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Incêndio

Reconstruir ou reinventar a catedral de Notre Dame? Conheça algumas propostas

08 mai, 2019 - 17:56 • Redação

Património Mundial da Humanidade, a famosa catedral de Paris com 856 anos é tida como um dos melhores exemplos da arquitetura gótica na Europa. A sua reconstrução depois do incêndio está agora a causar polémica.

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O Presidente de França, Emmanuel Macron, lançou o repto e as propostas ainda não pararam de chegar. Arquitetos de todo o mundo foram chamados a apresentar os seus projetos para a reconstrução do pináculo da torre central da Catedral de Notre Dame, em Paris, que ficou completamente destruído num incêndio no mês passado.

Segundo o primeiro-ministro francês, Édouard Philippe, ainda não há estimativas quanto ao custo total da reconstrução da catedral nem é certo quando é que o projeto vencedor será escolhido e anunciado ao mundo. Macron já deixou claro, contudo, que pretende que os trabalhos estejam concluídos num prazo de cinco anos.

Conheça aqui algumas das propostas já apresentadas.

Entre a ousadia do novo e a tradição arquitetónica do passado

O francês Mathieu Lehanneur sugere "não uma réplica do pináculo, mas uma escultura representativa do que se via no momento do incêndio”. Segundo Lehanneur, o monumento serviria assim de base a uma discussão da obra sobre o moderno e o antigo.

O projeto é intitulado “Chama Dourada Permanente” e a ideia é que a agulha – elemento localizado nas cristas dos telhados das catedrais – seja substituída por uma escultura de metal em forma de labaredas, ao passo que o telhado seria reconstruído em vidro.

Do “Vizum Atelier”, na Eslováquia, chega a proposta de usar o pináculo para, simbolicamente, ligar o céu à terra: “Coroa leve que liga ao céu.”

Inspirado na arquitetura gótica, os arquitetos desenharam uma agulha que projeta a luz da igreja para além das nuvens. “Nos tempos góticos, os construtores tentam alcançar o céu. Le Duc tentou-o também no século XIX e agora é possível concretizar isso”, afirma a equipa de arquitetos nas suas redes sociais.

Os italianos Massimiliano e Doriana Fuksas também querem iluminar Notre Dame, mas de uma maneira diferente dos eslovacos – desta vez, com cristais de luxo “Baccarat”.

A cobertura poderia, assim, estar toda iluminada durante a noite. “Um símbolo de cristal representa a fragilidade da história e da espiritualidade; a luz é um símbolo da imaterialidade”, descreve o gabinete.

Os italianos do “Fuksas Architects” são conhecidos por concretizarem espetáculos luminosos e parecem estar à frente da disputa para a reconstrução do pináculo da catedral francesa. O projeto já foi entregue na Câmara de Paris e parece enquadrar-se no que alguns historiadores e especialistas desejam para renovar um dos símbolos maiores da cidade.

O atelier colaborativo “Kiss the Architect” inovou na proposta apresentada, propondo uma estrutura geométrica que faz parte do movimento “kitsch”.

A estética surgiu na Alemanha e gerou alguma controvérsia entre a classe arquitetónica, com muitos estudiosos da área a usarem o termo para designar objetos vulgares que se inspiram na cultura erudita.

Os vitrais estão entre os símbolos mais reconhecidos da Notre Dame, cada um deles composto de dezenas de medalhões de vidros e círculos decorados, retratando várias cenas bíblicas.

Com isso em mente, o arquiteto brasileiro Alexandre Fantozzi, do atelier “AJ6 Studio”, em São Paulo, propõe alargar os vitrais a toda a cobertura da catedral.

Os desenhos originais do telhado e da agulha permaneceriam iguais e os vitrais poderiam ser iluminados à noite, gerando um efeito de “grandiosidade”, explica Fantozzi no Instagram.

“No gótico, há a conexão entre a Terra e o céu, e dentro da catedral, a iluminação natural multiplica-se em cores, através do filtro do telhado de vitrais”, adianta.

Uma cobertura inteiramente de vidro e um projeto o mais próximo do original é a ideia do russo Alexander Nerovnya. “Vamos preservar e melhorar uma história juntos", promete no Instagram. "Paris está à espera de um novo diamante feito para enfatizar essa beleza milenar.”

Já o francês David Deroo criou o que seria uma representação mais moderna do pináculo.

Nas redes sociais, o arquiteto questionou como seria possível “reconstituir o passado para um novo futuro” e completou dizendo que espera que o projeto escolhido seja “humilde mas inovador, delicado, belo, envolvente e criado por pessoas altamente competentes unidas à mesa", com o objetivo de "reconhecer o passado e incorporar uma inovação na catedral".

Polémica instalada

As propostas já apresentadas estão a levantar dúvidas entre historiadores e especialistas da área, da mesma forma que o repto lançado por Macron durante o incêndio gerou críticas de especialistas como o escritor inglês Theodore Dalrymple, que alertou que o narcisismo de alguns arquitetos pode prejudicar a génese arquitetónica da catedral francesa.

Mais de mil especialistas, incluindo conservadores, curadores, arquitetos, engenheiros, historiadores de arte e professores de história medieval, divulgaram uma carta aberta na qual pedem que o Presidente francês abandone a intenção de reconstruir a catedral até 2024 e que deixe o diagnóstico dos estragos para os técnicos.

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