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José Luís Ramos Pinheiro
Opinião de José Luís Ramos Pinheiro
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Uma reportagem infeliz

14 jan, 2019 • Opinião de José Luís Ramos Pinheiro


Sem confiança, ficam em causa as relações dos médicos, dos advogados, dos padres, dos imãs, dos rabis, dos jornalistas e de muitos outros profissionais com os respetivos interlocutores. Sejam eles quais forem.

Para além dos quadros legais, a prática jornalística é regulada por um Código Deontológico. São 11 artigos que devem enquadrar o exercício da profissão.

No essencial, o código em vigor resulta do texto aprovado em 1993. Mas em outubro de 2017, os jornalistas introduziram algumas alterações, validadas em referendo.

Uma das modificações incide sobre o artigo quarto, em que se descreve o quadro em que os jornalistas podem obter e utilizar informações. Vigora o princípio da lealdade na obtenção de informações, imagens ou documentos. Os jornalistas (auto) proíbem-se mesmo de abusar da boa fé de quem quer que seja.

Esta é a regra. E não tem exceção? Tem e está prevista no mesmo artigo. Prescreve-se que outros processos (para obtenção de informações, imagens ou documentos) só podem justificar-se por razões de incontestável interesse público.

O texto de 1993 ficava por aí. Em 2017, os jornalistas foram mais longe. Preocupados com eventuais abusos, puseram um travão a quem pretendesse, de ânimo leve, obter informações imagens e documentos de modo menos ortodoxo. Agora só é permitido recorrer a tais processos, sempre por razões de incontestável interesse público, quando se revelar impossível a obtenção de informação relevante pelos meios normais. Isto é, primeiro deve tentar obter-se a informação em causa, pelos meios leais, e com um jornalista devidamente identificado como tal. Outras possibilidades, só depois desta fase.

A ideia é evitar abusos que a vertigem da concorrência, a pulsão ideológica ou qualquer outra razão, possam potenciar.

Para que fique claro, convém ler a redação do artigo quarto do código deontológico dos jornalistas, nos termos atualmente em vigor: “O jornalista deve utilizar meios leais para obter informações, imagens ou documentos e proibir-se de abusar da boa-fé de quem quer que seja. A identificação como jornalista é a regra e outros processos só podem justificar-se por razões de incontestável interesse público e depois de verificada a impossibilidade de obtenção de informação relevante pelos processos normais”.

Acontece que a TVI decidiu fazer na semana passada uma reportagem sobre alegadas terapias dirigidas a homossexuais. Falou em grupos secretos, dentro da Igreja Católica que juntaria padres e psicólogos. Para o efeito socorreu-se de gravações feitas à socapa, com um padre e com uma psicóloga, respetivamente em contexto de direção espiritual e de consulta. E foram exibidas imagens de uma reunião confidencial – e não secreta - de membros de um grupo de homossexuais católicos que são acompanhados por uma psicóloga e por um sacerdote.

As gravações não foram feitas por um jornalista, mas por um homem que alegadamente procurava ajuda e que assume ter aderido às sessões de grupo, com a intenção de obter as filmagens.

Nessa reportagem vi e ouvi coisas com que não concordo, até de gente católica. O que é normal. Não sendo dogmas de fé, a pluralidade e a diferença são a regra entre os católicos. Desde o início da Igreja e até hoje.

Ainda que não concordando com vários aspetos, outros há em que não tenho dúvidas. As gravações não foram obtidas por meios leais. Abusou-se da boa fé de um padre, gravado em contexto de direção espiritual numa igreja, e de uma psicóloga, no âmbito de uma consulta. As razões de incontestável interesse público estão por demonstrar. E seria bom saber se antes das gravações terem sido realizadas, os jornalistas tentaram obter informação relevante junto das pessoas em causa.

A confiança nas relações pessoais é um elemento chave para o funcionamento da sociedade. Sem confiança, ficam em causa as relações dos médicos, dos advogados, dos padres, dos imãs, dos rabis, dos jornalistas e de muitos outros profissionais com os respetivos interlocutores. Sejam eles quais forem. E quaisquer que sejam as razões que os levem a esse diálogo.

O sigilo profissional é um bem que os jornalistas não ignoram e que devem ser (d)os primeiros a preservar.

A concorrência exacerbada não justifica tudo. Numa altura em que é manifesto o lixo das redes sociais, o jornalismo, em todas as suas áreas e sectores, deve distinguir-se desse caminho. Evitando atalhos rápidos em que há mais irresponsabilidade do que coragem.

Por outro lado, há ainda, não só nesta reportagem, mas em muitos outros debates na sociedade portuguesa, um elemento que me incomoda – o tom inquisitorial. Mesmo sem concordar com todas as afirmações que ouvi, só haverá uma forma de encarar as questões sexuais? Só haverá um modo de olhar para as pessoas em sofrimento, qualquer que seja a causa de tal situação? A ideologia do género é agora a matriz, pela qual todos nos devemos reger, sem desafinar nem desafiar a ‘doutrina oficial’? É ilegítimo pensar de modo alternativo? O pluralismo só é bom quando não se aplica a quem pensa de maneira diferente?

É necessário quebrar este sufoco ideológico que no limite ameaça até o próprio jornalismo. E fazê-lo, já agora, com o bom senso que alguns destes novos ‘donos da verdade’ manifestamente não têm.

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  • Amora Bruegas
    17 jan, 2019 Torres Novas 11:02
    O caso referido, é mais uma imagem do jornalismo que temos há mais de 40 anos e que tem alimentdo o populismo do PS e do PCP e mais recentemente do BE..., ou a demagogia manipuladora deles não é o populismo mais manipulador e perverso que temos?