Opinião de Henrique Raposo
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Opinião de Henrique Raposo

Matar um idoso com Alzheimer não é “eutanásia”: é homicídio

04 mai, 2018 • Opinião de Henrique Raposo


Em Portugal, muitos idosos são abandonados pelas próprias famílias nos hospitais. Com uma lei da eutanásia, esses idosos correm sérios riscos de serem assassinados, tal como os idosos belgas e holandeses.

A eutanásia e o suicídio assistido entram no campo do mal absoluto quando abrem a porta à dor ou incapacidade psíquica. É uma rampa deslizante sem fim à vista mas que está à vista de todos na Bélgica e na Holanda. Na Holanda, só no ano passado foram mortas 166 pessoas com demência. Como é que esta barbaridade já é possível na realidade? Como é que esta atrocidade foi concebível no campo das ideias morais? Como é que se pode aplicar a eutanásia a pessoas que por definição são incapazes de tomar decisões conscientes e racionais, como são os casos dos doentes com demência (Alzheimer), autismo, esquizofrenia?

As leis da eutanásia consagram que o acto tem de partir de uma escolha consciente e livre. Ora, se o indivíduo em questão não tem consciência ou livre arbítrio porque o próprio hardware da sua mente é incapaz de processar informação e decisões, como é que pode haver ali um pedido válido de eutanásia? Não pode. Contudo, na Bélgica e Holanda, pessoas com autismo e Alzheimer têm sido mortas através da lei da eutanásia. Isto é um escândalo que devia envergonhar estes dois países e lançar um debate europeu. É esta a modernidade europeia? Uma eutanásia não pedida é uma contradição nos termos, é um buraco negro ético que esconde a verdadeira palavra: homicídio. Há dias, aqui na Renascença, uma médica portuguesa, Andreia Cunha, a trabalhar na Bélgica denunciou a situação: “havia mais de mil eutanásias não pedidas – ou seja,ilegais, fora do quadro da lei (...) as autoridades não fazem nada”. Porque é que as autoridades não fazem nada? Porque são as próprias famílias que avançam para a morte do seu familiar incapacitado; são os próprios filhos ou sobrinhos que decidem que a vida do pai ou tio não merece ser vivida. Debaixo da desistência moral do hospital, a família decide desfazer-se do fardo. Sim, cuidar de um doente mental é objectivamente um fardo, mas nenhum código moral pode aceitar como legítima a aceleração da morte do fardo. Aliás, os códigos morais existem para bloquearem estas tentações que podem afectar qualquer um de nós.

Não me coloco de fora. Se algum dos meus familiares desenvolver demência, como é que eu vou reagir? Com acesso a uma liberalização da morte, será que eu seguiria o exemplo daqueles 166 filhos e sobrinhos holandeses que mataram os pais e tios através da lei da eutanásia? Sei que o Alzheimer corrói por completo a mente e a personalidade, fica-se com a impressão de que a pessoa que sempre conhecemos já não está ali. Neste quadro hipotético, iria eu sentir culpa por autorizar a morte de alguém tão “ausente”? Um código moral não pode abrir as portas a estas tentações. Mas esta tentação marca já a realidade holandesa e belga. Andreia Cunha volta a explicar: “O paciente não está consciente, não pede eutanásia, e é abreviada a vida daquela pessoa porque a família considera que não vai haver melhoria da situação e portanto pode-se acelerar ou é o próprio médico que toma a iniciativa”.

Eis, portanto, a mais perfeita porta do inferno: um mal absoluto com respeitabilidade legal. Uma lei geral da eutanásia permite às famílias um alívio do fardo que é cuidar de um idoso com demência; o opróbrio é desviado da família para o estado, do filho para o médico, da moral para a técnica, da ética para a burocracia. Debaixo da cobardia moral e da fraqueza financeira do estado, a família desresponsabiliza-se, escudando-se numa lei que permite assassinar idosos dementes debaixo da capa legal da “eutanásia”. É assim que a novilíngua adquire uma nova e repugnante forma. Forma, essa, que ameaça chegar a Portugal. Hoje em dia, em Portugal, muitos idosos são abandonados pelas próprias famílias nos hospitais. Com uma lei da eutanásia, esses idosos correm sérios riscos de serem assassinados, tal como os idosos belgas e holandeses.

