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45 anos da libertação da Fortaleza de Peniche: “Ali estão presos homens bons”

45 anos da libertação da Fortaleza de Peniche: “Ali estão presos homens bons”

22 abr, 2019 - 09:00 • Maria João Costa , Joana Bourgard (vídeo)

Em Peniche estiveram presas 2510 pessoas, entre elas o escritor Mário de Carvalho, o historiador Fernando Rosas e o conselheiro de Estado Domingos Abrantes. Mas as gentes de Peniche também guardam memórias desse tempo. Esta quinta-feira, o primeiro-ministro, António Costa, e a ministra da Cultura, Graça Fonseca, inauguram a primeira fase deste novo Museu Nacional.

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Mais de quatro décadas depois do 25 de Abril de 1974 e passados 20 Governos, abre esta quinta-feira o novo Museu Nacional da Resistência e Liberdade. Em 2016, o espaço foi indicado pelo Governo para ser concessionado a privados, mas a decisão levantou um coro de protestos. Agora, a fortaleza onde funcionou durante cerca de 40 anos uma das prisões políticas mais emblemáticas e onde estiveram detidos entre outros, o dirigente do PCP, Álvaro Cunhal, está a ser reabilitada.

Domingos Abrantes: A defesa do património da Fortaleza de Peniche "é em si mesmo uma conquista"
Domingos Abrantes: A defesa do património da Fortaleza de Peniche "é em si mesmo uma conquista"

"A defesa deste património é em si mesmo uma conquista"

Ir buscar água à cisterna era uma oportunidade para olhar “o horizonte e o mar”. É assim que Domingos Abrantes, hoje com 83 anos, recorda um dos raros momentos de liberdade que marcaram os nove anos em que esteve preso na Fortaleza de Peniche.

De sorriso fácil, Domingos Abrantes recorda com humor alguns episódios difíceis passados dentro da prisão de alta segurança para presos políticos.

Foi em 1960 que pela primeira vez entrou dentro da Fortaleza de Peniche. Um ano depois, durante uma transferência temporária, conseguiu escapar na famosa fuga de Caxias. Domingos Abrantes e outros sete detidos conseguiram roubar o carro blindado de Salazar e arrombaram o portão, perante a estupefação dos guardas prisionais.

Passou cinco anos na clandestinidade, os últimos dois na companhia de Conceição Matos, com quem acabaria por se casar dentro da prisão de Peniche. Foi novamente preso em 1965 e ocupou uma das celas que ficou livre após a fuga de Peniche, quando Álvaro Cunhal conseguiu sair com mais nove presos.

O pavilhão C era a "segurança dentro da segurança" onde pelo menos 20 horas por dia eram passadas dentro das celas. Depois da última detenção só voltou a sair em 1973.

Nos nove anos que ali passou, recorda o frio no inverno e de como viveu sempre ao som do mar e das gaivotas. Um dos dias mais marcantes foi o dia do seu casamento. Uma cerimónia rápida, celebrada dentro da cadeia de Peniche, onde a família comemorou fora dos muros da prisão e o noivo não apareceu nas fotografias do seu próprio casamento.

Para o antigo preso político, o museu "é só por si uma conquista". Recorda que, em 1976, o I Governo Constitucional decretou a criação do Museu da Resistência, em Peniche, e lamenta que depois de vários avanços e recuos, com o risco da fortaleza se transformar num hotel, tenham passado 20 Governos até à inauguração do Museu Nacional da Resistência e Liberdade.

"A defesa deste património é em si mesmo uma conquista". Domingos Abrantes acredita na "função didática" do museu. “Não é só para as pessoas verem que afinal foi aqui que estiveram presos, que foram torturados. Não, as pessoas têm que perceber que houve pessoas que não aceitaram essa realidade e o facto de dizerem 'não', pagaram muito caro."

É hoje conselheiro de Estado e um dos cerca de 50 antigos presos ainda vivos e guarda memórias detalhadas do que ali viveu.

