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Geólogo: “Tragédia na pedreira era uma questão de tempo”

21 nov, 2018 - 06:30 • João Carlos Malta

O diretor do departamento de Geociências da Universidade de Évora diz que o acidente em Borba se deveu à muita chuva e consequente acumulação de água, que fez com que a terra "se tornasse muito plástica".

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O diretor do departamento de Geociências da Universidade de Évora, Luís Lopes, defende que, em Borba, aconteceu o que era "inevitável".

Luís Lopes conhece "de trás para a frente" a zona em que se deu o acidente que vitimou duas pessoas e que fez três desaparecidos e acredita que "independentemente de tudo o que se fizesse nas pedreiras", o quadro era, de algum modo, "como nos sismos: não sabemos quando vai acontecer, sabemos que vai acontecer".

"Era uma questão de tempo”, diz o especialista, em entrevista à Renascença.

Luís Lopes estudou a zona do aluimento e diz que há estudos que já há vários anos relatam fraturas e apontam para a necessidade de fixação de terras, que diz ter sido feita. Ainda assim, Lopes diz que, apesar de nunca ter sido ouvido por entidades públicas, teria aconselhado o encerramento da estrada, embora a a implementação dessa fosse difícil, porque os mesmos que agora criticam a inação são os mesmos que não apoiariam o fecho da estrada.

Como se caracteriza, em termos geológicos, a zona de Vila Viçosa e Borba?

Esta zona faz parte de uma estrutura maior, que designamos de anticlinal de Estremoz, que em termos de exposição é um grande "A". Ele desenvolve-se desde o Alandroal até Sousel, são 40 quilómetros.

Depois existem nesta estrutura zonas em que é feita a exploração de mármores como na zona de Borba, situada no flanco norte, onde há exploração mais intensiva desta pedra.

A exploração de mármore em termos geológicos representa um risco suplementar em relação a outro tipo de sedimentos?

O maciço está muito fraturado e isso tem a ver com a história da região. Nós geólogos falamos de milhões de anos, como se falam de dias, mas precisamos desse tempo para explicar os fenómenos. O problema acontece quando os mármores continuam a ser deformados, aí eles vão fraturar.

Essa situação obedece a certas leis: extensões e orientação dos esforços que foram aplicados. Conseguimos localizar quais as direções que podem ter mais ou menos problemas e aí dar orientações para a minimização de riscos em cada pedreira.

A Universidade de Évora tem estudado a zona do aluimento?

Essencialmente fizemos estudos de geologia, geologia aplicada, já a caracterização de taludes, e mitigação de riscos, não há tantos estudos quanto isso. Temos feito muito trabalho, mas não na componente geotécnica.

Nunca foram chamados para fazer avaliações de risco naquela zona?

Fomos uma vez, em 2008, e depois esse relatório foi atualizado em 2015. Na altura as conclusões tanto quanto sei foram cumpridas.

Esses relatórios são pedidos pela entidade fiscalizadora (Direção Geral de Energia e Geologia) e se não forem cumpridos correm risco de cessarem a atividade.

As empresas apresentam essa avaliação de risco à entidade fiscalizadora que vai confirmar no terreno se as medidas sugeridas são ou não aplicadas.

Penso que na altura foram cumpridas as nossas sugestões, porque caso contrário não teria continuado a atividade.

Quais foram as conclusões a que chegaram?

Identificámos as zonas de fratura essenciais, trabalhámos na “pedreira do Almeida”, ao lado da zona que ruiu. Havia uma falha maior onde podia haver a queda de um talude. Identificámos outros casos mais pontuais, e sugerimos as pregagens− fixadores que são colocados na rocha para fixar o talude.

Conhecia os estudos feitos na outra pedreira, que agora ruiu?

Sim, chegavam às mesmas conclusões do que nós. Mas do ponto visto do que nos é permitido ver, foi tudo feito, e ainda assim caíram blocos.

Já havia risco de aluimento nessa altura se não fossem colocados os fixadores?

Sim, exatamente. Com a continuidade da exploração que existia, se não fossem implementados poderia haver o risco de queda de blocos.

A parte que estudamos, se calhar por a medida ter sido aplicada pela empresa, não ruiu. Se não tivesse sido, a desgraça ainda seria maior. As fraturas que identificamos não se ligavam umas às outras de forma continua.

Isso reporta-se à altura que fizemos a análise, no entanto com a carga litostática, com a massa de rocha, a que se soma a água, mais argilas à superfície com capacidade de absorver a água, toda aquela massa está num esforço contínuo, e pode haver uma propagação das fraturas.

O que é que terá provocado este acidente?

