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Estudo

Os discursos de Salazar: Da “boa dona de casa" ao "navegador-guerreiro das caravelas"

15 jan, 2017 - 10:58

Professor catedrático da Universidade do Minho, Moisés de Lemos Martins, quer compreender por que razão o regime salazarista durou tanto tempo.
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Trinta anos depois de estudar os discursos de Salazar, que traduzem o desejo de uma nação de figura maternal a sonhar por um império, as conclusões do investigador Moisés de Lemos Martins mostram um imaginário que permanece actual.

Por se manter actual, a editora Afrontamento publicou a 2.ª edição do livro "O Olho de Deus no Discurso Salazarista", que reproduz a tese de doutoramento defendida por Moisés de Lemos Martins na Universidade de Ciências Humanas de Estrasburgo, em 1984.

O que o agora professor catedrático da Universidade do Minho fez foi estudar os discursos de Salazar, para tentar compreender a questão: por que razão o regime salazarista durou tanto tempo?

A partir da ideia de que para o compreender não se poderia limitar a interrogar as práticas antidemocráticas e a natureza ideológica de Salazar, Moisés de Lemos Martins decidiu interrogar o "imaginário salazarista", ou seja, tentar perceber, através do seu discurso, que sonho tinha para Portugal.

A conclusão a que chegou foi que Salazar tinha "uma visão de esplendor" para o país, uma "ideia grandiosa", "um sonho megalómano", um Portugal que vive modestamente, gerindo bem os seus recursos, mas que simultaneamente é um império que vai "do Minho a Timor, e se mais mundos houvera", explicou à Lusa.

No entanto, para chegar aqui, Moisés de Lemos Martins isolou "duas figuras maiores" do imaginário salazarista, que eram recorrentes no seu discurso: uma é a da "boa dona de casa" e a outra é a do "navegador-guerreiro das caravelas".

A dona de casa representa uma figura maternal, com a qual Salazar se identificou e que foi apresentada como modelo aos portugueses.

"Viver modestamente, mas saber bem gerir os pequenos recursos do país e as suas poupanças, é nisto que consiste a boa dona de casa e nesta figura podemos ver a saudade de um tempo medieval e o sonho de um país rural, a concórdia de um país rural, este era o modelo para o país", disse o investigador.

A outra figura do imaginário do Estado Novo é "o 'navegador-guerreiro das caravelas' ou então, sem mais, 'as caravelas', que remetem para o sebastianismo salazarista, que exaltam o império de um país do Minho a Timor".

Moisés de Lemos Martins destaca o paradoxo existente entre estas duas figuras: "a pequena casa lusitana, um país rural de fracos recursos, que todavia sonhava com o império e não podia dispensar o império, e por isso é que houve mais tarde a guerra colonial".

A "normalidade" que Salazar procurava era a de um Estado Novo "como salvação da nação, tornando-a una, regenerada e verdadeira", contra o "anticristo" ou "as plantas exóticas importadas", formulações de Salazar para se referir à democracia e às instituições democráticas.

Moisés de Lemos Martins tomou o discurso salazarista como "uma espécie de biopolítica", uma política que se exerce sobre o corpo de uma nação, sobre a sua memória, o seu desejo, a sua vontade e o seu olhar.

Este discurso impôs-se à nação portuguesa através da ideia de que o regime político resulta da ordem natural das coisas -- e não de um combate de lutas sociais e políticas -- bastando, para tal, que o país vivesse habitualmente.

A imposição deste "pseudonaturalismo", como lhe chamou Moisés de Lemos Martins, contou com o apoio do secretariado da propaganda nacional, "que dava a ver o que era preciso conhecer e o que era preciso acreditar".

Salazar recorreu ainda a um truque facilitador da resignação do povo, funcionando como "um parafuso que verruma lentamente a madeira -- fazendo força lenta -- sem a ferir, contrariamente ao fascismo e ao nazismo que incitavam a nação".

"O regime salazarista sonhava com a devolução da saúde à nação portuguesa que estava doente pela febre introduzida pela Primeira República, mas sem fazer subir a temperatura, sem injecções fortes que poderiam incitar a nação", disse o investigador explicando que estas eram mesmo as "metáforas curiosas" usadas por Salazar.

Na opinião de Moisés de Lemos Martins, este imaginário salazarista permanece no imaginário contemporâneo, através das ideias de portugalidade e lusofonia, na medida em que a primeira converte a história em eternidade, em natureza da nação portuguesa, e a segunda porque é usada muitas vezes numa perspectiva "lusocêntrica", que mais não é do que metamorfosear o sonho salazarista.

Comentários
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  • Nuno
    16 jan, 2017 V.N.Gaia 17:18
    Uma coisa é certa!!!!Deixou o país rico e morreu pobre e sem fortuna E AGORA ?????????.
  • António
    16 jan, 2017 Vimieiro 15:38
    Só diz mal deste GRANDE PATRIOTA os LADROES E VIGARISTAS QUE APARECERAM NESTE PAIS A ROUBAR A NAÇAO, logo após o 25 de Abril/74 , que começaram logo pelas 850 toneladas de ouro que este grande homem deixou. Todos os dias se v~~ao conhecendo quadrilhas, mas que infelizmente n~~ao v~~ao para as prisões .
  • Lolita
    16 jan, 2017 Tavira 13:41
    No final da 2ª Guerra Mundial, os EUA e Inglaterra interpelaram Portugal sobre a razão do País ter multiplicado por 6 (!!!!!!) as suas reservas de ouro no período 1939-1945 (devido ao comércio e tráfico de volfrâmio com o regime nazi, o que permitiu crescimento do PIB e anulamento do déficite comercial), mas o povo português viver pior em 1945 do que vivia em 1939... Salazar mandou responder que o povo português estava habituado à pobreza... Já o amigo íntimo e protegido de Salazar, Ricardo Salgado, aumentou várias vezes a sua fortuna pessoal no mesmo período...
  • rui vieira
    15 jan, 2017 ourem 21:46
    grande homem, eleito pelo povo como o maior portugues da historia. pena nao ter vivido mais uns bons anos
  • Luís M.
    15 jan, 2017 Braga 11:34
    O regime durou tanto tempo porque os portugueses preferem fugir a lutar para mudar o sitio onde vivem.