Luís António Santos
Opinião de Luís António Santos
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Os ‘nossos’ terroristas não são ‘meninos lindos que se perderam'

18 mar, 2019 • Opinião de Luís António Santos


No espaço de 24 horas, o Facebook removeu 1,5 milhões de republicações do vídeo do ataque na Nova Zelândia. Christchurch é uma oportunidade para que todos os atores envolvidos na atividade global da comunicação humana assumam as responsabilidades à medida do poder que está ao seu dispor.

Dois dias depois do massacre de Christchurch, na Nova Zelândia, a plataforma Facebook anunciou que no espaço de 24 horas removeu 1,5 milhões de republicações do vídeo do ataque, das quais 1,2 milhões ainda antes de finalizado o ‘upload’.

Quando alguém, em resposta a este anúncio, perguntou o que aconteceu, em detalhe, com as 300 mil publicações que conseguiram passar os filtros – quantas visualizações? quantas partilhas? quantas reações? quanto tempo estiveram ‘no ar’? quantos dos que viram os vídeos eram adolescentes? – o Facebook optou pelo silêncio.

A expressão destes dados dá-nos uma ideia da complexidade acrescida da situação, mas sugere também que é já possível fixar alguns pontos de reflexão comum.

Em primeiro lugar, os mecanismos de vigilância (nacionais e transnacionais) parecem estar muito mais direcionados para o acompanhamento de potenciais ameaças externas do que para os sinais de terrorismo interno. E o que começa a perceber-se com enorme clareza, depois da sequência de ataques em diferentes geografias a partir de 2017, é que a ameaça interna é mais séria e mais grave do que a potencial ameaça externa. Por mais que isso possa interferir com algumas agendas políticas, o terror emerge das ações de ‘gente como nós’ e não apenas de estrangeiros com diferentes costumes e/ou fé religiosa.

Em segundo lugar, um número significativo de empresas jornalísticas (algumas, em Portugal) escolheram participar em campanhas de vilificação do ‘outro’ (o que é ‘de fora’, o que ‘não é como nós’), em que as pessoas – com a ajuda de uma das mais clássicas técnicas de Propaganda – são apresentadas, despidas da sua Humanidade, como raiz de quase todos os males sociais, assim contribuindo para um aumento da naturalização do insulto, da ofensa e da violência física. Ontem mesmo, a capa de um popular diário britânico apresentava uma foto do terrorista de Christchurch enquanto bebé, com um título mais ou menos em torno desta ideia: “o menino lindo de caracóis louros que se perdeu”. O terrorista que, afinal, ‘é um de nós’ precisa de ser rapidamente isolado como um caso fora do comum – a ovelha tresmalhada, aquele que se perdeu...coitado. Toda esta narrativa em torno da diferenciação é falaciosa e serve apenas para manter uma mentira útil a alguns discursos extremistas.

Em terceiro lugar, as empresas detentoras das plataformas digitais de interação – entidades que, legitimamente, procuram sempre em primeiro lugar a maximização do lucro – não querem e não conseguem gerir os efeitos negativos das suas vantagens competitivas. O Facebook, por exemplo, que durante anos rejeitou ser uma empresa de conteúdos mediáticos (preferindo sempre a designação mais desresponsabilizadora de ‘plataforma’) prepara-se para alterar o funcionamento – menos fluxo de notícias e mais interação encriptada entre indivíduos – precisamente porque pressentirá um aumento de episódios como os de Christchurch e não quer ter que lidar com algumas das consequências.

Há um dado comum a estes três apontamentos – a fragilidade crescente dos Estados precisamente numa enquadramento em que os problemas de escala global parecem ser cada vez mais graves. Os Estados são deficitários no acompanhamento de ameaças internas sérias à vida dos seus cidadãos; os Estados (e entidades supranacionais como a União Europeia) reagem com enorme passividade à utilização dos média para a transmissão de mensagens mais ou menos explícitas de incitamento ao ódio (também por estes dias um jornal polaco apresentava, em primeira página, uma notícia com o título: “Como detetar um Judeu”); os Estados deixaram crescer sem qualquer controlo empresas que vivem da ativação do nosso envolvimento emocional e que não estão dispostas nem a largar o negócio nem a aumentar investimentos em mecanismos que o limitem.

Christchurch é uma oportunidade para que todos os atores envolvidos na atividade global da comunicação humana assumam as responsabilidades à medida do poder que está ao seu dispor. Os Estados necessitam de impor maior regulação aos grandes impérios digitais (e, já agora, uma contribuição fiscal que não seja percentualmente inferior à de um cidadão comum) e precisam de ativar os mecanismos já existentes para controle de discursos discriminatórios (seja na ação política ou na sua expressão mediática). Nós, os cidadãos, precisamos de não sentir qualquer tentação em fazer parte daquele milhão e meio de pessoas que entendeu ser importante partilhar o vídeo de um ato terrorista. E precisamos de convencer os amigos. E os amigos dos amigos. Em todas as redes.

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  • Sasuke Costa
    19 mar, 2019 19:31
    Quem sofre de azia não pode comer tudo o que o cozinheiro lhe dá, nem culpa-lo. Fazer desses manjares um petisco para todas as famílias é algo impensável mas acontece… “O que não mata engorda.”