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António Vitorino. "Marine Le Pen aprendeu com o caso Charlie Hebdo"

06 dez, 2015 - 17:30

As regionais deste domingo podem marcar uma mudança no xadrez político francês, consideram os comentadores do “Fora da Caixa”.

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António Vitorino. "Marine LePen aprendeu com o caso Charlie Hedbo"
António Vitorino. "Marine LePen aprendeu com o caso Charlie Hedbo"

O antigo comissário europeu António Vitorino considera que a resposta da líder da Frente Nacional (FN) aos ataques de Paris foi moderada, com possíveis ganhos políticos junto do eleitorado moderado.

“Mesmo os meus amigos socialistas franceses dizem que a senhora LePen aprendeu com o caso Charlie Hedbo e que a reacção que teve agora a estes atentados foi sem erros. Comportou-se num registo muito disciplinado, não xenófobo, com alta contenção na maneira como colocou as questões, esperando que o facto do atentado ter marca islâmica jogue subliminarmente a seu favor. Não atirou óleo para a fogueira e isso obviamente credibiliza-a junto dos sectores mais moderados”, afirma António Vitorino no programa “Fora da Caixa”, da Renascença.

Antecipando as eleições regionais deste domingo em França, o antigo ministro do PS propõe duas leituras para a noite eleitoral.

“Primeiro, a percentagem de votos que a FN vai ter. As sondagens dão LePen como a política que vai à frente na eleição presidencial. Temos que ver se isso tem repercussão no voto na FN nas eleições regionais. O segundo ponto é que as sondagens mostram que a FN pode ganhar em duas regiões - Nord-Pas-deCalais e Midi Provence. A primeira é uma região tradicionalmente de esquerda, de forte influência do partido comunista francês”, assinala o comentador da Renascença, que lembra ainda que, em França, as regiões têm um poder executivo efectivo.

Para António Vitorino, a conquista de uma ou duas regiões administrativas pela Frente Nacional significa a institucionalização daquela força política em França com poder efectivo. "Isso altera significativamente os dados da política francesa”, acentua o militante socialista.

Já Pedro Santana Lopes admite que alguma “tensão” em torno das questões da imigração pode favorecer a posição de LePen junto do eleitorado francês.

"Do ponto de vista dela, Marine LePen faz muito bem em procurar não cometer erro nenhum. Julgo que esta tensão de vários eleitores com posições face aos emigrantes, aos refugiados, às diferenças religiosas, pode levar as pessoas a votar nela”, reconhece Santana Lopes que, ainda assim, acredita que as posições extremistas podem ser mais rejeitadas do que no passado.

“Pode haver uma reacção de rejeição do extremismo maior do que aquela que se tem verificado no passado. Estou convencido que Hollande vai subir mais do que se pensa - e até talvez Sarkozy - e que a senhora LePen pode não ter uma votação tão forte como se esperava. Se tiver, depois disto que aconteceu, acho que ainda é mais preocupante”, considera o antigo primeiro-ministro.

Hollande pode subir?

Certo é que o presidente francês François Hollande aumentou a sua popularidade desde os ataques de 13 de Novembro. "A reacção do Presidente Hollande foi avaliada positivamente pelos franceses. É aliás um paradoxo da história, ele sobe quando há um drama nacional”, comenta Vitorino.

Pedro Santana Lopes antecipa dois cenários. “A maneira como o Presidente tem gerido a situação e toda a carga emotiva que ela comporta pode levar a uma subida maior das intenções de voto de Hollande. Ou a consolidar o movimento no sentido de uma senhora LePen e do seu movimento que tem procurado ser menos radical que o costume. LePen tem procurado ser cautelosa e não extremar sentimentos e posições”, anota o antigo chefe de governo no “Fora da Caixa".

A conquista do centro

O quadro político francês pode abanar este Domingo e assentar a partir de agora num tripartidarismo com a Frente Nacional, os socialistas e a direita moderada de “Os Republicanos” de Sarkozy. Santana Lopes reconhece que a situação política está muito volátil e há vazios por preencher.

"Em França não há centro mas a esquerda à esquerda também decaiu. É um sistema partidário em mutação profunda. Se a FN jogar mais ao centro, pode aí sim recolher bastantes dividendos”, diz Santana Lopes.

Já António Vitorino concorda com o diagnóstico mas sublinha que a proposta política da Frente Nacional tem também algumas nuances.

O centro não tem capacidade para gerir os equilíbrios. Esse é o drama histórico da política francesa. Interessante é que há indicações de que dentro da próxima FN há um debate em curso no sentido de deixar cair a exigência da saída do euro. A de que poderia haver uma mudança de posição da FN numa plataforma política presidencial e para as legislativas em que a França não se excluiria da União Europeia nem do euro. Isso seria um sinal de que haveria uma aposta na moderação aparente no discurso político para ganhar terreno junto dos Republicanos sobretudo, mas também dos socialistas e à esquerda. Uma estratégia a prazo a pensar em 2017”, antecipa o antigo comissário europeu no programa de debate de temas europeus da Renascença.

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  • Francisco Martins
    07 dez, 2015 Chaves 23:57
    O que raramente se diz, talvez porque é politicamente inconveniente, é que boa parte do eleitorado da Frente Nacional da Sra Le Pen, votou no Partido Comunista e no Partido Socialista até à pouco tempo. Não é por acaso que a Frente Nacional tem forte votação nas regiões mais industrializadas da França, onde antes a esquerda tinha forte implantação. Aliás o Partido Socialista francês tem baixa votação e o Partido Comunista francês quase desapareceu. É um facto deveras curioso que antigos comunistas e socialistas agora sejam apelidados de "perigosos fascistas". Mas pouca imprensa fala do assunto. Porque será? É a ditadura do politicamente correcto?
  • João gil
    06 dez, 2015 18:48
    Não se pode tratar o terrorismo com brandura e irrealistas noções de integração. Não, tem de ser-se absolutamente resoluto na sua contenção e na eliminação dos seus principais focos. A liberdade e a tolerância são vias de dois sentidos. Quando não são, não pode haver contemplações. O mal deve ser erradicado da nossa vizinhança e não podemos continuar a permitir a invasão insana e criminosa das nossas casas por quem não quer qualquer integração e apenas quer a nossa subjugação e o extermínio da nossa cultura é da nossa individualidade e da nossa sociedade. E a Europa progressista tem de dizer não a essa invasão. Não a votámos, não a quisemos, não no-la imponham. Se persistirem na ideia, o resultado não vai ser bom.