Opinião de Henrique Raposo
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Opinião de Henrique Raposo

​Imaginar a eutanásia no auge da sida

13 abr, 2018 • Opinião de Henrique Raposo


Lembro-me como se fosse hoje de um rapaz do meu bairro que morreu com sida. Quando ele entrava no café, gerava-se um fundo de silêncio e as pessoas afastavam-se como se ele fosse um leproso de outrora.

Como toda a gente da minha geração, cresci debaixo do fantasma da sida. Esse pavor rodeava-nos. Havia o pavor relativo do sexo sem protecção e, acima de tudo, o pavor absoluto das agulhas dos toxicodependentes que varriam as ruas, que assaltavam casas, que faziam do roubo do auto-rádio um desporto nacional. Quem não se lembra de ver os pais de família com o auto-rádio debaixo do braço aos sábados e domingos? Retirar o auto-rádio do gavetão junto ao cinzeiro e andar com ele na mão era a única forma de garantir que o carro não era assaltado. Neste tempo, as agulhas eram as armas mais eficazes nos assaltos. Apontar uma agulha era mais intimidante do que apontar uma naifa. A segunda metia medo, claro, mas só podia dar um lanho novo; à partida tudo se resolvia com uns pontos no hospital. Ao invés, a primeira podia dar uma infecção mortal. Sem surpresa, “sidoso” era um insulto daquele tempo (final dos anos 80, início dos anos 90). Um rapaz muito magro e olharento podia receber essa alcunha, “franzino” era demasiado erudito e “lingrinhas” demasiado simpático. Mas a verdade é que todos os bairros acabaram por conhecer verdadeiros sidosos, isto é, doentes infectados com o vírus HIV (sida). Eram quase sempre rapazes ou homens. A droga e a sida destruíram uma enorme minoria da minha geração.

Lembro-me como se fosse hoje de um rapaz do meu bairro que morreu com sida. Chamemos-lhe “Nuno”. Frequentava um dos cafés que eu também frequentava. Foi consumido por dentro pela doença. Foi ficando cada vez mais magro. Foi ganhando cada vez mais manchas na pele. Quando ele entrava no café, gerava-se um fundo de silêncio e as pessoas afastavam-se como se ele fosse um leproso de outrora; nestes segundos de silêncio, lembrava-me do vale dos leprosos do “Ben-Hur”. Quando ele se levantava e saía, ninguém ocupava aquela mesa ou cadeira. Não me pretendo inocente. Quando o via descer o passeio, cadavérico, agarrado ao ombro da mãe, eu ia para o outro lado da rua e depois, sim, voltava ao percurso original quando o via dobrar a esquina. A expressão “dead man walking” tinha sentido literal. Não me julguem. O desconhecimento e a mitologia em redor da doença era quase totais e convém recordar a evidência médica: nesta época, a sida era de facto uma sentença de morte.

Sucede que o progresso da medicina transformou esta peste assassina numa doença que se gere como tantas outras. Muitos morreram, muitos pensaram que iam morrer, muitos terão cometido suicídio pensando que não havia futuro. Mas esse futuro existia, existe, existirá. Hoje em dia, um doente de sida é um doente que é gerido pela medicina, é alguém que pode ter uma vida quase normal. E este é o meu ponto: imagine-se que a eutanásia era uma possibilidade real no auge da epidemia de sida; imagina-se que homens e rapazes como o “Nuno” tinham acesso legal à eutanásia. Não é difícil imaginar o suicídio em massas dos infectados, não é difícil imaginar um surto de suicídios através da eutanásia na comunidade gay. No auge daquele desespero (bem apanhado pela série “Anjos na América”), não é difícil imaginar o suicídio de centenas ou milhares de homens que hoje têm uma vida normal. Repare-se que as legislações que autorizam a eutanásia falam em "sofrimento causado por doenças incuráveis”. Ora, na época, a sida era de facto incurável e determinava um imenso sofrimento físico e mental, como se pode ver num dos filmes marcantes daquele tempo – “Filadélfia”. A sida era a peste negra do ocidente contemporâneo. O acesso à eutanásia do infectado com HIV encaixava portanto no critério legal hoje usado na Bélgica e Holanda. Mas, como já vimos, o incurável de hoje é o curável de amanhã. Uma pessoa que se mata hoje devido a uma "doença incurável" não sabe aquilo que o futuro lhe reserva.