"Ali estão presos homens bons"

Do lado de fora dos muros da Prisão de Peniche, cresceu com os anos um movimento de resistência. A população da vila piscatória habituou-se a olhar a Fortaleza e a ver nas ruas os agentes da PIDE cruzarem-se com as famílias dos presos. João Neves é um dos homens da terra. Na memória ficou para sempre o dia em que o pai passeava com ele à porta da Fortaleza e lhe disse “ali estão homens bons”.

"Ali estão presos homens bons". A luta dos habitantes de Peniche pelos presos políticos
"Ali estão presos homens bons". A luta dos habitantes de Peniche pelos presos políticos

As famílias dos presos vinham de todas as partes do país, muitas foram ajudadas pela população local que as albergava e lhes prestava apoio logístico. Miguel Reis, hoje comerciante da vila peninsular, recorda quando aos 16 anos tinha de ir à prisão entregar os bolos de aniversário que as famílias deixavam encomendadas para os presos.

Carlos Mota, que durante anos foi proprietário dos Estaleiros de Peniche, recorda os seus tempos de estudante e de como se preocupou em construir uma resistência. O seu nome está num relatório da PIDE. Outro dos testemunhos de quem conviveu com a prisão paredes meias é o de Manuela Farto. Esta penichence recorda o segredo que a sua amiga, filha de um guarda da prisão lhe contou no dia em que Álvaro Cunhal fugiu.

“Uma vitória na luta pela memória”

É caso para dizer que viveu a História na primeira pessoa. O historiador Fernando Rosas é um dos presos que passou por Peniche em 1973, numa fase em que na cadeia de alta segurança, a repressão já não era tão apertada. Foi parar á cela 42 do Pavilhão B por ter assobiado a Internacional e porque companheiros seus de então, fizeram um levantamento de rancho.

Fernando Rosas. O Museu Nacional da Resistência e Liberdade é “uma vitória na luta pela memória”
Fernando Rosas. O Museu Nacional da Resistência e Liberdade é “uma vitória na luta pela memória”

Na zona onde esteve preso, havia umas horas em que as portas das celas se abriam. Eram os presos que tratavam da logística da cozinha, onde a refeição era invariavelmente o que chamavam “peixe da mina”, uma espécie “chicharro”. “Comia-se mal”, lembra Fernando Rosas, excepto ao domingo em que recebiam “iscas com arroz e um ovo estrelado”.

Com pouco mais de 20 anos, Rosas recorda que no fim do seu cativeiro até já havia uma televisão no pavilhão B e lembra, na zona da casa de banho comum, os banhos de imersão do seu amigo “Capilé”.

Um dos últimos símbolos da resistência à ditadura de Salazar

“Pelo teu livro pensamento” é o primeiro verso do poema escrito por David Mourão Ferreira para Amália Rodrigues naquele que ficou conhecido como Fado Peniche e servirá de título à exposição que vai ficar na Fortaleza, que agora é transformada em Museu Nacional da Resistência e Liberdade.

O projecto só estará concluído em 2020 com a recuperação dos três pavilhões prisionais e do espaço do “segredo”, o baluarte onde estavam as celas de isolamento. Para os antigos presos a constituição deste museu “é uma vitória” e “tem grande significado” político.

Em 2016 houve intenção de se concessionar o espaço a privados, chegou a falar-se na instalação de um hotel na Fortaleza. Houve um coro de oposição. Era preciso preservar a memória deste que era um dos último símbolos vivos do regime de Salazar. A população de Peniche também aplaude a instalação de um museu na Fortaleza. Manuela Farto diz mesmo que “é um símbolo da liberdade” e sublinha, “ninguém pôs um hotel em Auschwitz, por isso aqui também não merece isso”.

Comentários
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  • me too
    27 abr, 2019 22:09
    Claro que os "homens maus", tipo FP25, com assassínios no currículo, foram presos. Mas por poucochinho tempo. Foram indultados por sanpaio.
  • me too
    25 abr, 2019 20:20
    As três pessoas enunciadas são de baixo nível intelectual. Nada de verdadeiro ou de importante fizeram. Todos são salpicados com títulos. O pobre Abrantes só é conselheiro de estado para marcar o ponto do PCP, desde MRS. Álvaro Cunhal sim. Foi um dos presos ilustres em Peniche. Já não conta a sua inteligência nem a sua coerência. Que reportagem!...