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Crónicas da América
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Trump com mente aberta para aquecimento global, reconhece inutilidade da tortura

23 nov, 2016 - 08:01 • José Alberto Lemos, em Nova Iorque

Ninguém governa da mesma forma que faz campanha eleitoral. Não há exemplos disso, pelo menos em democracia. E, nos EUA, o Frankenstein que se anunciava na campanha poderá estar a dar lugar a um presidente em formação.

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Após a campanha divisiva, insultuosa, radical e desrespeitadora que fez durante um ano e meio, Donald Trump começa a sentir na pele a responsabilidade de ser presidente. E começa a dar sinais de que a demagogia que usou imoderadamente durante a campanha não será a força condutora da governação.

Na terça-feira, Trump encontrou-se com o dono e com alguns responsáveis editoriais do “New York Times”, um dos jornais que mais atacou durante a campanha, e fez várias afirmações que deixam perceber que há muita coisa em reavaliação na sua equipa, agora que se completam duas semanas sobre a eleição.

Duas dessas afirmações são particularmente surpreendentes. Uma respeita ao acordo de Paris sobre o clima. Na conversa com o “NYTimes”, Trump recusou-se a repetir a promessa de que vai denunciar o acordo.

Pelo contrário, disse que estava a “examiná-lo com muito cuidado”, que “está de mente aberta” e que “ar limpo e água cristalinamente limpa são vitalmente importantes”.

Isto, apesar de ter escolhido para chefiar a Agência de Protecção Ambiental um homem que nega a relação entre o aquecimento global e a acção humana. Uma relação que agora Trump admitiu existir: “Penso que há alguma ligação. Algo, alguma coisa. Depende de quanto”, respondeu a uma pergunta directa sobre o tema.

Embora, nos próximos quatro anos, a nova administração não possa revogar o acordo de Paris, basta-lhe não o aplicar para que os efeitos no clima e na atitude dos outros países signatários sejam visíveis.

Mas a abertura de espírito que Trump anunciou talvez indicie uma mudança de posição nesta matéria. Pelo menos, afastou-se da célebre afirmação feita há anos, segundo a qual o aquecimento global era um embuste inventado pela China para prejudicar a competitividade da economia americana.

Não ao “waterboarding”

A outra afirmação surpreendente respeita ao uso da tortura nos interrogatórios aos suspeitos de terrorismo, que Trump defendeu inúmeras vezes durante a campanha eleitoral – nomeadamente, o uso do chamado “waterboarding”, simulação de afogamento.

Na conversa com o “NYTimes”, o presidente eleito revelou que tinha mudado de ideias sobre a eficácia deste método depois de ter falado com o general James Mattis, um marine reformado que poderá tornar-se o novo secretário da Defesa.

“Ele disse-me que nunca tinha achado [o waterboarding] útil” e que preferia ganhar a confiança e garantir a cooperação dos suspeitos de terrorismo. “Dê-me um maço de cigarros e algumas cervejas e eu consigo melhor”, terá dito o general.

“Fiquei muito impressionado com esta resposta”, confessou Trump, aparentemente já convencido de que a tortura “não vai fazer o tipo de diferença que muita gente julga”.

James Mattis está a ser considerado “muito seriamente” para ocupar a pasta da Defesa, mas seja ou não nomeado para o lugar conseguiu já uma proeza notável: afastar o presidente eleito de uma promessa que configurava, a ser aplicada, um crime de guerra para os militares que a praticassem.

Além destes dois assuntos, Donald Trump reafirmou a intenção de abandonar qualquer perseguição a Hillary Clinton, contrariando a ameaça que tinha feito no segundo debate com a rival.

Disse não ter qualquer interesse em perseguir Hillary na questão dos e-mails nem da Fundação Clinton. “Não quero ferir os Clinton, não quero mesmo”, salientou, classificando como “bom” o trabalho da fundação e reconhecendo que o casal já sofreu bastante.

Também a crescente actividade de grupos de extrema-direita, corporizados no movimento autodenominado “alt-right” (direita alternativa), que no fim-de-semana reuniu em Washington, foi objecto da conversa.

Trump disse que não queria encorajar tais grupos, que não os queria ver galvanizados e que, se tal suceder, tentará perceber porquê. Na reunião de Washington do Instituto de Política Nacional, houve saudações nazi e apelos a “limpezas étnicas pacíficas”. “Condeno-os, repudio e condeno”, afirmou o magnata.

A escolha de Stephen Bannon para estratega da Casa Branca foi outro dos tópicos abordados com o “NYTimes”. Considerado um radical de direita, líder do blogue Breitbart, onde já apareceram afirmações anti-semitas, Bannon foi defendido por Trump: “Se achasse que ele é racista, nem sequer pensaria em contratá-lo”.

Conflitos de interesses

Os sinais mais preocupantes destas duas semanas de transição parecem vir dos potenciais conflitos de interesse entre o império empresarial do magnata e o exercício da presidência.

