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Vacinar? Mas porquê? É seguro?

21 mar, 2018 - 06:58 • Marta Grosso , com DGS e OMS

A questão coloca-se numa altura em que Portugal volta a ser palco de um surto de sarampo, doença considerada erradicada no país em 2015, mas que no ano passado foi responsável por uma morte.

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Recomendada por autoridades nacionais e internacionais, a vacinação é tida como o maior avanço da medicina moderna e a maior conquista em termos de saúde pública. Ainda assim, há quem decida não se vacinar ou aos seus filhos.

O movimento antivacinação surgiu no final dos anos 90, na sequência de um estudo publicado na revista científica “The Lancet”, mas que veio a provar-se fraudulento.

As vacinas mudaram por completo o panorama das doenças infeciosas nos países desenvolvidos e permitiram salvar mais vidas e prevenir mais casos de doença do que qualquer tratamento médico, escreve a Direção-Geral da Saúde no seu site.

Mas, afinal, as vacinas são seguras?

“Sem sombra de dúvida”, diz à Renascença Etelvina Calé, da equipa coordenadora do programa nacional de vacinação da Direção-geral da Saúde (DGS). “São produtos muito seguros, porque são utilizados para proteger de doenças. São, por isso, os medicamentos mais seguros que existem” e “dos mais escrutinados, mais sujeitos a ensaios”.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) também diz que qualquer vacina passa por vários testes antes de ser aprovada, sendo reavaliada com frequência já depois de entrar no mercado.

Além disso, toda a informação nova que surja, nomeadamente sobre efeitos secundários, é analisada por cientistas. A maior parte desses efeitos são temporários e de pequena gravidade (tais como febre e inchaço). Assim que um efeito secundário de maior relevância é reportado, é imediatamente investigado, destaca a OMS.

É mais provável ter um problema de saúde grave na sequência de uma doença passível de ser prevenida através da vacinação do que por ter dado uma vacina.

Por exemplo, a poliomielite pode causar paralisia, o sarampo pode provocar encefalite e cegueira e algumas doenças para as quais já existe vacina podem mesmo ser fatais.

Os benefícios da vacinação ultrapassam, pois, em muito, os eventuais riscos, sendo que sem vacinas existiriam muito mais doenças e a mortalidade seria muito mais elevada, refere ainda a OMS.

As vacinas providenciam mais imunidade do que as doenças?

As vacinas são produtos imunobiológicos constituídos por microrganismos, partes destes ou deles derivados. Uma vez introduzidos no indivíduo saudável, produzem uma resposta similar à da infeção natural, induzindo imunidade sem risco para o vacinado.

Entre os riscos mais graves decorrentes das doenças estão deficiências cognitivas (em resultado de uma infeção bacteriana identificada como “Haemophilus influenzae”), defeitos à nascença (provocados pela rubéola), cancro do fígado (do vírus da Hepatite B) e complicações fatais decorrentes do sarampo.

Quem está vacinado e contrai a doença terá efeitos muito menores do que uma pessoa não vacinada. Além disso, “a transmissibilidade é muito menor. Uma pessoa vacinada que contrai a doença transmite muito menos, contagia muito menos”, diz Etelvina Calé.

“Uma única pessoa com sarampo, numa população não vacinada, pode dar origem a 15 casos”, exemplifica.

As vacinas contêm conservantes?

Em algumas vacinas, é adicionado tiomersal (ou tiomerosal), um composto orgânico com mercúrio. É o conservante mais seguro e mais utilizado em vacinas, sobretudo nas multidose. Não existe qualquer evidência científica que indique uma relação entre a quantidade de tiomersal usada e risco para a saúde.

E a relação entre vacinas e autismo?

Não existe. Em 1998, o médico Andrew Wakefield “fez um artigo que conseguiu publicar numa revista de renome, a ‘Lancet’, em que associava a administração da vacina contra o sarampo ao autismo”, conta a responsável da DGS Etelvina Calé, na Renascença.

Esse médico “acabou por ser banido da Ordem dos Médicos em Inglaterra”, depois de ter ficado “perfeitamente demonstrado que tinha recebido dinheiro para enviesar o estudo e que não havia qualquer evidência científica”.

No entanto, “é muito mais difícil desfazer uma falsa notícia do que acreditar numa notícia verdadeira e daí estas controvérsias”, conclui a médica da saúde pública na Amadora.

A revista acabou por se retratar, mas o pânico já estava instalado entre a população mundial e levou a uma grande diminuição nas taxas de imunização e consequentes surtos de doenças consideradas controladas.

Não existe qualquer evidência que relacione a vacina tríplice ao autismo ou a desordens relacionadas com o autismo, garante a OMS.

Também preciso de vacina se uma doença já estiver erradicada no meu país?

Apesar de, na maior parte dos países desenvolvidos, já serem raras as doenças para as quais existe uma vacina, os agentes infecciosos que as provocam continuam a circular em algumas partes do mundo.

