Opinião de Henrique Raposo
A+ / A-
Nem ateu nem fariseu

Aborto em legítima defesa

24 mai, 2019 • Opinião de Henrique Raposo


Impedir um aborto nos casos de violação e incesto é impor um mal sobre outro mal. É como impedir a legítima defesa num caso de homicídio

Sou contra o aborto. A legalização do aborto a pedido é um projecto político e legal que eu quero destruir, e estou certo de que a roda da história, que gira sobre o eixo do Evangelho, acabará por mudar o status quo. Todavia, só Deus é absoluto. Mesmo nesta questão do aborto, há zonas cinzentas e dúbias que arredondam a perfeição euclidiana desta causa. Na cidade dos homens, a moral não é uma linha recta, é uma linha às ondas como no “Grito” de Edvard Munch. Posto isto, importa ser claro: o que se está a passar nos EUA (Alabama) não faz sentido.

Impedir um aborto nos casos de violação e incesto é impor um mal sobre outro mal. É como impedir a legítima defesa num caso de homicídio. Um homicídio é sempre um mal, mas uma pessoa tem o direito de matar em caso de legítima defesa. Uma pessoa que mata para se defender fica sempre com essa cicatriz na alma, porque matar é sempre um mal. No entanto, matar é nestes casos o mal menor. Para serem coerentes com a sua visão absoluta e "perfeita" da vida, os políticos do Alabama que dizem que uma mulher não pode abortar em caso de violação também têm de defender que uma pessoa não tem o direito a matar em caso de legítima defesa (sim, podem rir à vontade: este é o Alabama das armas e da pena de morte).

Este é, para mim, o ponto central: uma mulher que engravida durante uma violação fica no campo do mal menor. Aquela gravidez é a consequência de um mal absoluto. Ela tem o direito de legítima defesa através do aborto. De resto, é por isso que defendo que a velha lei do aborto em Portugal estava correcta: a violação e o incesto são os únicas chaves (i)morais que permitem aceder à câmara onde se mata um ser humano por nascer. As únicas.

Obrigar uma mulher a ter um filho que resulta de uma violação é uma lei errada por outra razão: os políticos do Alabama querem legislar e impor a santidade. O que quero dizer com isto? Começo a resposta por um filme maravilhoso que já abordei nesta coluna: “As Inocentes”. O filme conta a história de freiras polacas violadas e engravidadas por soldados russos. Elas trazem no ventre o ovo da serpente - literalmente. A história (baseada num caso real), como já perceberam, evolui do medo para a esperança. Com a ajuda da fé e de uma enfermeira, estas mulheres conseguem transformar o mal absoluto num acto de esperança. O filme acaba com uma cena luminosa: as freiras amando os seus bebés numa foto colectiva. É um filme notável sobre a misericórdia e a redenção, que é sempre possível, sempre. O verbo cristão não é começar, é recomeçar.

A série “Happy Valley” também é extraordinária precisamente por esta razão: a personagem principal, Catherine Cawood, é uma avó que faz tudo para amar e criar o neto, que é o resultado da violação que levou a sua filha ao suicídio. O resto da família queria abandonar o garoto; o avô, o marido de Catherine, sai de casa porque não suporta ver aquele rosto, o rosto do mal. Mas Catherine resiste, passa por uma depressão, resiste ao suicídio da filha, ao divórcio, ao afastamento do outro filho. Cria o neto contra tudo e todos, apesar das suas próprias dúvidas. Tal como as freiras, Cawood é uma personificação do amor, que, como se vê, não é um mero afecto.

O problema é que este exemplo de santidade não pode ser legislado. Uma mulher que ama um filho que resulta de uma violação é a própria personificação da bondade, é porventura a pessoa mais próxima do amor de Deus. Mas, como é óbvio, esta superação pessoal não está ao alcance de todos. Não pode ser obrigatória por lei. Os santos e santas não se fazem com leis.


Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Tiago
    06 jul, 2019 - 18:44
    Uma vida não vale mais ou menos dependendo das circunstâncias. É vergonhosa a comparação feita neste artigo. A justificação do injustificável.
  • Basto
    28 mai, 2019 Penafiel 07:32
    Se este raposinho defendesse a moral católica, provavelmente a Rádio Renascença desinteressar-se-ia pelos seus escritos.
  • Maria
    28 mai, 2019 00:42
    Caro Henrique, aconselho-o a ver este testemunho. Espero que o faça da mente aberta: https://www.youtube.com/watch?v=8FCGCvlrEFk
  • João Lopes
    27 mai, 2019 10:39
    O aborto é o crime mais horroroso que existe, porque é matar um ser humano, inocente, indefeso e com a conivência da mãe, do pai, dos médicos, dos enfermeiros, do Estado, etc.…aqueles que tinham obrigação de o proteger. Não pode haver exceções para matar, muito menos matar seres humanos indefesos e inocentes. A mãe deve ser ajudada, não ficar com o filho e na medida do possível ser ressarcida do mal imenso que lhe fizeram (mas podiam ter-lhe cortado um braço, podia ter sido atropelada e ficar deficiente, etc.). Mas não pode haver exceções na defesa da vida humana…
  • Ana Carvalho
    25 mai, 2019 Lisboa 18:15
    Ou é uma vida ou não é uma vida. Não interessa a origem dessa gravidez. Ou até às 8 ou 12 semanas ainda não é vida ou já é vida. Não há fetos de primeira ou segunda. Ou se defende que nenhum aborto é legítimo ou que todos o são.
  • Mário Ferreira
    24 mai, 2019 22:37
    Depois de outras derivas recentes, Henrique Raposo defende agora que o assassínio de um ser humano inocente é um "mal menor" e.um ato de... legítima defesa! Quo vadis, Renascença?
  • José Silva
    24 mai, 2019 17:00
    Quem ler a Crónica de D. Pedro de Fernão Lopes dá com um passo em que o Rei, conhecido por ser Justiceiro, entra numa aldeia e mete conversa com uma mulher: "Como te chamas? - "Maria Violada! - "Então e por que tens esse nome?" - "Por que um homem me violou e, assim como assim, como gostava dele, casei-me com ele e temos filhos!" Ora o castigo para a violação era a morte e o Rei, que era justiceiro e quadrado, condenou o homem à morte. E assim foi, diz Fernão Lopes, que foi o homem a enforcar, com a mulher e filhos atrás. Chuta fora se não vier a propósito.
  • Alice
    24 mai, 2019 Lisboa 12:52
    Os argumentos do Henrique não são válidos. Primeiro, se uma pessoa mata outra vítima inocente em vez de matar o assassino não é considerado legítima defesa. Segundo, diz que tem que amar o bebé vítima de violação se não o abortar, e não tem, pode dá-lo para adopção. Uma vida não vale mais ou menos dependendo das circunstâncias em que foi gerada e é isso que o Henrique não percebe.
  • Pedido de correção
    24 mai, 2019 Planeta Terra 11:46
    A igreja Católica não tem leis, mas tem os dez mandamentos. O Henrique catequiza: o quinto mandamento tem reticencias..., Claro nos mandamentos do Henrique Raposo, Henrique III, (digo Henrique VIII) também colocou reticencias, no décimo mandamento. Não cobiçarás a mulher alheia........................
  • Os dez Mandamentos
    24 mai, 2019 Planeta Terra 09:52
    A igreja Católica não tem leis, mas tem os dez mandamentos, O Henrique catequiza: o quinto mandamento tem reticencias..., Claro nos mandamentos do Henrique, Henrique III também colocou reticencias, no décimo. Não cobiçarás a mulher alheia........................