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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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O dilema que faz de nós cristãos

21 jun, 2019 • Opinião de Henrique Raposo


Os dias para servir terão sempre um sabor de frustração devido ao talento que está preso como um felino na jaula. Os dias do talento, os dias da criação, terão sempre o sabor da culpa, porque haverá sempre gente que não estamos a servir.

O senhor manda-nos servir, mas também nos manda seguir os nossos talentos. O discurso religioso fala muito do serviço, na renúncia que temos de fazer pelos outros. É verdade. No entanto, a parábola dos talentos também é translúcida: não podemos desperdiçar os dons recebidos; não podemos desperdiçá-los na acédia, não podemos enterrá-los na falta de confiança ou naquela desculpa conveniente, Ah, tenho muitos afazeres! Um dos afazeres da vida tem de ser apanhar o caminho de migalhas deixado pelo nosso talento, seja ele qual for. Por outras palavras, o senhor deixa-nos, como sempre, no centro de um dilema insolúvel.

As raras pessoas cujo talento é servir (isto é, os santos) não têm de passar por este dilema, mas nós, os comuns dos mortais, vivemos e viveremos sempre no espaço de atrito entre estas duas prescrições contraditórias. Se estou a servir os outros, um dever colectivo, como é que posso desenvolver os meus talentos, um pulsão individual? Se o meu tempo é aplicado no serviço aos outros, os meus filhos, os meus pais, os refugiados, os carenciados, como é que posso aplicar o tempo nos meus dons? Em sentido inverso: como é que posso servir os outros quando estou a trabalhar em algo que radica na minha radical solidão? Os livros e gurus de auto-ajuda têm sempre grandes planos e saídas para este enredo; prometem o fim deste e de outros dilemas. Essa promessa é uma ilusão homeopática. Viver com este dilema é a própria condição humana. A questão não é superá-lo através de uma dialética mágica; a questão é saber incorporá-lo na nossa moral – ele é a nossa espessura moral.

Os dias para servir terão sempre um sabor de frustração devido talento que está preso como um felino na jaula. Os dias do talento, os dias da criação, terão sempre o sabor da culpa, porque haverá sempre gente que não estamos a servir. É assim. Não há saída deste labirinto. Mas, se calhar, esta é uma boa definição do cristão: viver nesta tensão, nesta voltagem que nos mantém vivos, inquietos, na ponta dos dedos.

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  • João Lopes
    26 jun, 2019 11:02
    «Queres deveras ser santo? - Cumpre o pequeno dever de cada momento faz o que deves e está no que fazes» (Caminho, nº 815, de S. Josemaria Escrivá, falecido em 26-06-1975).
  • João Lopes
    26 jun, 2019 10:44
    «Queres deveras ser santo? - Cumpre o pequeno dever de cada momento faz o que deves e está no que fazes» (Caminho, nº 815, de S. Josemaria Escrivá, falecido em 26-06-1975).
  • Sasuke Costa
    22 jun, 2019 17:30
    Outro dia cometi uma gaf, pois o homem e a mulher são complementos e em muito pouco iguais, quando digo que o homem pode empurrar a roda, é normal, é uma das suas características o mesmo não se passa com a mulher que de outras coisas pouco lhes importa, ou seja, empurra com facilidade, mas sobre a roda essa é a sua prova. Pois os homens nas ruas, aqui e ali e em Fátima vão ver umas coisas, coisas que os animam, as mulheres vão ver outras coisas, coisas que as animam, vão, mas poucos lá chegam, param e recordam o que não presenciaram. Na minha opinião há tempo para tudo, para comprar recordações, para dar a ganhar e para orar.
  • Vera Costa
    22 jun, 2019 07:20
    "Os dias para servir terão sempre um sabor de frustração devido talento que está preso como um felino na jaula. Os dias do talento, os dias da criação, terão sempre o sabor da culpa, porque haverá sempre gente que não estamos a servir. É assim. Não há saída deste labirinto. Mas, se calhar, esta é uma boa definição do cristão: viver nesta tensão, nesta voltagem que nos mantém vivos, inquietos, na ponta dos dedos." Henrique Raposo, concordo consigo! Mas na ponta dos dedos, não chegamos lá! e a falar ainda muito menos! e que não pense o D. António Marta, que aqueles que vão ao Santuário de Fátima, são todos católicos, porque não são! Alguns vão lá para meterem o nariz e depois virem de lá a censurar tudo! "que é um negócio: que se vende de tudo, que ganham dinheiro com tudo"! Isto, é o que eu oiço! é aquilo que me jogam à cara! Eu não acredito, que aqueles que fazem negócio, são os católicos! só se forem muito necessitados! porque os católicos só lá vão, para adorarem Nossa Senhora! não vão lá, para irem às compras! o mais que podem trazer é uma imagem de Nossa Senhora, como recordação! mas enfim... a culpa é das televisões, porque vão ajudar à festa... O que eu acho, é que poucos pensam, como deve ser! esses é que formam o tal labirinto, que o Henrique Raposo, falou! é esse o 'talento' que fica preso na jaula como um felino! é essa ferocidade, que impede os católicos de mostrarem como é o seu verdadeiro pensamento, sobre a religião católica. Bom fim de semana, Henrique Raposo!
  • José Silva
    21 jun, 2019 22:48
    Na mouche! Com admiração pela sua clareza. José Cantante