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Graça Franco
Opinião de Graça Franco
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Não foi milagre, foi só economia

26 mar, 2019 • Opinião de Graça Franco


Não fossem as "low cost" e o "boom" do turismo a coisa tinha sido pior. Não foi. As ruas encheram-se. O mercado de emprego recuperou ao ritmo a que emagrecera. Os pequenos negócios animaram as cidades. Só as filas nos serviços públicos mostravam a penúria instalada. Se não chegavam as cativações davam-se mais facadas no investimento. Palavra de ministro que nem um cêntimo derrapa em Bruxelas.

O atual ministro das Finanças não fez nenhum milagre, fez política económica e não sendo milagre (como ele aliás reconheceu!) correu-lhe bem. A carga fiscal é a maior desde há dezenas de anos. Mas está embrulhada num menor esforço fiscal para uns e maior para outros. Nem todos a sentem com a mesma dor. O défice é o mais pequeno da democracia. Mas como Centeno diz, e bem, é motivo de orgulho. Não dá para inebriar.

O Estado cobrou mais receita, pagou menos juros, investiu quase nada. Devolveu rendimento, mas o emprego cresceu e os impostos e contribuições devolveram-lhe parte. É verdade, foram pagos mais 3,3 mil milhões de salários que resultam de mais emprego e isso é bom.

Está feito. É histórico. Bom para os austeritários. Agora sim, a página está quase a virar. Mas ainda não se sabe do Brexit, e da Alemanha, dos coletes da França, etc… O excedente externo está à beira de voltar a défice, mas ainda não voltou. Gozemos a folga. Bom trabalho.

E agora? Rezemos para que continue a correr-nos bem. Porque se o vento mudar, só temos uma garantia: “com contas certas, ao nível dos nossos parceiros”, não entraremos “automaticamente” no procedimento de défices excessivos. Mas não quer dizer que não persistam os riscos e o aperto do cinto não possa voltar. Nada mudou de substancial na economia: até a produtividade baixou e os custos do trabalho subiram. Fixem bem: não haverá novo pacto de austeridade “automaticamente”. Foi apenas isso que Centeno prometeu. Ele é homem de palavra, mas mede-as muito bem.

Vítor Gaspar tem razões para morrer de inveja. Para cumprir o Tratado fez rigorosamente tudo: até um aumento colossal de impostos que é medida que mais dói a um economista de tendência liberal.

A conjuntura péssima, a crise das dívidas soberanas a atingir o pico, o medo e a desconfiança dos empresários e consumidores ditaram-lhe a má sorte: o desemprego, que o mito da rigidez da legislação laboral garantia que levaria muito tempo a aumentar, subiu em flecha em meia dúzia de meses.

Pior. As empresas na falência, com amigos na banca, continuaram de pé. Não houve destruição criativa. A crispação social fez o resto, ninguém estava disposto a confiar em ninguém. Os jovens estavam contra os velhos e os públicos contra os privados. A ideologia envenenou a política.

O endividamento brutal das empresas e famílias fez a economia travar a fundo. Passos bem se queixou: nem quem podia gastar gastou. Não mudou de carro, não comprou casa, não jantou ou almoçou fora. Um exagero!

O mal parado, escondido num sector bancário à beira do colapso, ditou o resto. A sociedade dividida, zangou-se, comprou marmitas, fechou-se em casa, empobreceu. De retificativo em retificativo a economia caminhou para o fracasso total. Para cúmulo a coligação ameaçava colapsar a cada passo e, não fora Passos, teria ficado por ali. A meio da ponte.

Quando recuperou o folego, faltou-lhe ousadia.

Convenceu-se do pior, que não existiria alternativa. Não quis nem ler o cenário macro do PS. Confundiu tudo. Jurou a pés juntos que era uma mentira. Só por milagre… E não. Bastava a conjuntura favorável, a confiança, a resiliência dos portugueses, o estímulo à procura interna que batera no fundo. Aplicar a receita que Manuela Ferreira Leite tinha proposto, semana após semana. Os impostos indiretos permitem a escolha ou a ilusão da escolha. Os pobres não se iludem. Sem dinheiro no bolso é que ninguém pode escolher.

Centeno sabia e apostou aí. Aplicou a receita. Devolveu rendimento. Desceu alguns impostos e subiu tudo o resto. Houve, taxas e taxinhas. Mas o ministro, que sorria sempre, deixou a caravana passar.

A retoma fez o resto, os juros baixaram. Cristina Casalinho foi uma escolha ótima. A dívida foi gerida até ao cêntimo. As cativações fizeram o resto. A administração Pública travou a fundo. Nas escolas faltava tudo, mas os professores estavam no bolso do Mário Nogueira mais cordato desde os tempos da democracia.

Nos hospitais as 35 horas foram um presente envenenado. Os nove mil contratados, a mais, mal chegaram para repor o volume das horas trabalhadas. A paz social, comprada pelas rodas da geringonça, disfarçavam até que tudo rompeu pelas costuras.

As cativações tornaram cada verba inscrita no orçamento uma miragem ou uma mentira. O sketch de Ricardo Araújo Pereira explica, como ninguém, como a coisa funcionou.

Não fossem as low cost e o boom do turismo a coisa tinha sido pior. Não foi. As ruas encheram-se. O mercado de emprego recuperou ao ritmo a que emagrecera. Os pequenos negócios animaram as cidades. Só as filas nos serviços públicos mostravam a penúria instalada. Se não chegavam as cativações davam-se mais facadas no investimento. Palavra de ministro que nem um cêntimo derrapa em Bruxelas. No final do ano falta tudo e ano após ano vai faltando mais: camas, compressas, auxiliares de enfermagem e de educação, enfermeiros, papel, máquinas, carruagens, comboios.

O défice desceu 4,8 mil milhões no último ano. Ficou em 912 milhões. Onde é que isto já se viu? Enquanto o Investimento desceu em peso no PIB e ficava 50 milhões abaixo do verificado no ano acabado, no quatro trimestre de 2017.

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  • Amelia
    28 mar, 2019 lisboa 11:45
    Sob esta capa temos um esotrangulamento de direitos e liberdades para o mexilao português com medidas fiscais e introsoes inadmissiveis para por outro lado obedecer como escravos a BRUXELAS e manter o POVO pobre e admitir empresas q nâo ponham em causa o poder politico..