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Invasão de turistas afeta marchas de Lisboa. ​“Quase nenhum marchante mora no bairro”

12 jun, 2018 - 13:57 • Pedro Filipe Silva

A Renascença falou com marchantes da Graça e de Alfama que se viram forçados a sair dos seus bairros de origem. Voltam sempre nesta época do ano. “É regressar ao berço."

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Enquanto desfilam, os marchantes não escondem os sorrisos. Esta é a altura do ano por que tanto esperam. Para muitos é regressar às origens, ao bairro onde nasceram e cresceram. Mas hoje muitos já não vivem nos seus bairros.

Na Marcha de Alfama, o caso da ensaiadora é um de vários. Vanessa Rocha teve de abandonar o bairro típico há dois anos por causa da especulação imobiliária, que levou à atualização da sua renda para um valor "impossível" de pagar.

"É impossível viver em Alfama, as rendas aumentaram muito e os senhorios estão a começar a despejar. Ou aumentam muito a renda ou despejam-nos. Os ordenados não são muito altos, temos de sair”, conta Vanessa à Renascença.

Neste momento, acrescenta, 80% dos marchantes são de fora do bairro. “Quase nenhum marchante mora no bairro. Uns moram na margem sul, outros já moram na linha de Sintra."

Na Graça o cenário é idêntico. Bruno Ventura saiu do bairro há 11 anos para ir viver para a margem sul. A razão para voltar é simples. “É o amor, é o amor à camisola, o amor ao clube. Tenho 24 anos de marcha. Estive 10 anos como ajudante e este ano optei por voltar à marcha propriamente dita”, conta cheio de orgulho.

Agora são os turistas a ocupar o espaço com outros ritmos e "tradições". João Ramos, da organização da Marcha de Alfama, sublinha que essas diferenças sobressaem nesta altura do ano. “Quando regressamos quer do Altice Arena, quer da Avenida da Liberdade, somos recebidos por turistas que olham para nós com um ar um pouco estranho, porque não percebem. Dantes éramos recebidos por um mar de gente. Essa é a grande diferença. Sentimos que o povo de Alfama não está cá”, lamenta.

Mário Rocha, o presidente do Centro Cultural Magalhães Lima, que todos os anos ergue a marcha de Alfama, garante que não há lugar para turistas. “Eu não faço uma marcha com franceses, ingleses, holandeses e americanos. Não sou contra essa gente, mas eu não faço. Não é a gema do bairro.”

Apesar de já não ser a festa que em tempos foi, os Santos Populares marcam sempre o regresso às origens. Que o diga a ensaiadora Vanessa. “É regressar ao berço, é vir beber da água da nossa fonte, é aquele mês, o mês mais emocionante.”

O momento alto é a descida da Avenida da Liberdade, que terá lugar esta terça-feira à noite. Antes de cada um voltar aos seus novos lugares, a festa seguirá em cada um dos bairros típicos da capital até de madrugada.

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