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“Coaching”. O que é e por que deve ser praticado por psicólogos?

16 nov, 2018 - 07:00 • Inês Rocha

Ordem dos Psicólogos alerta: falta de regulação no "coaching" é um “problema de saúde pública". Em Portugal, basta um curso de fim-de-semana para se ser “coach”.

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No contexto da reportagem da Renascença sobre o programa "Casados à Primeira Vista", que envolve um painel de especialistas onde se incluem dois "coaches" sem formação em Psicologia, a Ordem dos Psicólogos explica o porquê de defender a exclusividade da prática do "coaching" a psicólogos.

O que é o “coaching” psicológico?

Segundo a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), o Coaching Psicológico consiste numa relação de ajuda que promove a reflexão e a autodescoberta, recorrendo a uma metodologia de questionamento e de incentivo que contribui para a libertação do potencial do “coachee” (cliente).

O foco da ação do “coach” está centrado na produção de mudanças (atitudes e comportamentos), a curto prazo, por parte do “coachee”. Partindo de uma dinâmica de autoconsciência e da construção de uma relação de confiança e empatia, são estabelecidas metas e colocados em prática planos de acção, em que o "coach" e especialista em Coaching Psicológico é o facilitador que favorece uma dinâmica de transformação pessoal no cliente, ajudando-o a realizar um percurso entre a sua realidade atual e o estado desejado.

Em que áreas atua?

O “coaching” psicológico atua em quatro áreas essenciais:

Área empresarial – também conhecido por “coaching executivo”, trabalha no desenvolvimento de competências e mudança comportamental dentro de organizações e empresas.

Área da saúde – trabalha em áreas como gestão de stress, higiene do sono, balanço entre vida e trabalho, uma área que tem estado a ser muito desenvolvida em todo o mundo nos últimos anos.

Área da educação – trabalha com alunos e professores, com o objetivo de melhorar o processo de aprendizagem. No que toca aos professores, trabalha também a área da gestão de stress, uma vez que estes profissionais são considerados um grupo de risco em toda a Europa face aos riscos de “burnout” que enfrenta.

Área do desporto - psicólogos “coaches” que acompanham atletas de alta competição, ajudando-os a atingir performances de nível elevado.

O que é preciso para se ser “coach”?

Hoje em dia não é difícil ter o título de “coach” em Portugal. Uma vez que a profissão não é regulada, é impossível saber exatamente quantos cursos e certificações existem em todo o país. Não há um plano de estudos regulado nem uma duração mínima de formação para obter um certificado.

“É uma profissão muito atrativa, porque é bem remunerada e qualquer pessoa que queira, depois de fazer um workshop de fim-de-semana, pode dizer-se 'coach'”, explica Samuel Antunes, presidente da Mesa da Assembleia de Representantes da Ordem dos Psicológos e também presidente da International Association of Coaching Psychology.

E para ser psicólogo especializado em coaching?

Em 2016, a OPP criou uma especialidade avançada em coaching psicológico, com o objetivo de regular a prática desta atividade em Portugal.

Assim, os “coaches” reconhecidos pela Ordem dos Psicólogos, além de terem um mestrado em Psicologia, precisam de fazer uma formação acreditada pela Ordem, numa Universidade ou Instituto reconhecidos. Têm ainda um programa de supervisão e horas de prática antes de começarem a exercer como especialistas.

Esta atividade é regulada pela Ordem dos Psicólogos, que não atua no caso de “coaches” não psicólogos.

Quanto custa um curso de "coaching"?

A Renascença sabe que, por exemplo, um curso de oito dias no ICL - Instituto de Coaching e Linguística, fundado pela “coach” Cris Carvalho – uma das especialistas presentes no programa “Casados à Primeira Vista”– custa 2100 euros + IVA (ou seja, 2583 euros) e garante certificações reconhecidas pelo ICF - International Coach Federation, que permitem aos participantes exercerem “coaching”.

