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Cinco candidatos com doenças graves integravam curso de Comandos

28 nov, 2016 - 06:18 • Raquel Abecasis

Investigação Renascença. Doenças crónicas, cardíacas e, num dos instruendos, a presença de um tumor foram algumas das patologias detectadas.

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Cinco candidatos foram afastados do 127.º curso de Comandos, que terminou na sexta-feira, por problemas graves de saúde. A Renascença teve acesso aos processos de exclusão. Alguns militares apresentavam manifestações de doenças graves, anteriores ao início do curso.

Um dos candidatos sofre de síndrome de Gilbert, uma doença hepática crónica, de origem genética. Outro tem uma doença cardíaca, também genética, e antecedentes de epilepsia. Um terceiro instruendo do 127.º Curso de Comandos tem um tumor ósseo na bacia, visível, segundo o relato dos processos de exclusão a que tivemos acesso, “à vista desarmada”. No quarto caso, o candidato a comando tem duas hérnias discais e o quinto candidato uma dismetria dos membros inferiores.

Os cinco elementos foram excluídos do curso já depois das mortes de Hugo Abreu e Dylan Silva terem ocorrido e fazem parte de um conjunto de 16 candidatos que foram afastados do curso por motivos de saúde, tendo regressado às suas unidades de origem.

Na sequência desta investigação, a Renascença contactou um dos militares a quem foi detectada uma patologia grave. O militar em causa confirmou a sua situação de saúde, mas recusou esclarecer se já tinha conhecimento do problema de saúde antes de ser admitido no curso de Comandos.

Patologias "exacerbadas pelo esforço físico"

A Renascença contactou o porta-voz do Exército para apurar se as patologias que estes cinco instruendos manifestaram não tinham sido detectadas antes do início do curso.

Na resposta, o tenente-coronel Vicente Pereira esclarece que os militares que se candidatam ao curso de Comandos apresentam “níveis de ambição elevados e com alguma frequência escondem manifestações de doença para não serem excluídos”.

Por isso, “a identificação de patologia torna-se mais difícil e o Exército tem trabalhado, com parceiros cientificamente reconhecidos, na identificação de processos que permitam antecipar este tipo de situações”.

Para cada um dos casos apontados pela Renascença, o porta-voz apresentou uma possível explicação para o facto de a patologia não ter sido detectada.

No caso da doença hepática crónica, refere que em algumas situações pode ser detectada apenas por “exames específicos” e que o “esforço físico provocou exacerbação dos sinais e sintomas e levou ao diagnóstico. São doentes que estão normais no dia-a-dia, mas que descompensam com o esforço físico intenso”.

Sobre o caso do instruendo que apresentou uma situação de doença cardíaca e epilepsia, a resposta do Exército foi que “a doença cardíaca pode não ser detectável nos exames de rotina e ser assintomática em repouso. A epilepsia é uma disfunção neurológica que se pode manifestar espontaneamente ou em períodos de stress físico ou psíquico”. Perante estas duas situações, o tenente-coronel Vicente Pereira refere que “é natural que o diagnóstico seja apenas possível após uma crise e o habitual é o doente epiléptico esconder a sua patologia por estigma social”.

No caso da hérnia na coluna, a resposta do Exército refere que, “não havendo queixas do doente, é mais difícil diagnosticar e pode ser escondida a patologia, por isso escapa na selecção. (…) Pode ter surgido de novo em função de um esforço físico desencadeado numa zona mais fraca que, entretanto, herniou”.

Em relação à situação de um instruendo apresentar um tumor ósseo da bacia, o Exército, através do seu porta-voz, afirma que se trata de “uma patologia rara nestas idades” e que o esforço físico pode ter desencadeado sintomas como dor que permitiu o diagnóstico”.

Sobre o último caso, a dissimetria dos membros inferiores, o tenente-coronel Vicente Pereira refere à Renascença que “pode ser uma situação genética imperceptível na avaliação de um candidato e ser detectada apenas quando provoca uma lesão musculo-tendinosa durante o esforço físico”.

Métodos de triagem em análise

O Exército reconhece que está em estudo a alteração dos métodos de triagem no futuro: “Relativamente à metodologia a seguir no futuro, o Exército aguardará pelos resultados da Inspecção Técnica Extraordinária que está a decorrer pela Inspecção Geral do Exército, no âmbito da qual esta área também está a ser considerada.”

O 127.º dos Comandos ficou marcado pela morte de dois instruendos, Hugo Abreu e Dylan Silva, na sequência do treino, no dia 4 de Setembro. Em consequência foram constituídos sete arguidos, que aguardam o desenrolar do processo em liberdade com a medida de coacção de termo de identidade e residência (TIR).

Depois do sucedido, o curso prosseguiu, mas apenas 23 dos 67 candidatos chegaram ao fim. Pelo caminho ficaram 44 candidatos, 16 dos quais saíram por motivos de saúde.

