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​Medicina Legal. Sem perspetiva de evolução na carreira, médicos saem para o sector privado

26 jun, 2019 - 07:00 • Ana Carrilho

Filipa Gallo fez toda a carreira no Instituto Nacional de Medicina Legal e de Ciências Forenses, até 2015, quando o cansaço de um trabalho muito pesado emocionalmente, aliado a uma sobrecarga horária e à falta de perspetivas de progressão na carreira a levaram a “bater com a porta”.
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Medicina Legal é a especialidade que, desde sempre, atraiu Filipa Gallo. Através dela conseguiu dedicar-se ao que mais gostava – a investigação – desde o 1º ano na Faculdade de Medicina e entrar em estágio no Instituto Nacional de Medicina Legal e de Ciências Forenses (INML-CF), ainda ia a meio da licenciatura.

Fez toda a vida profissional no INML-CF até 2015, quando o cansaço de um trabalho muito pesado emocionalmente, aliado a uma sobrecarga horária e à falta de perspetivas de progressão na carreira a levaram a “bater com a porta” - para esta quarta e quinta-feira está marcada uma greve no setor.

Não foi a única. Segundo o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, nos últimos anos, 14 médicos abandonaram a instituição.

Filipa trabalha agora numa empresa privada, tem mais tempo para a família e para a formação. O corte não foi total e não esconde que daqui a uns anos, gostaria de voltar ao Instituto de Medicina Legal, se for aprovada nalgum concurso que venha a ter lugar. E vê com algumas reservas a abertura ao sector privado que o Governo está a prepara.

“Ganhei qualidade de vida, ganhei tempo, ganhei não estar preocupada com pressões para trabalhar rápido, ver um número elevado de pessoas, despachar relatórios de perícias. E do ponto de vista financeiro, não compensava. Acabo por ter mais disponibilidade para dedicar à família, à formação e a outras atividades”, afirma.

É assim que a especialista em Medicina Legal, Filipa Gallo explica à Renascença o que “ganhou” com a saída do Instituto Nacional de Medicina Legal há três anos. Uma decisão que, confessa, lhe custou muito a tomar. Na altura, pesou os prós e os contras e tomou a decisão, porque também “já estava a ser difícil ir trabalhar com um sorriso”.

Filipa licenciou-se em Medicina, em 2005, mas dois anos antes já tinha iniciado um estágio no Instituto de Medicina Legal, dando resposta ao seu gosto pela investigação.

O internato geral e o mestrado foram na mesma área e continuou naquele organismo. Acabou a especialidade em 2012 e, desde então, ficou à espera de abertura de concurso para integrar o quadro do Instituto, onde pensava fazer carreira. O que nunca aconteceu. Por essa altura, apesar de fazer trabalho de assistente, continuava a ganhar como interna. A necessidade de dar mais apoio aos filhos também pesou.

O Instituto de Medicina Legal não tem gente suficiente para fazer as perícias. Por isso, há quem faça perícias, nomeadamente em tribunais, para além do horário de trabalho. Filipa Gallo também as fazia e continua ligada ao INML-CF por um contrato de prestação de serviços para esse trabalho.

“Permite-me ter algum pé no Instituto e fazer atividade pericial num lugar onde há formação. Mesmo com as mudanças legislativas que estão a tentar fazer, continua a ser uma instituição onde há crescimento profissional e conhecimento científico”, sublinha em entrevista à Renascença.

Atualmente, Filipa Gallo trabalha para uma empresa privada, Diz que é a sua “cara” e não tem que lidar com situações de incompatibilidade. Garante que não é tão compensadora como a de outros colegas que saíram para empresas, trabalham com escritórios de advogados ou em seguradoras, mas faz menos horas e consegue conciliar a vida profissional com a familiar.

É um modelo para manter nos próximos anos, mas confessa que não fez um corte total com o Instituto de Medicina Legal porque, um dia, quer voltar. “Se o Ministério da Justiça autorizar a abertura de concursos e for admitida”.

Abertura aos privados. Competência e isenção postas em causa

Filipa Gallo, que também pertence à direção do Colégio da Especialidade de Medicina Legal da Ordem dos Médicos e à Comissão de Medicina Legal do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), coloca algumas reservas à possibilidade de entidades privadas virem a fazer autópsias e perícias.

Ressalvando que ainda se está perante uma proposta de lei – em discussão pública até ao fim do mês – a especialista considera que é “um abrir a porta a uma contratação direta pelo Ministério Público (MP) e entidades judiciárias de serviços de peritos privados, saltando o Instituto de Medicina Legal”.

Filipa Gallo garante que a abertura ao privado não a choca, mas desde que aconteça “com normas bem definidas e fiscalização”.

Ainda assim, questiona-se sobre a idoneidade de quem faz as perícias, como será conferida e avaliada a competência dos profissionais ou sobre a isenção e imparcialidade. “Porque este tipo de trabalho envolve muitos interesses – facilmente incompatíveis – e poderá haver desvios no trabalho que é feito”, adverte.


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