Um conjunto de fatores adversos, nomeadamente este período de chuva. A pedreira tem bastante água porque está inativa, agora a chuva continua.

Temos uma coluna de rocha que se não houvesse a água ia saindo e não saturava. Houve uma saturação do sistema onde a água já não tinha por onde escapar.

A acumulação levou ao aumento da plasticidade dos níveis superiores, a estrada não está assente sobre o mármore, está sobre um solo residual, terra rosa.

As imagens da estrada que ruiu em Borba
As imagens da estrada que ruiu em Borba

Quando tem muita água, torna-se muito plástica. Foi isso que aconteceu. São dois ou três segundos para colapsar tudo.

A lei define que os exploradores devem retirar águas pluviais?

Não sei o que diz a lei em relação a esse aspeto, mas se andarmos por aí e se olharmos para as pedreiras inativas vemos que todas elas têm muita água.

Isto não terá sido feito, então?

Não, por ninguém, basta visitá-las. Tem custos muito elevados. Mas podia-se também criar ali reservatórios de água para fogos.

Se as empresas tivessem seguido todas as conclusões dos estudos e regras de segurança evitar-se-ia a tragédia?

Acho que independentemente de tudo o que se fizesse nas pedreiras, seria como nos sismos, não sabemos quando vai acontecer, sabemos que vai acontecer.

Era uma questão de tempo. Temos uma cavidade com 80 metros de um lado, 90 metros do outro, temos uma massa que está a fazer esforço sem nada que a sustenha de lado, sem ser essas pregagens que têm a parede inteira.

O que vemos nas imagens é que a parede caiu toda e, o que quer se fizesse na pedreira nunca seria uma solução final. Nunca. Daí que as indústrias queriam interditar a estrada.

Sugeriram o encerramento da estrada?

Não nos dedicámos ao fecho da estrada de todo. Não opinámos nada sobre a estrada.

Se fosse pedida a sua opinião o que diria?

Diria que deveria fechar. Agora que caiu, ninguém vai dizer o contrário, mas houve uma reunião entre empresários e a autarquia, em que os industriais pediram para encerrar a estrada. Mas quem esteve lá que diga.

Porque é que já na altura diria que o melhor era encerrar?

Porque conhecia dois outros casos em 2009 e 2014, em que morreu uma pessoa, mas não junto à estrada.

Houve uma derrocada que quase levou uma fábrica atrás, em 2009. Não foi noticiado, e aconteceu na sequência de um sismo.

Começou às 00h30, havia chuva, e houve o colapso de um talude junto a empresa Fabrimar. Há lá uma pedreira e uma fábrica de equipamentos para a indústria.

A fábrica ficou quase na vertical do talude que ruiu, foi uma sorte.

No mesmo evento, houve o abatimento de terras no Alandroal. E ainda junto a fábrica Lugramar, o parque de estacionamento abateu. O mais grave aconteceu na estrada da Figueira, uma estrada camarária, que sai da nacional 355 − de Vila Viçosa para Bencatel − também colapsou num evento parecido com isto. Mas como foi de noite, não houve danos humanos.

Se fosse durante o dia podia ser uma tragédia maior do que a que aconteceu agora.

Se havia esse conhecimento e se era óbvio em termos técnicos que ia acontecer, porque não se encerrou a estrada?

Há outras condicionantes, sem fazer qualquer julgamento de ordem pública, acho que a decisão é sempre complicada. É uma estrada histórica, que sempre foi usada, o risco não era evidente para o comum dos mortais, a maior parte das pessoas não via o perigo. Agora todos dizem que sim, porque veem os buracos.

Mas muitos dos que habitam na região não se apercebem do perigo com que vivem constantemente. Seria complicado fazê-lo antes, porque haveria sempre vozes que diriam que aquele era o meio mais rápido para se deslocarem.

Não seria uma solução fácil, nem bem-vinda. Os mesmos que se iam opor a essa solução, são os que agora criticam que não se tenha fechado a estrada.

O professor passava na estrada?

Passava. Ainda esta semana lá passei. As coisas têm de acontecer quando acontecem.

Mas podia ter sido evitado?

Sem ir ao terreno não é possível termos a perceção do que é que estamos a falar. É tão grande para a escala humana, que não nos parece possível que acarrete o risco antes de ele acontecer. É muito grande.

Mas se há uma situação de risco ou se tomam medidas e se garante a segurança aos que ali passam, ou se fecha, não será?

Isso é o que diz o bom senso, mas agora é fácil de falar e ter esse discurso. Se passasse lá no seu carro via uma parede de um lado com árvores e outra parede do outro e uma estrada perfeitamente normal. E essa é a perceção que as pessoas tinham. Agora todos dizem que sabiam.

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