Ora, numa altura em que as fronteiras não passam de riscos num mapa e as pessoas circulam com muita facilidade entre países, quem não estiver vacinado fica exposto e vulnerável.

É por isso que, nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, têm ocorrido surtos de sarampo em populações não vacinadas – na Áustria, na Bélgica, na Bulgária, na Dinamarca, em França, na Alemanha, em Itália, em Espanha e na Grécia, entre outros.

Assim, além da proteção individual, a maioria das vacinas tem a capacidade de, a partir de determinadas taxas de cobertura vacinal, interromper a circulação dos microrganismos entre pessoas, originando aquilo a que se chama “imunidade de grupo”.

Conforme as suas características e a epidemiologia das doenças numa determinada zona ou país, as vacinas podem:

  • integrar os programas de vacinação nacionais (com esquemas adaptados à realidade de cada país ou região;
  • ser utilizadas para determinados grupos de risco ou em circunstâncias especiais, como as viagens;
  • ser aplicadas mediante indicação médica, numa base individual.

Em Portugal, a introdução de novas vacinas, as alterações ao esquema vacinal ou à população alvo da vacina no Programa Nacional de Vacinação (PNV) são feitas sob proposta da Comissão Técnica de Vacinação (CTV) – um órgão consultivo da Direção-Geral da Saúde constituída por especialistas de diversas áreas do conhecimento que fundamentam cientificamente todas as suas propostas e submetem à DGS. É depois esta entidade que as submete à tutela.

O esquema atualmente em vigor, tem como objetivo obter a melhor proteção, na idade mais adequada e o mais precocemente possível, refere a DGS.

Uma criança pode levar mais do que uma vacina ao mesmo tempo?

Estudos científicos mostram que administrar várias vacinas ao mesmo tempo não tem qualquer efeito secundário negativo no sistema imunitário da criança.

As crianças são expostas todos os dias a centenas de substâncias estranhas que exigem uma resposta do seu sistema imunitário. O simples passo da introdução faseada de alimentos coloca no organismo várias substâncias e bactérias vivas, que entram pela boca e pelo nariz. As crianças são mais expostas a antigénios numa constipação ou por causa de uma dor de garganta do que através das vacinas, refere a OMS.

E a vacina do sarampo, pode ser dada aos bebés com menos de 12 meses?

De uma forma geral, não. A vacina deve ser dada a partir de um ano de idade, no entanto, em situações especiais e por indicação médica, pode ser administrada entre os seis e os 12 meses.

Antes do ano de idade, “o sistema imunitário da criança ainda não está suficientemente preparado para responder durante um período longo de imunidade e a criança deve refazer a vacina aos 12 meses”, indica Etelvina Calé, da equipa coordenadora do Programa Nacional de Vacinação da DGS.

Há alguma relação entre o aumento do número de casos de tuberculose nas crianças em Portugal e o fim da obrigatoriedade da vacina BCG?

Não se pode fazer uma relação causa-efeito de se ter passado de uma vacinação universal para uma vacinação de grupos de risco e relacionar essa vacinação com o aumento do número de casos, afirma Etelvina Calé, da DGS, à Renascença.

Portugal apresenta dados robustos que permitem optar por uma vacinação de grupos de risco. O que é necessário é fazer uma boa identificação desses mesmos grupos de risco, refere ainda.

Assim, segundo aquela médica de saúde pública, os casos verificados resultam de várias coisas:

  • maior vigilância: todos os sistemas de alerta estão preparados para identificar todos os casos, porque sempre que se altera uma política de vacinação ela tem de ser muito bem vigiada para sabermos quais os resultados que daí advêm;
  • alguma dificuldade em identificar os grupos de risco, porque não estão referenciados e não utilizam os serviços.

· uma busca incessante de casos para que nenhum escape;

Devo proteger-me da gripe através da vacinação?

A gripe é uma doença grave que mata entre 300 mil e 500 mil pessoas todos os anos no mundo inteiro.

Mulheres grávidas, crianças, idosos e qualquer pessoa com uma saúde debilitada (como asmáticos e doentes cardíacos) fazem parte dos grupos de risco, pelo que devem vacinar-se.

A vacinação nas mulheres grávidas providencia proteção ao recém-nascido até aos seis meses de idade.

Segundo a OMS, as vacinas da gripe oferecem imunidade durante três meses e são a melhor maneira de reduzir a hipótese de vir a contrair uma gripe e de a passar a outros.

Estas vacinas são usadas há mais de 60 anos.

Em resumo

Há duas razões importantes para se vacinar: para proteger a sua saúde e para a proteção daqueles que o rodeiam.

O sucesso dos programas de vacinação depende da cooperação de cada indivíduo para defender o bem-estar de todos. Não podemos confiar nas pessoas que nos cercam para parar com a disseminação das doenças; também nós temos de fazer o que está ao nosso alcance, sublinha a Organização Mundial de Saúde.

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  • lavoisier
    25 mar, 2018 lisboa 13:53
    Coclusao neste mundo global a vacinação será praticamente obrigatória.