|

 Casos Ativos

 Suspeitos Atuais

 Recuperados

 Mortes

A+ / A-

Entrevista à Renascença

Freitas do Amaral: Só a lógica do sistema “pode afastar Guterres da ONU”

22 jan, 2016 - 14:04 • André Rodrigues

Diz que Guterres é “absolutamente imbatível” a não ser que imperem “razões abstractas” que ditem que o próximo secretário-geral das Nações Unidas seja uma mulher ou um cidadão do Leste europeu

A+ / A-

Freitas do Amaral, que presidiu à Assembleia Geral das Nações Unidas entre 1995 e 1996, diz que o antigo primeiro-ministro português é o mais bem colocado para ser o próximo secretário-geral da ONU. “A menos que prevaleçam razões abstractas que sugerem que o próximo tem de ser uma mulher ou vir de um país de leste”. Uma lógica de rotatividade convencionada nos corredores do lóbi mas que não suplanta o “currículo de Guterres”. Nesse aspecto, diz Freitas, “ele é absolutamente imbatível”.

O Governo português prepara-se para apresentar em Fevereiro a candidatura de António Guterres a secretário-geral das Nações Unidas. Que hipóteses tem de ser eleito?

Tem todas as hipóteses. Estou muito satisfeito pelo facto de a candidatura dele avançar. E isso significa que, de todos os contactos que o Governo português fez através da sua diplomacia, resulta que não há nenhum impedimento ‘a priori’ para que ele possa avançar.

Julgo que António Guterres tem um currículo invejável, sobretudo para secretário-geral da ONU. Em primeiro lugar, ele foi primeiro-ministro de Portugal durante seis anos, sem problemas, sem casos, sem escândalos. Em segundo lugar, foi durante muitos anos alto comissário para os Refugiados, uma agência especializada das Nações Unidas, por isso conhece bem o sistema, porque contactou com todas as instituições daquela organização. Ele já é considerado como uma pessoa da casa.

Finalmente, é uma pessoa a quem reconheço grandes qualidades morais, políticas e diplomáticas, capaz de dialogar, ouvir, estabelecer consensos. E isso é essencial para ser secretário-geral da ONU. Ele reúne todas as condições para ser eleito, a não ser que prevaleçam teorias ‘a priori’, abstractas de que desta vez tem ser uma mulher ou um candidato do leste.

Essa é uma rotatividade imposta ou, pelo menos, convencionada por uma espécie de acordo de cavalheiros. De que forma é que o nível diplomático consegue gerir esse tipo de pressão para que Guterres continue a ser o potencial escolhido?

Desde logo justificando que a sua candidatura é oportuna, na medida em que há uma rotatividade que aponta neste momento para a eleição de um secretário-geral do grupo ocidental de que Portugal faz parte. Nesse aspecto ele está dentro dos elegíveis. Nesse grupo houve, há cerca de dois ou três anos, uma dinâmica de “lobbying” diplomático no sentido de que devia ser uma mulher, por ser politicamente mais correcto, ou ser alguém da Europa do leste para, de certa forma, saudar a recente adesão dos países daquela região à democracia e à União Europeia.

Mas isso são considerações abstractas. Porque, na prática, o que conta é a comparação dos currículos, das experiências e o conhecimento pessoal que os embaixadores e os altos funcionários da ONU têm da pessoa em causa. E eu acho que, nesse aspecto, o engenheiro Guterres é imbatível.

E, em particular, qual é o papel da diplomacia portuguesa em todo este processo?

É necessário que haja um trabalho muito intenso e empenhado, mas que não é apenas da nossa diplomacia. Eu acho que a eleição de um português para o cargo de secretário-geral da ONU, que acontece pela primeira vez na história da organização – e nos próximos 100 anos não voltará a acontecer – é tão importante para Portugal que julgo que, para além da diplomacia, deve envolver todo o governo, todos os antigos Presidentes da República, antigos primeiros-ministros, antigos embaixadores na ONU. Todos deviam ser chamados pelo Governo português a participar através de contactos, telefonemas, reuniões, cartas de recomendação.

Foi presidente da Assembleia Geral da ONU entre 1995 e 1996. Estaria disponível para integrar esse esforço?

Claro que sim. Embora só tenha estado na ONU durante um ano. Mas se a minha colaboração for necessária, dá-la-ei sem reservas. Eu acho que isto tem de ser um esforço nacional e não apenas do “genre” diplomático.

António Guterres conhece bem as Nações Unidas, desde logo porque presidiu até há pouco tempo a um organismo relacionado com uma das temáticas mais sensíveis do momento: os refugiados. Além deste dossiê, que outros desafios se levantam a Guterres caso venha a ser eleito secretário-geral da ONU?

Nas Nações Unidas há duas vertentes completamente diferentes. Uma é a tentativa de preservar ou restabelecer a paz no mundo. A outra é a ajuda humanitária àqueles que mais precisam. Do ponto de vista da defesa da paz, o novo secretário-geral vai enfrentar enormes desafios: o problema da Rússia com a Ucrânia, o Médio Oriente, onde o corte das relações diplomáticas entre a Arábia Saudita e o Irão é um bom exemplo do ódio permanente que se vive na região. Por outro lado, é preciso garantir o cumprimento do acordo relativamente ao armamento nuclear entre o Irão e o Ocidente e conter as loucuras do regime da Coreia do Norte. Portanto trata-se de um conjunto de problemas e dificuldades que serão um desafio permanente.

Mas António Guterres conhece bem esses desafios. No que respeita aos refugiados, talvez seja a prioridade mais urgente. Penso que a Europa não vai dar conta sozinha deste problema. Estamos a falar de milhões de pessoas, por isso a Europa devia pedir ajuda à ONU que tem forma de distribuir estes refugiados pelos Estados em vez de os distribuir por tendas.

Depois, há outros grandes problemas como a fome e a pobreza, as doenças contagiosas que afectam o mundo inteiro, mas sobretudo os países em desenvolvimento. Felizmente alguns desses países têm registado um desenvolvimento interessante. É o caso da Índia ou da Indonésia. Mas ainda há países que ainda vivem na mais extrema das pobrezas. Também aí há um esforço enorme a fazer. Mas não será difícil a António Guterres encontrar os melhores objectivos e os melhores métodos para enfrentar isso.

Guterres. Dez anos a falar pelos que não se ouvem
Guterres. Dez anos a falar pelos que não se ouvem
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • agostinho v couto
    23 jan, 2016 u 01:02
    tachos atraz de tachos e a seguir a tachos este e o lema desta gente que bom que e pertencer ao grupo ,,dos barrigudos
  • Tino
    22 jan, 2016 Rans 20:49
    O Guterres dava um bom PR, só isso!
  • JR
    22 jan, 2016 Lisboa, Puto 15:08
    Só nos sonhos deles.