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Cancro. Molécula sintética portuguesa só é eficaz em tumores primários

05 jan, 2017 - 16:21 • André Rodrigues

Luís Arnaut, da Universidade de Coimbra, explica, em entrevista à Renascença, os detalhes da investigação que deu origem ao primeiro medicamento português para combate ao cancro.

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O investigador Luís Arnaut, da equipa do Departamento de Química da Universidade de Coimbra que desenvolveu um novo fármaco de combate ao cancro, adverte que a Redaporfina só é eficaz em casos em que o tumor seja detectado antes da disseminação por outros órgãos.

A molécula sintética, patenteada pela Universidade de Coimbra, foi ensaiada em 14 doentes com tumores da cabeça e do pescoço, permitindo aos investigadores chegar à conclusão de que a fórmula é bem mais eficaz na abordagem aos cancros através da terapia fotodinâmica, uma tecnologia que elimina células malignas com recurso a tecnologia infravermelha.

Em declarações à Renascença, Luís Arnaut explica que "a terapia fotodinâmica tem tido muito sucesso em algumas áreas de aplicação", mas, no caso dos tumores, o êxito "tem sido relativamente limitado". Isso deve-se, essencialmente, "às propriedades dos fármacos utilizados até ao momento".

A novidade da Redaporfina prende-se, sobretudo, com "as características que a diferenciam dos medicamentos anteriores (é mais potente e mais bem tolerada, e é isso que justifica o sucesso nos ensaios com doentes) e também a esperança que a comunidade científica deposita na futura utilização deste medicamento inovador.

"A nossa utilização da terapia fotodinâmica tem sido em cancros de cabeça e pescoço, mas com outras moléculas e outros procedimentos, ela tem sido também utilizado nos cancros do pulmão, pâncreas, cólon e bexiga". Daí que "a diversidade de cancros de órgãos que é possível tratar com este procedimento é bastante grande".

Cura total com Redaporfina é cenário "muito ambicioso"

Apesar do sucesso dos testes, Luís Arnaut afirma que a cura total através da utilização exclusiva da Redaporfina é um cenário "muito ambicioso", que só se concretiza se o tumor puder ser detectado ainda antes da disseminação por outros órgãos.

O problema, assinala o investigador, é que, "frequentemente, estes cancros - quando são detectados - já têm metástases em órgãos vitais e, portanto, torna-se muito difícil proporcionar uma cura total".

Nos ensaios em modelo animal, "tratando apenas o tumor primário, as taxas de cura chegaram aos 86% e sem efeitos adversos", mas estes modelos clínicos não correspondem aos casos mais frequentes. Nos cancros que geram metástases, a abordagem mais eficaz pode combinar a Redaporfina com a imunoterapia, um tratamento inovador com reconhecida taxa de sucesso no tratamento das metástases.

Redaporfina pode chegar aos doentes em 2022

Uma vez terminada a fase dos ensaios clínicos, Arnaut admite um tempo médio de cinco anos de espera até à aprovação da entrada da molécula no circuito comercial. Admite que, "com maior investimento e apoio de grandes indústrias farmacêuticas, seja possível reduzir esse tempo, eventualmente, para três anos".

Assim, em 2022, no máximo, os doentes com cancro poderão ter acesso aos tratamentos com Redaporfina, o medicamento oncológico desenvolvido pelo Departamento de Química da Universidade de Coimbra, que abre uma nova janela de esperança no tratamento do cancro.

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