António Pinho Vargas. "As pessoas a fazer música são aquilo que me mantém vivo"
Editado por António Jorge, coordenador musical da Renascença, e Joana Bourgard (vídeo)
Inserido em 17-03-2017 18:44

Aos 65 anos, o músico e compositor lança o seu 13.º disco, “Magnificat | De Profundis”. Em entrevista, fala das paixões pela História e pelo piano, da política cultural e da subalternidade histórica da música portuguesa.

“Magnificat & De Profundis”, o novo disco de António Pinho Vargas, é um álbum que se divide em dois momentos. "Magnificat" foi gravado ao vivo durante um concerto comemorativo dos 20 anos da Culturgest, enquanto "De Profundis" é a primeira obra de Pinho Vargas para coro a capela.

Como é que um jovem licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto salta para o curso de piano do Conservatório do Porto e o curso de composição em Roterdão, na Holanda?

Estudar piano e fazer o curso de História foi ao mesmo tempo, com entradas e saídas. Interrompi o curso de História uns anos, dediquei-me mais ao piano, mas fui acabar o curso de História e continuei a estudar piano. E, ao mesmo tempo, já a aprender a improvisar sozinho porque, na altura, não havia escolas de jazz e é um pouco a tradição dessa música afro-americana ouvir os discos em casa e trabalhar a partir da imitação – que não tem nada a ver com o ensino do piano clássico, que é com partitura. Tive essas duas aprendizagens em paralelo e a terceira vertente, a Faculdade de Letras, para terminar o curso de História. Só mais tarde é que quis ir para a Holanda, já depois de ter completado o curso superior de piano e a licenciatura em História. Já tinha uma idade razoável.

A paixão pela música começou a ganhar à História.

Sabe, a música era uma paixão. A História é o curso universitário que fazia parte do plano que o meu pai tinha para os filhos. Aliás, mesmo assim, eu mudei de Direito para História, andei três meses em Direito, em Lisboa, em 1971 – tive três meses de aulas com o actual Presidente da República e também fui aluno do Jorge Miranda. Mas, ao fim de três meses, percebi que o Direito não era a minha zona de afecto intelectual: queria estudar História e, portanto, mudei de curso. E regressei ao Porto e aí fiz a faculdade.

É músico, compositor e ensaísta. É um homem de três amores?

Sim, eu sempre li muito. Desde os 17 anos fui e continuo a ser um grande leitor – eu gosto de estudar coisas temáticas, quando há coisas que não conheço vou ler. Mesmo do ponto de vista histórico, ainda hoje leio livros para saber o que se passou em determinado problema histórico. Por exemplo, o que é que aconteceu com o compositor Shostakovich na Rússia soviética e toda aquela fase? Quis ir até ao Estaline, quis saber o que foram as purgas de Moscovo, estive a ler na internet as actas do julgamento dos processos de Moscovo de 1938. Aquilo é uma coisa tremendíssima de se tomar conhecimento. Está publicado, mas eu não sabia o que se tinha passado, nem o que é que eles tinham dito. Está a ver? Não tem nada a ver com a minha vida directamente. Mas tudo está relacionado com tudo, não há nenhum compartimento estanque na nossa vida, tudo tem ligações, como, aliás, a própria vida do Shostakovich demonstrou amplamente, tal como a de outros compositores noutros regimes. Aquele foi particularmente duro porque era um grande compositor do século num regime opressivo, naquele período em particular até à morte de Estaline.

Sendo o António um homem da música, das partituras e dos livros, esse apetite pelo conhecimento e pela partilha do mesmo é como que uma demanda?

Eu posso dizer-lhe que até há poucos anos eu tinha um eterno professor dentro de mim. As minhas aulas de História da Música era suposto terem duas horas com 30 pessoas mais ou menos a olharem para mim e às vezes duravam três horas porque eu não me calava, mas também porque eles perguntavam coisas e ficavam lá uma hora mais do que era suposto. Houve um período em que tive que interromper a minha docência nessa disciplina porque chegava a casa e caía para o lado, exausto – a dormir.