Comentários
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  • fanã
    05 jun, 2018 aveiro 19:49
    A morte assistida e conscientemente pedida , é um 1º critério para tal procedimento . Este Senhor, é um simples provocador em titular de assassinos os que eventualmente aceitam de ajudar quem pede essa ajuda em total conformidade com a Lei (votada ou não) . Portanto calme o ser ardor e desrespeito por quem opta por essa solução . Ou seja um pouco de bom senso no que diz e menos ódio ficava-lhe bem , Sr Raposo !......... no caso de Doentes sem a perfeita condição psíquica , é totalmente excluída essa opção, e ninguém pode tomar tal decisão no lugar do Doente !...................... Fique sabendo !
  • 31 mai, 2018 15:12
    Receio que o autor esteja a confundir a opinião pública com conceitos de eutanásia voluntária e involuntária. Neste momentos os projetos de lei em Portugal são referentes a processos eutanásia voluntária cuja vontade é expressa pelo próprio doente.
  • Maria Dolores Viegas
    28 mai, 2018 Setubal 15:53
    Eu quero fazer um testamento para se estiver numa situacao sem retorno,ser abreviado o meu fim.Quanto a lei ,deve ser muito detalhada ,para nao haver nenhuma duvida,nem para dar azo a abusos.Para mim esta lei respeita o ser humano individual.Ninguem tem o direito de decidir por mim,nem a minha vida, nem a minha morte.
  • Anónimo
    28 mai, 2018 15:22
    Pessoas com Alzheimer não podem recorrer à eutanásia porque não têm capacidade para dar o seu consentimento. Henrique Raposo, deixe de ser MENTIROSO e ganhe vergonha! Com tanta gente desempregada e você a ser pago para escrever disparates!
  • Cris
    13 mai, 2018 Brasil 19:45
    Sou a favor de que eu possa decidir sobre a minha própria vida, desde que em registro público, pois não quero viver com Alzheimer e nenhum outro tipo de demência senil. Tenho um pai com esta doença e cuidamos, mas quer ou não, sim é um fardo que acaba com a família. Não temos dinheiro pra pagar um cuidador e não se tem tempo pra mais nada.
  • Francisco Amaral
    11 mai, 2018 Coimbra 12:23
    O senhor é maldoso, manipulador ou simplesmente de raciocínio delirante. De qualquer forma, mente.
  • Paulo
    05 mai, 2018 lisboa 12:10
    O que esperar dos herdeiros de Lenine,Staline,Mao,Pol_Tot,mais do mesmo e quando a politica está a correr mal nada melhor que um tema homicida ou dito fraturante para entreter.Esre comportamento é uma emitaçao importada de outros países.A vida é um bem muito frágil e provocar a morte é extremamente simples indolor ou não.E os contra argumentos depois tornam-se repetitivos e isto já fede.A nível da ONU com mentes brilhantes e super inteligentes não chegaram a resolução nenhuma. Os ocupas, bancarrotas etc formados em Harvard? ou antes pelo contrario em faculdades de aviário ou nenhuma querem ter pró atividade politica pela negativa.A ser implementada vai legitimar a pena de morte para outros fins.Fazia um apelo ,criem condições para crescimento da economia e deixem de matar legal ou ilegalmente.Eu vou emigrar caso a lei seja implementada para um País que respeite a vida.
  • Nazaré Dantas
    05 mai, 2018 Barcelos 12:03
    João Nunes, permita que me dirija a si porque passei por algo semelhante. O que viu na sua avó, vivi eu com a minha pois a minha vivia na minha casa a ali ficou até ao fim (natural) da sua vida. Também precisava de fraldas, que lhe metêssemos a comida na boca, que a lavássemos... Se tinha qualidade de vida? Tinha um quarto limpo, lençóis lavados, comida e medicamentos a horas... Tinha uma filha (e um genro!) que cuidou dela como ela cuidou da filha quando bebé, até ao seu último suspiro, com amor filial e não como quem carrega um fardo (ainda que eu tenha que concordar que é, de facto, um fardo, porque tinha sempre de estar alguém em casa e até nós, netos, tivemos de ajudar). Custa, pois custa, mas como diz, se aquela pessoa nos deu tudo, acho que a nossa atitude não deverá ser a de abreviar a vida mas fazer os possíveis para que morra com dignidade e na hora natural. Concordo em pleno com o Henrique Raposo. Não me oponho totalmente à eutanásia mas quase... Não consigo conceber que se mate alguém só porque tem Alzheimer, autismo, fique cega (como acontece na Holanda), ou que apenas tenha o sofrimento em perspetiva... Acredito mesmo que muitas mortes podem ser evitadas se cada um de nós for capaz de cuidar dos seus porque muitas vezes a vontade de morrer deve-se muito mais à dor afetiva do que propriamente àquela causada pela doença... Aliás, sendo cristã, posso ver no outro um caminho para a minha própria santificação: o que é que significa afinal "dar a vida pelos outros"?
  • Vera
    05 mai, 2018 Palmela 00:30
    Olá Henrique Raposo, diz o ditado, que "água mole em pedra dura, tanto dá até que fura"! é isso! se não batermos o pé, vamos todos passar por a velhice e assim sendo, é uma chatice! (até rimou!) Depois das palavras honestas, ditas pelo Sr. Ministro da Saúde: que pessoalmente não concorda, mas que não pode ir contra as leis aprovadas! Então eu sugiro, que se faça um referendo... e depois logo se vê!!! Bom fim de semana.
  • Maria Silva
    04 mai, 2018 22:08
    Alguma vez pensaram nas "eutanásias" que se vão praticando nos hospitais à revelia de tudo e de todos e sem os pacientes terem manifestado qualquer tipo de vontade? Um paciente com Alzheimer na sua fase final não tem capacidade das mais variadas funções, uma delas é não conseguir engolir a própria saliva, o que implica ser aspirado consecutivamente. Se não fôr feito e isto acontece muito nos turnos nocturnos sabe o que acontece? Imagina!!!!! Aqui não há código moral que nos valha!!!!!!!!!!!!!!!!!!