedade composta por casais que começam a ter filhos aos 40 é uma sociedade em autodestruição. Destruição é colocar filho no mundo sem base financeira para da uma boa educação digna.Sou filha de mãe demente mental que deveria ter sido laqueada para não gerar bebes que não pudesse criar,meu pai teve 6 filhos ,nunca deu nada a eles ,eu gracas a meus avos tive ,o minimo .Deveria ter o básico e muito mais no aspecto educacional.Meus irmaos criados a base do bolsa familia ,pago por quem trabalha no país Brasil ,se não fosse esse sistema de impostos voltados para ed publica e apoio .Crianças morreriam e passariam fome por serem filhos de irresponsaveis .Enquanto muitos tinha uma ed boa para passar no vestibular ,eu com meu ensino fraco perdi minha adolescencia estudado tentando chega na base.Entrei na facul com bolsa ,mas sem ingles .Perdi oportunidades e estagios e não vi a sociedade paga meu inglês ,nem me da as oportunidades minima para ser alguem .Muitos dizem que so vence os que se esforçam o suficiente. Eu não vou ter filho nova sem ganhar o suficiente para da a meu filho uma educaçao digna,como o irresponsavel do meu pai fez .E a sociedade não ficara destruida pela taxa de natalidade ,pq as milhares decadas atras a natalidade era tao pequena assim ,muitos morriam de doenças ,pois não existia vacina .Mas é claro que o governo não acha isso ,lógico alguem tem que fazer a roda dos impostos girar,qual o futuro de alguem sem estudo ,assalariado .
  • 25 jul, 2019 21:02
    Sou educadora de infância com 36 anos e ainda não tenho filhos. Se é uma brutalidade? Não sei. Sei que trabalho com famílias e vejo muitas mães de"primeira viagem" com 40 anos com mais paciência do que algumas com 25. Se aos 50 anos já não se tem paciência? Espero que, com 50 anos esteja ainda com energia e vigor para desempenhar a minha profissão tão bem ou melhor do que desempenho agora. É eu não tenho uma criança, tenho dezenas delas, na maioria das vezes mais tempo do que os próprios pais. De qualquer forma, a maternidade é das decisões mais importantes da vida de uma mulher e aquilo em que sempre acreditei, é que deve acontecer quando a mesma está preparada para tal, independentemente de ter 20 ou 40 anos. É a paciência não é uma questão de idade, mas sim de maturidade e compromisso.
  • Maria Pires
    15 jul, 2019 Lisboa 10:14
    Estamos perante um texto sem conteúdo. Que pena!
  • Carolina
    15 jul, 2019 Oliveira Do Hospital 10:11
    que artigo parvo, nem me consigo expressar
  • Anan
    12 jul, 2019 Sintra 19:18
    Tenho 32 e não vou ter filhos, não porque não queira, mas porque não quero trazer ao mundo alguém que não vai ter água para beber, que vai ter que lutar para se alimentar e proteger contra extremismos sociais e extremos naturais e não vai saber o que é Plenitude e Paz. A nossa sociedade poderia rever os princípios que desde sempre incute de nascer, brincar, estudar, trabalhar, procriar, trabalhar mais um pouco, envelhecer, adoecer e morrer. Muitos dos que hoje nascem irão saltar alguns destes pontos e é triste vir ao mundo se não for para viver dignamente. Cada vez mais me apercebo que no futuro não vou poder comer dinheiro e se tudo correr bem talvez possa ajudar os meus parentes mais jovens a prosperar mas será uma tarefa difícil. Por fim apenas a reflexão de que não é por apenas as mulheres gerarem vida que significa que o têm que fazer, actuais mãe de filhas adultas por favor parem de pressionar uma gavidez não desejada.
  • orlando silva
    12 jul, 2019 barcelos 17:17
    Concordo e corroboro todos os comentarios anteriores porque muito mais sensatos e responsaveis do que este artigo repugnante e aberrante. Efectivamente também fui pai aos 40 anos e com muito orgulho e responsabilidade novamente pai aos 46 anos. Primeiro organizei a minha vida, casei e tive filhos que os acompanho todos os dias, tendo tempo agora para estar com eles, brincar, incutir-lhes responsabilidades, principios e outros valores. Por outro lado tenho tempo e disponibilidade para conciliar uma profissão complicada que tenho de advogado com processos em barcelos, braga, v.n. famalicão, porto, bragança, torre de moncorvo, mirandela, lisboa... conseguindo conciliar a condução dos meus filhos para as escolas, mantendo-os em escolas de referencia com muitos mais gastos e consego traze-los para casa, tudo o que me seria impossivel de fazer aos 25 ou 30 anos, por não ser rico e ter construido a minha vida a pulso. Hoje tenho 50 e faço tudo igual como quando ambos nasceram. Poderei até morrer a todo o momento mas também os mais novos podem sofrer tal fatalidade. Lucrei numa coisa: tive agora muito mais tempo por experiencia da vida, mais ponderação e paciencia do que teria aos 25 e 30 anos. E por final tenho de confessar que o que mais me revolta é não beneficiar a minha familia de nenhum apoio social, e agora há dois anos para cá sempre que algum dos meus filhos ficam doentes os serviços sociais não pagam nada.....
  • Sara
    12 jul, 2019 carcavelos 17:12
    Que besta quadrada! Artigo completamente alienado da realidade da sociedade. As pessoas não escolhem ter filhos tarde. As pessoas escolhem ter filhos no momento em que têm uma estabilidade financeira aceitável, o que infelizmente acontece muito perto ou até depois dos 40. Este artigo de opinião só revela que o autor só deve sair para rua e ver a realidade do país. Ou melhor, deixo aqui a sugestão de dizer à sua entidade patronal para, a partir de agora pôr na sua conta apenas €600/mês e depois tente criar uma família com esse dinheiro.
  • Tiago
    12 jul, 2019 Lisboa 16:20
    A melhor prova que não sou egoísta é que votaria em qualquer político que metesse uma taxa de 90% à riqueza acima de 10 milhões. Não só não sou egoísta como tenho gosto que outros não o sejam. Em vez de andarem aí com demagogias sobre as novas gerações serem irresponsáveis, as gerações mais velhas deveriam ser responsabilizadas e quem sabe criminalizadas pelo deserto que nos deixaram. Colapso económico, ecológico, desigualdade nunca vista... tenha vergonha na cara.