Opinião de Ana Sofia Carvalho
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​As bebés geneticamente modificadas. O “Aterrador Mundo Novo”

04 jun, 2019 • Opinião de Ana Sofia Carvalho


A edição genética de embriões não deveria ter sido feita, não deve ser repetida e deve ser impedida internacionalmente; afinal, o progresso científico sem ética não é o “admirável mundo novo”, mas o “aterrador mundo novo” para as bebés e para todos nós.

Porquê revisitar esta temática? Porque, tal como se previa nesta experiência, com contornos éticos inaceitáveis, o balanço entre riscos e benefícios é assustadoramente problemático! De facto, foi esta semana publicado na revista Nature Medicine, uma investigação que, para além de todos os riscos previamente sublinhados, acrescenta que estes bebés têm um risco de morrer 21% superior ao de um bebé sem esta alteração.

Onde começa, afinal a história? O anúncio por Dr. Jiankui HE da modificação genética de embriões, usando a técnica de edição de genoma CRISPR-cas9, no final do ano de 2018, resultou numa condenação generalizada da comunidade científica internacional.

Mas afinal o que é que isto tudo significa? De facto, desde o momento que a genética aparece como área de conhecimento, que o sonho de corrigir doenças e características de origem genética se assume como uma meta científica desejável. No entanto, após várias tentativas falhadas de correção genética com técnicas várias, este objetivo tinha, de certa forma, ficado suspenso.

O desenvolvimento da técnica de edição de genoma através do uso da ferramenta de CRISPR-cas9, nos últimos anos, veio reanimar, de novo, o sonho de curar doenças em seres humanos. Essa técnica serve para modificar o ADN que é onde está armazenada toda a informação genética.

O uso do CRISPR permite adicionar, alterar e interromper sequências genéticas com enorme precisão e de uma maneira muito simples. Ou seja, de uma forma muito simplificada, o que esta técnica permite é alterar a cadeia de ADN através de um sistema idêntico ao “cut” e “paste” que usamos nos nossos computadores; substituir bases (vamos usar o termo letras para simplificar), adicionar “letras”, remover “letras” que, no fundo, permite curar uma doença, reforçar ou alterar uma determinada característica.

Na sequência dos desenvolvimentos na área da edição de genoma, Jiankui HE resolveu oferecer esta técnica para provocar uma mutação que existe naturalmente em algumas pessoas (aproximadamente 1%) e que as torna imune ao vírus da SIDA em embriões criados através das técnicas de PMA (Procriação Medicamente Assistida). Assim, no gene CCR5 que contem cerca de 6000 “letras” foram removidas 32 “letras” que se sabe estarem ausentes do CCR5 de pessoas que possuem imunidade natural a este vírus.

Quando o cientista anunciou, através de um vídeo do Youtube, o nascimento de duas irmãs gêmeas com um gene desativado para torná-las imunes à infeção pelo vírus da SIDA, a comunidade científica gelou!

De facto, tinham aberto a caixa de Pandora da forma mais assustadora. Jiankui HE tinha usado uma técnica muito experimental, que se sabe comete ainda muitos erros, não para modificar ratinhos ou peixes zebra em laboratório, mas para editar embriões humanos, que eram saudáveis e, certamente, pelo uso da técnica passariam a ser doentes.

Mais grave ainda é o facto desta técnica não ter sido usada para evitar o nascimento de uma criança com uma doença grave e incurável, mas para evitar o aparecimento de uma doença que pode ser evitada e que, hoje, já é crónica. E, além disso, todas as alterações e consequências negativas serão transmitidas aos seus filhos.

Tendo em consideração o estado actual da técnica, a comunidade internacional condenou veementemente estas experiências, avançando com a possibilidade das bebés nascidas após esta alteração, serem mosaicos com diferentes códigos genéticos nas suas células e, consequentemente, a predisposição para terem variadíssimas doenças (como p.e. doenças autoimunes) era muito significativa.

Este facto, é esta semana confirmado num artigo publicado na revista Nature, “CCR5-∆32 is deleterious in the homozygous state in humans Xinzhu Wei & Rasmus Nielsen Nature Medicine (2019)”. Neste artigo, dois investigadores da Califórnia afirmam que a presença da deleção Delta32 no gene CCR5 gene, tal como induzido artificialmente nas duas bebés chinesas, aumenta a mortalidade em 21%.

Assim, associado a todas as questões éticas que esta técnica levanta, temos hoje, evidência científica que a edição genética de embriões não deveria ter sido feita, não deve ser repetida e, que nesta área deve ser impedida internacionalmente; afinal, o progresso científico sem ética não é o “admirável mundo novo”, mas o “aterrador mundo novo” para as bebés e para todos nós.

Ana Sofia Carvalho, Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa

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