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Brexit espicaçou interesse de judeus sefarditas por aquisição de cidadania portuguesa

02 jan, 2017 - 12:44 • Pedro Mesquita

Michael Rothwell, da comunidade judaica do Porto, diz que a maioria dos que pedem cidadania não quer mudar-se para Portugal, mas sim beneficiar das vantagens do passaporte da União Europeia.
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Mais de 400 judeus sefarditas britânicos, sobretudo a viver no Reino Unido, decidiram requerer a nacionalidade portuguesa, motivados pelas incertezas geradas pelo Brexit.

A ideia não será virem para Portugal, mas sim manterem um passaporte europeu e o direito à livre circulação.

Todos eles terão ascendência portuguesa, embora em muitos casos os seus antepassados tenham residido em Portugal há 500 anos e procuram tirar partido de uma lei portuguesa que permite o pedido de cidadania por parte de descendentes dos judeus expulsos de Portugal há centenas de anos.

Os judeus dividem-se em diferentes etnias, senda as duas maiores a asquenaze, com origens e influências da Europa central e de leste, e a sefardita, que inclui judeus que viviam em Espanha, Portugal e Norte de África. As duas comunidades mantêm tradições e hábitos distintos e em Israel cada grupo tem a sua própria autoridade religiosa.

A maioria dos pedidos de certificação, junto da comunidade israelita do Porto – passo essencial para requererem a nacionalidade – ocorreu nos meses que se seguiram ao referendo do Brexit. O ritmo é agora mais lento, mas continua a haver pedidos, como indica à Renascença Michael Rothwell, membro da direcção da Comunidade Israelita do Porto.

Nos dois meses seguintes ao Brexit, 400 britânicos sefarditas judeus pediram nacionalidade portuguesa com receio das consequências do Brexit. Mantém-se este fenómeno?

Em primeiro lugar, não pediram ainda nacionalidade. O que pediram foi certificação pela comunidade israelita do Porto que é um passo essencial para poderem pedir a nacionalidade.

Mantém-se o interesse, mas não ao mesmo ritmo que se verificou nos primeiros tempos. O que acontece é que nas primeiras semanas a seguir ao Brexit houve uma forte adesão à possibilidade que existe na lei de nacionalidade de sefarditas de origem portuguesa poderem pedir certificação junto à comunidade judaica de Portugal e, a seguir, requererem nacionalidade portuguesa. O ritmo, entretanto, foi abrandando.

Ultimamente, tivemos um fenómeno muito interessante que são britânicos residentes noutros países e, até, noutros continentes pedirem certificação com vista a obterem nacionalidade portuguesa.

Porque é que isto acontece ainda? São britânicos com ascendência portuguesa?

Estamos a falar de britânicos que têm, forçosamente, antecedentes portugueses, embora essa antecedência, em alguns casos, tenha origem há cinco séculos, na altura da expulsão. Noutros casos, é uma antecedência mais recente, por causa dos cristãos novos que emigraram para o Reino Unido a partir dos séculos XVII e XVIII.

Isto está relacionado com o receio de que o Brexit lhes vá tirar o passaporte da União Europeia e querem manter esses privilégios?

O interesse está em vários factores. Há um factor que se traduz no facto de as pessoas quererem beneficiar de um direito que é seu. São pessoas que têm uma ligação afectiva com Portugal, alguns, até, ainda falam ladino, que é uma língua medieval com base em português e espanhol, mas, evidentemente, são cidadãos que se sentem europeus e não querem, pelo facto do Reino Unido sair da União Europeia, deixar de se sentirem europeus e de terem os direitos que advêm da cidadania europeia.

Em qualquer dos casos, eles pretendem realmente vir para Portugal ou é apenas a intenção de terem um passaporte da União Europeia?

Muitos dos requerentes do Reino Unido, a maior parte, aliás, não terá intenção de viver cá. É mais, em termos práticos, uma manifestação de interesse em ter cidadania europeia e aceder à livre circulação. É um aspecto afectivo e um aspecto prático. Há alguns países onde judeus sefarditas estão com mais dificuldades e entre esses há um número que pretende vir para Portugal.

Esse desejo concretizou-se? Houve muitos pedidos de nacionalidade portuguesa ou foi apenas um pedido de informações?

Foi apenas um pedido de informações. Estão, concretamente, a seguir os passos, porque estão a pedir certificação à Comunidade Israelita do Porto. Naquela altura, manifestaram interesse, pediram informações e nós explicámos que a certificação exige provas documentais de que são judeus sefarditas e que têm uma ligação efectiva com Portugal

Quantas pessoas poderão vir a requerer nacionalidade portuguesa?

Até agora, temos 400 e tal pedidos para certificação.

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