Comentários
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  • Operaçao MAR VERDE
    17 abr, 2018 lisboa 15:31
    Hitlerf também cria uma população de raça pura alemã gaseando quem não apresentasse carateristicas arianas.A realidade é que se anualmente as comunidades/aldeias fizessem o dia do doente dependente-todos iriam ficar surpreendidos com a enorme quantidade dos mesmos ,inimaginável.Fui convidado como observador e pro ser um interventor não politico em determinada aldeia do litoral onde se realizou uma destas iniciativas e foi impressionante o numero de casos de dependencia e o peso brutal sobre gente do povo.Arrepiante ,deprimido ,irritado,revoltado .ódio,amor,consideraçao pelos cuidadores etc foram os impulsos sentidos e por não poder ajudar mais do que já fazia mas com vontade de continuar a contribuir mais para menos sofrimento.A Eutanásia seria uma solução radical mas revoltante e assassina.DEUS , DEUSES ou ATEUS esclarecidos minorizem esta realidade com AMOR e respeito pela VIDA.
  • Anónimo
    17 abr, 2018 00:29
    O segundo João Lopes diz cada disparate...
  • AJ
    16 abr, 2018 Fafe 22:12
    Estou totalmente de acordo com HR. De facto, se a eutanásia fosse tema em debate no auge da sida , muitos teriam sido os que , em desespero, teriam pedido para serem eutanisiados! Claro que vivemos segundo uma "nova moral".... E , quem choca com os valores "MODERNISTAS" de, Catarina Martins, André Silva ...e outros grandes "gurus" da nova moralidade...arrisca-se a ser "enxovalhado" ! Parece que a nossa sociedade caminha para uma certa "purificação" ...controla-se o nascimento de deficientes..."abortando"! Acaba-se, com os velhos, doentes.. "despachando-os" mais cedo! Pasme-se..."dando-lhes uma MORTE digna"! Quando deveríamos dar-lhes...uma vida com dignidade! Deixem-me desabafar, com ironia: que pena que estas leis cheguem tão tarde... É QUE SE TIVESSEM CHEGADO MIAS CEDO TER-NOS-IAM LIVRADO DE ALGUNS DOS DEPUTADOS QUE ESTÃO NO NOSSO PARLAMENTO...Assim, não teríamos de ouvi-los e suportar as SUAS "QUERIDAS" Ideias!
  • João Lopes
    16 abr, 2018 Viseu 15:24
    Pergunto para a Renascensa se haverá modo de impossibilitar que haja 2 pessoas diferentes e com pensamento muito diferente, que "assinam" como o mesmo nome João Lopes. Obrigado!
  • João Lopes
    16 abr, 2018 Viseu 13:01
    Excelente artigo de Henrique Raposo. A defesa da vida, em todas as circunstâncias, é a defesa da humanidade. Os promotores da cultura da morte − aborto e eutanásia − atentam contra a dignidade da pessoa humana: são os "bárbaros" e os "monstros" destes tempos… A eutanásia e o suicídio assistido são diferentes formas de matar. Os médicos e os enfermeiros existem para defender a vida humana e não para matar nem serem cúmplices do crime de outros...
  • João Lopes
    16 abr, 2018 Viseu 09:48
    Excelente análise de HR. A defesa da vida, em todas as circunstâncias, é a defesa da hu-manidade. Os promotores da cultura da morte − aborto e eutanásia − atentam contra a dig-nidade da pessoa humana: são os "bárbaros" e os "monstros" destes tempos… A eutanásia e o suicídio assistido são diferentes formas de matar. Os médicos e os enfermeiros existem para defender a vida humana e não para matar nem serem cúmplices do crime de outros...
  • Hilario
    14 abr, 2018 lisboa 18:04
    O tema é atual e extrapola para realidades ilícitas ,homicidas e de assassinatos via politica.Vou resumidamente referir-me a uma atitude e orientação Politica dita progressista que se revelou assassina e teve que ser revertida.No pós 25 de Abril anos fins 70 arranca a campanha pelo uso da pilula e outros meios anticoncepcionais pela liberdade sexual mulher e o máximo de prazer, incentivando o não uso do preservativo como meio de atingir o máximo de contato e prazer.Consequencia aumento das doenças por transmissão sexual e quando apareceu o HIV /SIDA a decisão politica teve que ser revertida porque o não uso do preservativo ou condom era igual a transmissão da SIDA e DTS de forma célere.A politica sobrepôs -se á ciência e as consequências foram desastrosas.Na Eutanásia está exatamente a aconteder o mesmo,a politica assassina progressista? a sobrepor-se ao conhecimento ciência etc.É do conhecimento geral que a Eutanásia é discutida a nível mundial por prós e contras organizados e não há consenso.A ONU onde existe um subgrupo dependente da Unesco que envolve,mentes superiores,cientistas vários,médicos,investigadores,empresários,,representantes de varias religiões de 193 Paises,nao emitiram nenhuma resolução ou simples diretiva por considerarem que continua a ser homicídio e assassinato legalizado.Mentes brilhantes e altamente diferenciadas a nível mundial não conseguem defender diretiva Eutanásia mas Holanda,Suiça pro questões básicas de economicismo legalizam imoralmen
  • João Lopes
    13 abr, 2018 Lisboa 19:55
    Se Henrique Raposo gosta tanto de americanismos, poderia se ter lembrado do actor Rock Hudson. Foi a primeira estrela de cinema norte-americana vítima da SIDA, em Outubro de 1985. Por outro lado, esta opinião repete a anterior que escreveu, acerca do mesmo tema. Ou seja, Henrique Raposo torna-se repetitivo e esquece uma das frases fundamentais de Albert Camus: «A estupidez é repetitiva».
  • Geraldes Lino
    13 abr, 2018 Lisboa 14:28
    «Quem não se lembra de ver os pais de família com o auto-rádio debaixo do braço aos sábados e domingos? » Por acaso, não me lembro desta façanha que Henrique Raposo mantém na memória. «A droga e a sida destruíram uma enorme minoria da minha geração.» Se era uma minoria, não poderia ser enorme(?) Ver um rapaz que HR chama de "Nuno" com sida lembra ao autor destas opiniões o filme «Ben-Hur» (que imaginação tão fértil...) A expressão «Dead man walking» deve ter sido retirada do filme com Susan Sarandon (1995) que o próprio usa para acontecimentos referentes aos finais dos anos 80 e princípios dos 90. Quem não se recorda da morte do vocalista dos "Queen", Freddy Mercury (1991)? Para além de anacrónico, Henrique Raposo é incoerente. Tenta ganhar vantagem com o uso de expressões americanas, como o título de filmes que viu quando foi adolescente. Ao que parece, estamos perante um dito escritor que também é um caso patológico.