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Uma “Luisinha” e um pacote de amêndoas fizeram um herói português

21 out, 2015 - 16:41 • Olímpia Mairos

A companhia de teatro Filandorra vai recriar a Batalha de La Lys, no sábado. O palco será a terra-natal do “herói” português da I Guerra Mundial, a aldeia de Valongo de Milhais.

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Aníbal Augusto Milhais, o herói da I Guerra Mundial conhecido como “soldado Milhões”, é homenageado este sábado, em Murça, através da recriação da Batalha de La Lys e da luta do português contra os alemães.

A iniciativa parte da Associação Amigos de Murça, com o apoio da câmara local e da Junta de Freguesia de Valongo de Milhais, e vai ter lugar na terra-natal do “herói”, a aldeia de Valongo de Milhais.

O jornalista Francisco Galope vai apresentar o seu livro “O Herói Português da I Guerra Mundial”, lançado em 2014, e a companhia de teatro Filandorra faz uma recriação da Batalha de La Lys.

A companhia de teatro vai instalar “uma trincheira” no largo da aldeia e lembrar “o episódio de bravura e heroísmo deste soldado que, sozinho, com a sua ‘Luisinha’ (uma metralhadora ligeira Lewis), conseguiu cobrir a retirada dos seus camaradas portugueses e britânicos, contrariando as ordens de um oficial, e sobreviver apenas com um pacote de amêndoas da Páscoa até regressar ao acampamento”.

Segundo a Filandorra, trata-se de uma iniciativa que visa relembrar “um herói da região que faz parte da identidade histórica e cultural do país”.

De "moço de recados” a “herói”

Aníbal Augusto Milhais nasceu em 1895, numa família pobre. Era o mais novo de três irmãos que ficaram órfãos bastante cedo e foram acolhidos por parentes mais próximos.

Nunca foi à escola. Começou a vida como "moço de recados", depois guardou rebanhos e bois e fazia "todo o tipo de trabalho agrícola", conta o neto Eduardo Milhões Pinheiro à Renascença.

Em 1915, é apurado para a tropa. No ano seguinte, a 13 de Maio, assenta praça no Regimento de Infantaria (RI) nº 30, de Bragança. Esta teria sido, acredita o neto, "a primeira vez que saiu da sua terra e do seu concelho".

No mês seguinte é transferido para o RI 19, de Chaves. Meses depois, parte para a guerra, como “atirador especial”.

Segundo as crónicas, a 9 de Abril, uma força portuguesa foi atacada pelos alemães. A força chegou a ser destroçada, a situação era "a pior possível". Muitos portugueses foram mortos e os sobreviventes obrigados a retirar.

Enganou os alemães

Eduardo Milhões Pinheiro conta que o seu avô, "de forma voluntária, disponibilizou-se para ficar e cobrir a retirada de todos os seus companheiros".

"Ficou com a sua metralhadora no posto dele e foi criando a ilusão nas tropas alemãs, que a posição estava a ser guardada por várias unidades do seu batalhão, porque ele fazia fogo de vários pontos distintos".

"Assim, conseguiu empatar a ofensiva alemã durante tempo suficiente que permitiu a todos os seus companheiros recuar para linhas mais resguardadas, em segurança, sendo que a maior parte deles terá conseguido sobreviver", relata Eduardo Pinheiro.

Milhais, esse, continuou sozinho, a vaguear pelos campos. Tinha apenas "amêndoas doces" para comer.

Quatro dias depois da batalha, terá encontrado “um médico escocês a quem salvou de morrer afogado num pântano”. Esse mesmo médico terá dado conta ao exército aliado dos feitos do soldado transmontano.

"És Milhais, mas vales milhões"

E foi assim, em plena I Guerra Mundial que o soldado português alcançou a fama, na Batalha de La Lys, em Abril de 1918.

A bravura do franzino e pequeno Aníbal, com pouco mais de um metro e meio de altura, valeu-lhe a Torre e Espada – a mais alta condecoração militar portuguesa - e outras distinções.

O epíteto "Milhões" nasceu com um elogio do seu comandante Ferreira do Amaral: "Tu és Milhais, mas vales milhões".

"Ele terá sido condecorado pelo que fez, mas também, de forma simbólica, como reconhecimento a todos os soldados que combateram, e sobretudo àqueles que tombaram na I Guerra Mundial", acredita Eduardo Pinheiro.

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  • Teixeira paulo
    23 out, 2015 Valongo de milhais 18:43
    Sou da terra desse senhor nao o conheci mas conheço toda a familia e estou muito orgulhoso e agradecido por voces o relembraren merece o senhor Anibal acho bem olharen por essas terras de trasmontes que esconden muitas istorias amo a minha terra sou neto do falecido cabozé ou antonio da eira meu grande idulo obrigado desde a suiça Aarburg