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Primeiro medicamento português contra cancro da cabeça passa nos ensaios

04 jan, 2017 - 08:48

Terapêutica poderá estar acessível em 2022 e vir a ser também usada contra o cancro das vias biliares. Vai ainda ser candidatada à Agência Europeia do Medicamento.

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Passou nos ensaios iniciais o primeiro medicamento oncológico português para o tratamento do cancro avançado na cabeça e no pescoço.

A terapia começou a ser desenvolvida na Universidade de Coimbra e foi testada no Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto, onde foi bem tolerada pelos 14 doentes que participaram nos testes.

"Verificámos que o tratamento com este medicamento de tumores malignos da cabeça e pescoço (espinocelulares) revelou elevada segurança, uma vez que os efeitos colaterais e adversos foram raros, não foram severos e revelaram-se de fácil controlo", afirmou o oncologista cirúrgico e responsável pelo ensaio clínico Lúcio Lara Santos, à agência Lusa.

O tratamento consiste na utilização de uma molécula sintética, desenvolvida em Coimbra, que é um fotossensitizador e entra em acção num determinado local sem afectar as células saudáveis.

A destruição do tumor faz-se quando a molécula é iluminada por uma determinada “cor” – daí, esta ser uma terapia fotodinâmica. A explicação é dada ao jornal “Público” por Luís Arnaut, investigador e professor catedrático do Departamento de Química da Universidade de Coimbra e um dos inventores da molécula, chamada redaporfina e que começou a ser desenvolvida em 2010.

Mariette Pereira, Carlos Monteiro e Sebastião Formosinho Simões (que morreu a 19 de Dezembro de 2016), todos daquela universidade, são os restantes inventores.

Os ensaios clínicos tiveram início há cerca de dois anos e meio em doentes para os quais já "não existiam soluções terapêuticas", adianta à Lusa Sérgio Simões, presidente da Luzitin, empresa nascida a partir da farmacêutica Bluepharma e detentora da licença da redaporfina.

Depois dos testes, alguns doentes que estavam em cuidados paliativos e impossibilitados de comer e falar passaram a poder fazê-lo.

Agora, e antes de chegar ao mercado, o medicamento vai passar por uma nova fase de ensaios com um grupo de doentes mais alargado. O oncologista do IPO Lúcio Lara Santos acredita que depois disso ficará demonstrado "o valor e os benefícios da terapia fotodinâmica com Redaporfin em oncologia".

É, contudo, necessário ainda provar a eficácia deste tratamento quando associado (ou não) a outras abordagens terapêuticas, como a quimioterapia ou a imunoterapia.

O passo seguinte é encontrar financiamento para a produção do medicamento. Correndo tudo bem, o presidente da Luzitin acredita que a comercialização poderá ser aprovada em 2022.

“Medicamento órfão”

Sérgio Simões afirma que a redaporfina pode ser usada como tratamento do cancro das vias biliares, tumor muito raro, mas extremamente severo e sem terapêutica.

O medicamento vai, por isso, ser candidatado à Agência Europeia do Medicamento com o estatuto de "medicamento órfão" – nome dado a um fármaco que “vai dar resposta a uma necessidade que não está colmatada”.

“É uma mais-valia e vamos investir nesta área e utilizar as 'vias-verdes' para as doenças raras para dar um salto importante e fazer o medicamento chegar o mais rapidamente ao mercado", sublinha ainda o presidente da Luzitin.

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  • ILIDIO BROCHADO
    04 jan, 2017 PORTO 10:22
    Faço votos que seja um sucesso, para bem dos doentes que sofrem destes problemas . Ainda bem que neste país existem competentíssimos profissionais que passam despercebidos entre a multidão e a quem todos nós tanto devemos. É o caso do Dr. Lucio Lara Santos e sua competentíssima equipa medica, a quem devo (e minha família) essa ENORME gratidão de nos aliviar de um problema oncológico de que minha esposa padecia. Um singelo e muito sentido OBRIGADO, não há palavras que possam descrever este sentimento de gratidão. Ao IPO - Porto igualmente esse nosso obrigado pela competência e dedicação de todos os seus profissionais, médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar e ate esses voluntários autenticas "formiguinhas" prontos a ajudar. MUITO OBRIGADO