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​Contratos precários e pressões externas. Um retrato do jornalismo em Portugal

15 dez, 2016 - 08:17

Inquérito feito para uma tese de doutoramento revela também que a maioria dos jornalistas inquiridos defende a criação de uma Ordem dos Jornalistas.

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Metade dos jornalistas em Portugal tem um contrato de trabalho precário e 72% acredita que dificilmente encontraria novo emprego no sector, conclui um inquérito realizado para uma tese de doutoramento na Universidade de Coimbra.

O inquérito, com uma amostra representativa composta por 806 jornalistas e realizado em 2015, faz um retrato de uma profissão "sujeita a condições bastante precárias" e com "baixas expectativas em relação ao seu trabalho", afirmou à agência Lusa o investigador responsável pelo estudo, João Miranda, que realiza uma tese de doutoramento na Universidade de Coimbra (UC) sobre a auto-regulação profissional do jornalismo.

Metade dos jornalistas tem um contrato de trabalho "próximo de lógicas de precariedade", sendo que 25% dos inquiridos trabalha em regime de prestação de serviços com recibo verde, 12% apresenta contrato a termo certo e 9,2% a termo incerto, havendo ainda uma percentagem residual de jornalistas em estágio profissional ou curricular, referiu o investigador.

Mais de metade (55%) afirma que a sua situação laboral afecta o desempenho do seu trabalho, sendo "sobretudo entre prestadores de serviços que estão a recibo verde que mais existe concordância" com esta ideia, sublinhou João Miranda.

Maioria recebe menos de mil euros

De acordo com o estudo, 72,8% dos inquiridos acha que dificilmente encontraria um novo emprego na área, sendo que quase um terço já esteve numa situação de despedimento num órgão de comunicação social.

Mais de 40% dos jornalistas auferem um vencimento bruto entre 506 e mil euros, 7,3% referiu receber abaixo do salário mínimo nacional e apenas um quarto diz receber mais de 1.500 euros brutos por mês.

Quase um quarto dos inquiridos diz desenvolver outra actividade profissional que não o jornalismo e 23,5% afirma desenvolver "actividade jornalística noutro órgão de comunicação exterior à empresa com quem detém o vínculo principal".

O inquérito constata que dos jornalistas que dizem ver os seus trabalhos publicados ou difundidos noutros órgãos da empresa onde trabalha (cerca de metade), quase a totalidade (90,8%) afirma não receber mais por isso.

Também quando se trata de desempenhar outras tarefas, nomeadamente fazer fotografias ou artigos para a edição digital do órgão de comunicação, 86% dos inquiridos não recebe qualquer suplemento por essa actividade adicional.

Cerca de 40% já realizou um estágio profissional ou extracurricular não remunerado, apontando como principais razões para o fazer a "expectativa de integrar os quadros do órgão de comunicação" ou a possibilidade de "adquirir experiência profissional". A esmagadora maioria concorda quer com a obrigatoriedade de detenção de um título profissional (90%) quer com a exigência de um estágio obrigatório (84%).

Pressões externas e jornalistas que pouco saem da redacção

O mesmo estudo conclui que 35,7% dos jornalistas inquiridos são alvo de pressões externas e cerca de um quarto afirma ser alvo de pressões da direcção e da administração. O documento nota que mais de um terço dos inquiridos refere que já foi alvo de pressões externas no decorrer do seu trabalho.

Apesar de uma maior evidência das pressões externas nas redacções, 26,2% dos jornalistas que participaram no inquérito referem também que já foram alvo de pressões da direcção editorial e 23,8% de pressões da administração da empresa.

O investigador João Miranda fez um cruzamento de dados para perceber se havia alguma variação significativa em relação à idade, género ou vínculo laboral, concluindo que as pressões são "transversais aos diferentes sectores do grupo profissional".

Apesar destes resultados, apenas cerca de 15% dos inquiridos discordam ou discordam totalmente com a ideia de "dispor de total liberdade na produção de conteúdos", nota o estudo a que a agência Lusa teve acesso.

Quase 90% dos jornalistas dizem cumprir os preceitos éticos e deontológicos inerentes ao exercício da profissão e a quase totalidade afirma que o seu trabalho nunca ou raramente é modificado sem a sua autorização.

O inquérito, que também aborda as rotinas dos jornalistas, conclui que 2,7% dos inquiridos nunca contacta com fontes na redacção de notícias e 10,7% raramente. As percentagens também são reduzidas quando é perguntado aos jornalistas se recorrem sempre ou muitas vezes apenas a notas de agência. No entanto, cerca de 20,5% dos inquiridos raramente sai da redacção e 3,7% nunca a abandona em reportagem.