Num encontro recente com o líder do Partido da Independência do Reino Unido, Trump admitiu ter pedido a Nigel Farage para se opor a um projecto de construção de eólicas no mar escocês frente a um empreendimento de golfe que ali detém.

E surgiram ainda notícias de que terá aproveitado o telefonema de felicitações feito pelo Presidente argentino para lhe falar de um projecto imobiliário que tem para Buenos Aires e que gostaria de ver avançar.

“Teoricamente, poderia gerir as minhas empresas perfeitamente e gerir o país perfeitamente sem problemas”, admitiu, reiterando a seguir que o seu império empresarial será gerido pelos filhos, porque está fora de questão vender as empresas. E, com os filhos, Trump continuará a conviver como sempre.

Quem parece ter um destino diferente é o genro. Jared Kushner não só se tornou o principal conselheiro de Trump, como deverá trabalhar directamente na Casa Branca. E o presidente deposita nele grandes esperanças, incluindo a de ajudar a resolver o conflito israelo-palestiniano.

Jared é judeu ortodoxo e, segundo Trump, conhece muita gente no Médio Oriente capaz de mobilizar ambas as partes para a paz.

A ida de Trump ao próprio edifício do “New York Times” para conversar com os homens que tão duramente o criticaram durante a campanha eleitoral foi um claro sinal da distensão que quer promover com os media, agora que foi eleito presidente.

O próprio admitiu que lia o jornal, mas acusou a publicação de não ser imparcial durante a campanha e de ter sido demasiado duro consigo. Classificou, contudo, o jornal como “uma pérola americana, uma pérola mundial”, revelando afinal o respeito que continua a ter pela vetusta instituição nova-iorquina.

Comentários
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  • Francisco Rodrigues
    25 nov, 2016 Algés 11:45
    Este Lemos é um antro de MENTIRAS.. fanático pró democratas, completamente cego da realidade USA... como a maior parte dos analistas (???) ... Para não escrever uma enciclopédia sobre os embustes e atoardas deste paquete dos democratas, apenas um EMBUSTE GIGANTESCO que ele proferiu na RR : TRUMP foi o primeiro a dizer q OBAMA não tinha nascido no Havaí...e portanto fora de solo USA. MENTIRA há oito anos, nas primárias democratas, esse foi um dos GRANDES argumentos de H ILLARY CLINTON DEZENAS DE BLOGS E SITES OFICIAIS DA CAMPANHA DENUNCIAVAM A INCONSTITUCIONALIDADE DA CANDIDATURA DE OBAMA COMO TEMA PRINCIPAL......!!! Ah.......a avó africana de barack também garantiu que o neto Barack nasceu no......QUÉNIA...!!! obviamente, NYT....e CNN censuram estas REALIDADES... pois é Lemos Contiuas ignorante, faccioso e fanático das mentiras.....como na Antena 1..... Boa aquisição da RR....
  • JMC
    24 nov, 2016 USA/EUA 04:16
    António Costa: Como sempre, faz excelentes perguntas para nós ponderarmos!
  • António Costa
    23 nov, 2016 Cacém 22:45
    O problema é que a "sólida fundação filosófica" que esteve escondida, por detrás do show, de fato existe! O tempo está a passar e a "situação" esta a ficar cada vez mais clara. O Pior é que existe uma tentativa deliberada de denegrir e desacreditar qualquer força que se oponha ao "Sistema". Os supostos "novos lideres anti-sistema" parecem sair do mesmo "saco". Tanto que já começa já a "dar nas vistas". Apresentam-se como Irresponsáveis, Mal-educados e com simpatias Neo-nazis. Parecem estar a ser "produzidos em série", por quem? As legitimas aspirações das populações são assim tão "estranhas"? Quem esta interessado em que os problemas REAIS não se discutam?
  • JMC
    23 nov, 2016 USA/EUA 15:52
    António Costa e João Almeida: Já descrevi muitas vezes neste forum a incapacidade do Trump para manter uma sólida fundação filosófica. Por conseguinte, com os seus principais “assessores ao lado” agarrados ao capitalismo predador, será mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que este “criança grande” melhorar a futura posição dos EUA com o Irão. Ainda assim, estou a esperar um mundo melhor para todos nós.
  • fr
    23 nov, 2016 Portugal 12:53
    Eu com vontade de arrotar também escrevo "lógica 101"
  • joao almeida
    23 nov, 2016 portugal 12:19
    temos um criança grande na casa branca,,,,quando esta na hora da brincadeira diz barbaridades e assusta meio mundo mas depois das aulas com os entendidos da politica que o rodeiam aparece a dizer coisas mais saudáveis ....mas o perigo é quando fala sem os assessores ao lado pode voltar a situação e criança e fazer disparates
  • António Costa
    23 nov, 2016 Cacém 10:25
    "Jared Kushner não só se tornou o principal conselheiro de Trump", e "Jared é judeu ortodoxo e, segundo Trump, conhece muita gente no Médio Oriente", claro que deve conhecer. Isto promete, pelo menos a futura posição dos EUA, aos "acordos" com o Irão esta a ficar mais "clara".