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Psicólogo no centro do escândalo Facebook: “Pensávamos que estávamos a fazer algo normal”

21 mar, 2018 - 16:22 • Rui Barros

Alexandr Kogan acredita estar a ser usado como “bode expiatório” pelo Facebook e pela Cambridge Analytica.

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Facebook, Cambridge Analytica e Kogan assumem responsabilidades, mas negam ter culpas do uso de dados
Facebook, Cambridge Analytica e Kogan assumem responsabilidades, mas negam ter culpas do uso de dados

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O investigador responsável pela aplicação que recolheu os dados de 50 milhões de utilizadores para a Cambridge Analytica, Alexandr Kogan, assume estar em choque com a revelação do escândalo da utilização abusiva de dados de Facebook.

Inicialmente numa entrevista à BBC, Kogan, psicólogo de formação, disse sentir-se utilizado como “bode expiatório”, tanto pela Cambridge Analytica como pelo Facebook. Mais tarde, já em declarações à CNN, assumiu: “O que sucedeu esta última semana tem sido um choque total."

"Pensávamos que estávamos a fazer algo perfeitamente normal", disse o investigador, revelando ainda que, do lado da Cambridge Analytica, houve a garantia de que “era tudo perfeitamente legal e em conformidade com as condições de utilização" do Facebook.

Kogan reconheceu que, em 2014, recolheu dados de 30 milhões de americanos e que os entregou à Cambridge Analytica, desconhecendo que esta empresa viria a trabalhar com a campanha presidencial de Donald Trump.

O investigador terá, para esse fim, criado uma aplicação chamada “thisisyourdigitallife”, que oferecia às pessoas que autorizassem o acesso aos seus dados um teste de personalidade, justificando-se perante as normas de utilização da empresa como sendo uma “aplicação de investigação usada por psicologistas”. Estima-se que 270 mil pessoas terão autorizado que a aplicação recolhesse informação sobre cada um e todos os seus amigos na rede social.

Em 2015, o Facebook soube do uso dos dados e pediu que fossem apagados, justificando que a venda ou transferência dos mesmos ia contra a política de privacidade da rede social.

A empresa de Mark Zuckerberg acusa agora o investigador de a “ter enganado”, abusando da sua política de dados. Quando a Facebook soube que o investigador partilhou a informação com a empresa de estratégia política, exigiu que esses dados fossem apagados, alegando que essa transferência de dados violava as normas de boa conduta da rede social.

Kogan argumenta que a gigante de Silicon Valley está a usar a sua recolha de dados como uma desculpa para justificar uma debilidade no sistema. “Usar os dados dos utilizadores para lucro próprio é o modelo de negócio deles”, argumenta Kogan.

Natural da Moldávia, Kogan viveu até aos sete anos em Moscovo, tendo-se mudado, depois, para os Estados Unidos. Estudou na Universidade da Califórnia e em Hong Kong, tendo-se tornado investigador na Universidade de Cambridge, na área da psicologia e da psicometria.

Maior abertura é verdadeiro antídoto

Para Francisco Conrado, investigador do MODA - Monitoring Online Discourse Activity, um recém-criado grupo de investigação da Universidade do Minho, este caso mostra, ao contrário do que se possa imaginar, a necessidade que o Facebook tem de se abrir mais à academia.

“O grande problema é que não temos nenhuma certeza sobre as potencialidades que o Facebook tem para influenciar pessoas. Temos teorias e pequenos trabalhos que mostram isso, mas são amostras bastante reduzidas, que inviabilizam qualquer inferência mais generalista”, argumenta o investigador.

Ao contrário do Twitter, onde os dados são de mais fácil acesso, o Facebook obriga os investigadores que querem usar dados da rede social a submeterem uma proposta de investigação à empresa, decisão que, para Francisco Conrado, coloca sérios problemas.

“O Facebook sempre se viu dividido entre a necessidade de manter internamente todos os dados e partilhá-los com a academia. O problema surge quando a empresa decide escolher que interlocutores privilegiados terão acesso a este tipo de informação”, defende o investigador, que acredita que é a raridade desses dados que faz com que estes se tornem “matéria rara para fins que não os da investigação puramente académica e sem interesses comerciais”.

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