Na sexta-feira, a juíza do Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa, que ouviu os sete arguidos, considerou que não terão agido motivados "por raiva e ódio irracional, motivações que são claramente subjectivas e não resultam da prova produzida até à data no inquérito”.

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  • Mário
    28 nov, 2016 Faro 22:44
    Pensei que só os bons espécimes entravam!!! aos que tinham boa saúde, aconteceu o que aconteceu!!! Depois vêm eles dizer que isto não é para meninos, e só os que são excepcionais, superiores (os tais da supremacia) é que conseguem! Parece que os aleijados aguentam melhor aquilo!!! Para mim só vem reforçar que os desgraçados que morreram instrução personalizada... Ainda ninguém foi buscar o Palito e o Piloto (Pedro Dias), este tipos fazem o curso com um perna às costas...
  • Francisco
    28 nov, 2016 Lisboa 13:42
    Isto é que não pode acontecer. Se não surpreende o porta voz....Pior. b
  • R Gezel
    28 nov, 2016 Holanda 13:03
    Bem Hajam! ;) Folgo em verificar que já após o meu comentário a redacao emendou o último parágrafo do artigo! Onde estava escrito : (...) a juíza (...) considerou que AGIRAM motivados por raiva e ódio irracional(...)", passámos a poder ler: (...) a juíza (...) considerou que NAO TERAO AGIDO motivados por raiva e ódio irracional(...)".
  • R. Gezel
    28 nov, 2016 Holanda 11:51
    É clara a desinformacao produzida pela senhora jornalista, fazendo-nos crer que as mortes de filhos de outras maes que nao ela teriam resultado de patologias pré-existentes e da mais difícil identificação! Remata o texto fazendo uma colagem - muito subjectiva! - das palavras da procuradora com as da juiza, pondo esta a fazer consideracoes paradoxais sobre palavras que teriam sido suas, quando afinal foi a primeira quem as produzio... da Raquel Abecassis esperava-se melhor! Com tanta camuflagem esperamos para ver se a culpa é atribuida ao poucochinho de água que os militares beberam e que no fim estaria inquinada... Renascenca Lava Jato?
  • A. Aveiro
    28 nov, 2016 Aveiro 11:30
    Resumindo fazem exames a tudo menos à cabeça. Para que valorizar tanto um curso de comandos para justificar a morte de dois militares? É excessivo e incompreensível. Parece que um curso de comando é a coisa mais importante na vida de um jovem fazendo dele um super-homem. Pois como se constata, à outros cursos dentro das Forças Armadas mais apelativos e vocacionados para o desporto, tais como:- "Paraquedista Marinheiro, Fuzileiro", cursos estes, que vão servir pela vida fora no desporto. Curso de Comando, para que serve? Não tem aplicação na vida civil ou no desporto. Se é para fazer crer que é um individuo duro, talvez, mas outros cursos têm a mesma ou mais dureza e não acontece mortes provocadas pelos motivos constantes, mas sim por acidente. O acidente é aceitável quando tudo é feito em segurança e acontece o inesperado, caso contrário já não é tolerável. Podemos partir um pé ao sair da cama, mas morrer por falta de observância da debilitação humana, não. Isto não é tolerável.
  • Luis
    28 nov, 2016 Lisboa 10:57
    Com este relatório só faltava dizerem que as pessoas já estavam mortas quando começaram o curso.
  • Palma
    28 nov, 2016 Colónia 10:25
    Quem serve o estado nao pode ser maltratado, negligenciado, descriminado, desrespeitado e até morto por ele. Aos dois militares que morreram fouram-lhes obrigados a ultrapassar os limites biológicos do corpo humano. Isto tudo por causa da cultura machista e atrasada sobretudo nas tropas portuguesas.
  • asilva
    28 nov, 2016 adelaide 10:24
    ...anos atraz para se ir para os Comandos tinha que ser bastante "aventureiro" e estar mais de 100% de boa saude >>>>> agora parece que basta ter uma cabeca e duas pernas >>>
  • Rui Palmela
    28 nov, 2016 Setubal 09:37
    Pior a emenda do que o soneto. Agora para justificar o injustificavel e querendo sair limpos desta situação, dizem que tinham candidatos nos Comandos com problemas graves de saúde. Então eu pergunto: e mesmo assim os admitiram? Essa historia está cada vez mais mal contada.
  • JR
    28 nov, 2016 Lisboa, Puto 09:16
    Uma cabala comuna para acabar com os Comandos. Os heróis do 25 de Novembro são para abater. O Fidel é para vir para o Panteão mais o Nikita Kruchev. Na 6ª feira passada fizeram -se todos de mortos os traidores de Portugal mais os porcos da comunicação social. Corta para canto.