Senhor,
Tu bem sabes que muitas vezes acordamos atrasados, corremos para os transportes, cumprimos horários de trabalho e regressamos a casa, novamente atrasados. Fazemos um esforço para corrigir os trabalhos de casa dos mais novos e deixamos para mais tarde o telefonema à mãe, ao avô, à tia que vive só e longe…tentamos esquecer lembranças e justificamos as nossas ausências.
Mas há sempre um momento em que somos obrigados a parar: naquele dia o plano era visitar um lar de idosos, para perceber onde poderia fazer alguma diferença a nossa ajuda. E não vale a pena tentar encontrar palavras suaves ou grandes explicações… Esbarrámos em salas cheias de idosos, que olhavam em silêncio para um ecrã; visitamos a nudez de quartos vazios e assistimos à lenta e dolorosa operação que representa dar um lanche a quem não consegue segurar uma colher…
Nesta manhã, Senhor, eu Te peço que não me deixes esquecer aquelas salas e aqueles quartos; que não me deixes esquecer o calor de uma pequena mão que me agarrou e não me queria largar.
Bem sei que para muitos não há outra solução, mas nesta manhã, Senhor, eu Te peço por todos os filhos que podem cuidar dos seus Pais e não o fazem; eu Te peço por todos os filhos e filhas que cuidam dos Pais de outros, com amor, carinho e cuidado; eu Te peço por todos os que morrem sozinhos, tristes e abandonados.
Isabel Figueiredo