Essa tendência é corroborada pela hierarquia feita pelos jornalistas relativamente às metodologias que utilizam para contactar com as fontes.

A principal metodologia é o contacto telefónico, seguido do contacto presencial, sendo que o contacto via 'e-mail' também se torna relevante, sobretudo quando os jornalistas elencam a sua segunda e terceira metodologia mais utilizada no contacto com as fontes.

João Miranda salienta ainda o facto de as redes sociais já serem a principal metodologia utilizada por 1,7% dos jornalistas inquiridos.

Maioria defende criação da Ordem dos Jornalistas

Na componente da auto-regulação, a maioria dos jornalistas (76,4%) consideram fraco o grau de participação da profissão na Entidade Reguladora para a Comunicação Social e mais de metade considera igualmente fraco o grau de participação na Comissão da Carteira Profissional.

Cerca de 70% dos inquiridos considera importante a criação de uma Ordem dos Jornalistas.

O inquérito, com 90 perguntas, foi realizado no âmbito da tese de doutoramento de João Miranda, na Universidade de Coimbra, onde o investigador analisa o contexto da auto-regulação profissional do jornalismo em Portugal.

Os resultados do inquérito são apresentados esta quinta-feira, na Faculdade de Letras, às 16h00, num debate intitulado "Relatos de uma profissão indefinida. Resultados de um inquérito aos jornalistas".

O inquérito foi aplicado pela internet entre os contactos detidos pela Comissão da Carteira, a titulares de carteira profissional de jornalista, título provisório ou cartão de equiparado.

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  • Barsanulfo
    15 dez, 2016 alcains 12:50
    Entenda-mo-nos! Comecemos pela propriedade da esmagadora maioria dos órgãos de informação escrita , rádios e televisão. Estamos a falar de grupos económicos, com ligações á maçonaria, á extrema direita e á "generalada" angolana cujos rostos poucos conhecem. Aos seus petro-dólares e diamantes de sangue vindos de "além-mar".Estes grupos, hiper falidos, com défices de milhares de milhões, continuam paulatinamente a produzir informação e televisão, do mais baixo nível, a funcionar como o "OMO lava mais branco", ao serviço de lobies políticos na defesa dos seus interesses económicos que, em regra, delapidam o estado e a economia do país. Razão pela qual, os bons jornalistas, com lastro e nome feito, respeitados, da "velha escola", ou ficam a aguardar pela reforma em "prateleiras douradas", ou são substancialmente indemnizados e mandados para casa. As redacções, hoje, estão a abarrotar de gente sem currículo ( não obstante o seu valor), pagos ao parágrafo, que se limitam muito, muito precáriamente, a fazer cópias do que lhes encomendam. Um verdadeiro "batalhão de jornaleiros" cuja luta é a da sobrevivência, mão de obra dócil, -penas vergadas-, maioritária e consensualmente reconhecido, ao serviço de quem lhes paga;a direita!
  • quantos são?
    15 dez, 2016 Almada 12:04
    Faltou dizer quantos jornalistas responderam ao inquérito, informação fundamental do ponto de vista do próprio jornalismo sobre este estudo. Ai que andam a dormir
  • oraaíestá!
    15 dez, 2016 do cemitério 11:39
    O trabalho neste país, de uma forma geral, passou à precariedade, à exploração, à substituição do homem pela máquina, arranja-se máquinas para tudo, sem haver a mínima preocupação da sobrevivência daqueles que ficam sem trabalho e sem os meios para a sua sustentabilidade. Cada vez mais o objetivo é sempre a redução de trabalhadores e pagar o quanto menos possível, não importa o futuro destes, que morram, que se danem, que vão para o rendimento mínimo, o pior depois é que ainda aparecem idiotas, gente burra, que sem um pingo de compreensão ainda metem tudo no mesmo saco e depois acham que as pessoas é que não querem trabalhar. Generalizam tudo. Deixou de haver respeito e dignidade aos que trabalham. Enfim, como é que se compreende que cada vez mais há mais máquinas para se substituir a mão humana, mas ainda depois os capitalistas ou empresários ainda querem aumentar mais horas de trabalho? Mas que grande ajuda para combater o desemprego, falando ironicamente!!! Depois este país ainda deixou de ter o seu próprio dinheiro, até nisto, é subjugado com regras europeias, que muitas vezes ainda vem fragilizar mais aos que já estão fragilizados. Deixou de produzir para passar à dependencia... Além do mais isto é um país de corruptos, de políticos incompetentes e medíocres que só vão para o pelouro para se servirem a si e à dos amigos, quem fica sempre na mda é o povo, os trabalhadores, as famílias sem dignidade, aliás há estudos a confirmarem que cada vez mais há crianças a p-fom