Esta organização – a maior de coaching a nível mundial e que conta com 78 'coaches' credenciados em Portugal, segundo o seu site – concede certificações de “coach” a alunos com um mínimo de 60 horas de formação – que podem incluir uma parte em que eles próprios são "coachees" de outros formandos sob a orientação dos formadores –, às quais se somam 100 horas de prática.

Há também certificações independentes, já que, para existirem, não necessitam da validação de qualquer instituição. Por exemplo, Eduardo Torgal, outro dos “coaches” do "Casados à Primeira Vista", dá certificações em “Eneacoaching 2.0”, uma formação com base numa metodologia que o próprio criou. O curso inclui cerca de 70 vídeos, aulas via vídeochamada uma vez por semana, durante três meses, e um fim-de-semana presencial. Custa 1470 euros.

O “coach” garante que, caso os alunos não consigam recuperar o investimento no curso com a metodologia ensinada, devolverá o dinheiro da inscrição.

Porque é que a Ordem dos Psicólogos defende exclusividade a psicólogos na prática de “coaching”?

A Ordem dos Psicólogos considera que o “coaching” é uma área da psicologia e que, por isso, só pode ser exercido por alguém que compreende os mecanismos da mudança do comportamento humano.

“Uma pessoa que faz uma formação de fim-de-semana e não seja psicólogo tem dificuldade em adquirir conhecimentos e dominar o conhecimento necessário para poder fazer este trabalho”, explica Samuel Antunes, presidente da Mesa da Assembleia de Representantes da OPP.

O psicólogo, que coordena a Pós-Graduação em Coaching Psicológico na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, diz mesmo que a existência de 'coaches' sem formação em Psicologica “é um problema de saúde pública”.

“Temos conhecimento de pessoas que ficaram gravemente perturbadas por terem entrado em experiências com 'coaches' não psicólogos que não souberam gerir essa relação de ajuda e, em vez de ajudar as pessoas, desorganizaram, contribuíram para que elas se desorganizassem mentalmente”, revela o especialista.

Samuel Antunes compara o “coach” não psicólogo a um técnico que vende equipamento necessário a procedimentos cirúrgicos e que, por isso, decide operar. “Uma pessoa, porque domina uma técnica, não pode dizer que é ortopedista ou médico. É o que está a acontecer com os 'coaches'”, afirma.

Quais as organizações de “coaching” em Portugal?

Samuel Antunes preside a uma associação exclusiva de psicólogos “coaches” – a International Association of Coaching Psychology (IACP). Esta organização está sediada em Portugal mas tem ramificações noutros países.

Há ainda associações internacionais que reúnem estes profissionais, como a International Society of Coaching Psychology, com sede no Reino Unido.

Fora destas associações, que reúnem psicólogos com esta especialidade, há dezenas de outras organizações de “coaching” em Portugal que atribuem certificações, independentemente de o “aluno” ter formação em Psicologia ou não.

Aqui, incluem-se organizações como a ICF Portugal (International Coach Federation); a Escola Europeia de Coaching; a World Coaching Organisation; a International Coaching Community, entre muitas outras.

Comentários
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  • Sérgio
    21 nov, 2018 Lisboa 13:35
    São muitas as inconsistências e os equívocos nas explicações dadas por este membro da OPP. O Coaching não é nenhuma prática de intervenção psicológica. Mas como o mercado tem vindo a reconhecer a eficácia deste tipo de abordagem (no domínio empresarial, pessoal ou desportivo) os psicólogos começam a sentir-se "ameaçados" no exercício da sua atividade. Como tal, nada melhor do que contaminar a opinião dos menos esclarecidos. E já agora, duas notas finais: Ninguém pode tornar-se "Coach" apenas com um curso de fim-de-semana. O Coaching já existe em Portugal e no resto do mundo há várias décadas (muito antes do surgimento da Ordem dos Psicólogos Portugueses).
  • Paula
    16 nov, 2018 São Paulo 23:41
    A matéria define a ferramenta e o profissional de forma equivocada. O Coaching não é e nunca foi terapia.