Quando repouso o olhar nas coisas, nos acontecimentos, nas pessoas, em tudo o que mexe e em tudo o que é imóvel; no sólido, no colorido, no líquido e nos murmúrios do ar que nos envolve, sinto espanto. Não sei bem definir, não sei sequer descrever. É uma espécie de aproximação de algo que surpreende para lá do previsível, que retém o ser das coisas para além de mim, que o meu olhar não abarca, o meu pensamento não sintetiza, a minha palavra não diz. Tudo suscita pasmo numa fugaz flagrância de harmonia. O que se vê não choca; o que não se vê, não atemoriza; o que se vai desvelando não violenta. É a vida.
Pasmo por não encontrar palavras para exprimir o sentimento de estar viva.
Pasmo diante do milagre de ser em vez de não ser.
Pasmo diante do milagre da minha vida; não passa de uma poeira no mundo, mesmo assim milagre; por isso mesmo milagre: com pernas, com braços, com cabeça, capaz de me mover, de trabalhar e de inovar, de comer e de sobreviver e de transformar, de odiar e de amar, de falar, de comunicar e de, em silêncio, contemplar o milagre de ser.
Tudo me perturba e tudo me espanta.
Falta plenitude, falta harmonia, falta sentido, falta luz, falta decisão por um mundo com coração.
Bom dia.
Isabel Varanda