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Reportagem

De uma margem à outra sem molhar os pés. A seca levou a água do Rabaçal

10 out, 2017 - 08:58 • Olímpia Mairos

Devido à seca, a autarquia de Valpaços construiu uma pequena represa junto à ponte de Valtelhas para abastecer a cidade. O rio deixou de ter água, é só areal.

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“Nunca se viu coisa assim!”. O lamento é de António Sousa, 76 anos. Está em cima da ponte medieval de Valtelhas, no concelho de Valpaços, e lança o olhar sobre “o leito do rio que não leva água”. Veio de propósito com a esposa para confirmar com os próprios olhos o que lhe tinham dito: o rio não tem água.

"Eu não acreditava e quis ver com os meus próprios olhos”, diz à Renascença. Os olhos de António ficam vidrados pelas lágrimas que quer conter, mas algumas teimam em correr-lhe pelo rosto. A voz fica cada vez mais embargada e é a custo que consegue balbuciar que “nunca” viu o “rio no estado em que está”.

António conhece há mais de 40 anos o Rabaçal, que nasce na Galiza, próximo da fronteira com Portugal, entrando no país no concelho de Vinhais. Possui duas barragens: a barragem em Rebordelo e a barragem de Sonim, ambas entre o concelho de Valpaços e o de Mirandela. Segue o seu curso até à confluência com o rio Tuela a Norte de Mirandela, para formar o rio Tua.

Nas águas “límpidas e transparentes” pescou “muitos quilos de peixe” e conviveu com amigos e familiares. “Nunca vi isto na minha vida e conheço este rio há mais de 40 anos. Aqui não corre uma gota de água. Os peixinhos já morreram. Já não tenho o que pescar”, lamenta o septuagenário.

Fernando Pires, de 83 anos, veio com o irmão Adérito, de 81, ver “esta tristeza”. Os dois residem em Valpaços e “não se lembram de uma coisa assim”. “Uma tristeza, foi o que eu vi. O rio não tem água nenhuma. Pode-se atravessar o rio à vontade, sem molhar os pés”, diz Adérito, lembrando que “há não muitos anos, durante o Inverno, a água passava por cima da ponte”.

Mais de 80% de Portugal continental encontrava-se em Setembro em seca severa, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, caracterizando-o de mês “extremamente quente”. Neste período, o total de precipitação acumulado foi de 621,8 milímetros (70% do normal), sendo o 9.º valor mais baixo desde 1931.

Mau para tudo

Fernando recorda as “tantas vezes” que veio para esta zona “conviver e comer tantas merendazinhas ao fresquinho”.

“É triste, dá-me vontade de chorar. É uma desgraça, isto. Quantos peixinhos se pescava aqui! Agora nem água têm para eles”, lamenta o octogenário, vaticinando que “se não chover em breve, é mau para tudo, tudo: para as pessoas, para os animais… Como é que os animais vão singrar? É horroroso, é horroroso”.

Maria Teresa, 72 anos, veio com a filha, os netos e uma vizinha. Vieram de propósito da aldeia da Bouça, no concelho de Mirandela. Veio para “ver o rio”, “para confirmar”, porque “não estava a acreditar”, confidencia à Renascença.

“Estamos no fim do mundo. Não temos água, não temos como viver. Os animais morrem à sede, não há cereais, não há nada”.

A amiga, Maria Pinheiro, de 75 anos, recorda os tempos de meninice, em que “vinha com os pais apanhar lenha para os montes, junto ao rio, e era tanta a água que até subiu por cima da ponte”. “Agora o que se vê é miséria, em vez de água, é terra seca e pedras, nem molhamos os sapatos para atravessar de uma ponta à outra”, lamenta, temendo que “falte a água também nas torneiras de casa e para dar de beber aos animais”.

Praia fluvial sem banhistas. Restaurante vive dos curiosos

António José explora o restaurante no parque de campismo do Rabaçal, contíguo à praia fluvial que “em tempo de Verão acolhe centenas de turistas e pessoas dos concelhos de Valpaços e Mirandela”. Também nunca se lembra do “rio seco, sem água”.

Por estes dias quentes, e com temperaturas acima dos 32 graus, não há banhistas, porque deixou de haver praia por falta de água. O negócio que faz é com os “muitos curiosos que vêm para ver este triste cenário”.

“Vem muita gente, muita gente mesmo e fica tudo admirado, mas que havemos de fazer, se não chove?”, questiona, encolhendo os ombros em atitude de resignação.

António também se lembra “do rio passar 50 centímetros por cima da ponte” e lamenta que agora seja possível “passar de uma margem à outra sem molhar os pés”.

Desconsolo dos estrangeiros

Illy, de 68 anos, e Hosse, de 67, chegaram esta semana ao Parque de Campismo do Rabaçal. Vieram da Holanda para passar uns dias de férias. É a quinta vez que estão no nosso país, mas a primeira na região de Valpaços. E não queriam acreditar no cenário que se apresentava diante dos seus olhares. Mostram-se desconsolados e ao mesmo tempo tristes.

“É uma pena o rio estar tão seco. É um desconsolo. O nosso cão adora água e nós também, mas não podemos ir para o rio, porque não leva água nenhuma. É uma pena para o parque de campismo. Poderia estar aqui muita gente, mesmo de Portugal, a brincar com as crianças e assim não dá”, lamenta Illy.

Hosse partilha do mesmo sentimento. “Tenho muita pena e já disse à minha esposa que quero voltar a este lugar, talvez em Junho, quando houver mais água, mais vegetação, mais flores, porque este é um lugar muito bonito”.

O Parque de Campismo Rabaçal dispõe de oito "bungalows". Seis alojam seis pessoas em cada um, e os outros dois alojam quatro pessoas em cada um.

Bem perto do parque existe a Praia Fluvial do Rabaçal, que tem um grande areal, zona de piquenique, balneários, restaurante e parque de lazer. Só que agora não há água e, por isso, não há praia.

Reservatório de água para abastecer Valpaços seca o rio

O presidente da junta de freguesia de Vale de Telhas, Carlos Alves, explica que, devido à seca, “a autarquia de Valpaços foi obrigada a fazer uma pequena represa para manter ali a água e abastecer a população do concelho e a partir desse local o rio secou”.

Na aldeia de Vale de Telhas, no concelho de Mirandela, também as fontes de nascentes começam a secar e a preocupação é cada vez mais a agricultura.

Carlos Alves não sabe como vai “a direcção regional de Agricultura ajudar” os agricultores, mas sabe que há culturas quase perdidas, como é “o caso da azeitona” e as hortícolas “estão a morrer à sede”.

Em Valpaços teme-se o pior. Se não chover, a “pouca água que se está a armazenar junto à ponte não dá para nada”, diz Fernando Pires.

“Para já, ainda não fizeram nenhum apelo à poupança, mas da maneira que isto vai, não tarda e ficamos sem água na torneira”, constata Fernando, garantindo que em sua casa “o precioso líquido, agora mais precioso do que nunca, é usado com grande responsabilidade”.

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