Os meus filhos tinham que me acordar, “pai, o jantar está na mesa”. Eu sinto que partilhar conhecimento é importante, hoje em dia sinto uma poderosíssima interrogação: o que é que se quer saber? Até que ponto os jovens com 19 e 20 e poucos anos já estão fechados a outra coisa que não seja conseguir o sucesso a qualquer preço. Eu julgo que esse é um problema político – é uma coisa que aterrou na sociedade portuguesa durante o governo de Cavaco Silva porque, de repente, entrou em Portugal muito dinheiro da União Europeia. Na altura, eu estava ainda a viajar muito para a Holanda e de cada vez que regressava via as pessoas, as raparigas cada vez mais bem vestidas. Houve aqui um encantamento com o dinheiro que deu muito mau resultado. Sabemos agora os problemas que estamos a ter. Do dinheiro mal gasto, mal empregue, mal depositado, etc..

Tendo em conta a sua longa carreira como docente, vê a música portuguesa de boa saúde?

Está de boa saúde. Os jovens criadores são cada vez mais. Entre os anos 90, grosso modo, quando comecei a dar aulas de composição, e o que se passa hoje, não há comparação possível: do ponto de vista dos criadores, a situação é muito mais positiva.

Do ponto de vista das instituições culturais e das relações transnacionais de poder entre os vários países da Europa, a situação não é assim tão boa. Porque a música moderna, mas da tradição clássica, sustenta-se em instituições culturais, com base em apoio do Estado, e nos últimos anos esses apoios têm vindo a diminuir. Já senti alunos de 20 anos numa espécie de angústia em relação àquilo que vai ser a vida deles. Porque se perguntam: será que estou aqui a trabalhar nesta peça, ela vai ser tocada uma vez e depois nada? No fundo, não é muito diferente do que me acontece a mim, do que aconteceu ao Fernando Lopes Graça, ao Joly Braga Santos e podemos ir até 1900, ao Viana da Mota e ao Luís de Freitas Branco.

Todo o século XX e até agora, a música portuguesa é subalterna no contexto europeu – ninguém conhece a música dos compositores portugueses. Aliás, em Inglaterra, um professor de uma universidade nem sequer conhecia Fernando Pessoa. A ignorância do que se passa em Portugal, por exemplo, nos Estados Unidos, atinge a própria existência do país. “Portugal, where is that?” Em 1976, toquei na ex-Jugoslávia, actual Eslovénia, e perguntaram-me de onde era. Disse que era português, eu e o Rão Kyao, e disseram-me: “ah, Portugal, Barcelona”. É que não se imagina a ignorância. O 25 de Abril foi falado em toda a parte porque foi um golpe de estado militar que em vez de instalar uma ditadura instalou uma democracia – uma coisa nunca vista.

A música feita em Portugal está a precisar de um movimento, de uma consciência conjunta?

Compreendo muito bem a sua pergunta e lamento dizer que a minha resposta não é optimista. Aproveito para citar uma frase que li durante a minha preparação para o doutoramento do Jean-Jacques Nattiez, a propósito da criação do ICAM. E o Jean-Jacques Nattiez, musicólogo francês, disse a esse propósito que a criação do ICAM foi a mais gigantesca operação de salvamento de uma estética, criada por um estado no século XX. Isto é uma frase extraordinária. E a sua pergunta remeteu-me para esta frase, uma vez que há uma parte em comum.

O que penso e me leva a ter uma posição pessimista é que esta questão, esta subalternidade, está interiorizada pela sociedade face à sua longa duração. A metáfora da jangada de pedra do famoso romance [“A Jangada de Pedra”, de José Saramago] começou no século XVII para o XVIII. O Pascal dizia: “Verdade para lá dos Pirenéus, mentira para cá dos Pirenéus”. Essa questão tem raízes muito profundas.

Deixe-me dar-lhe um exemplo: a minha peça “Requiem” e essa peça “Magnificat” são peças para coro e orquestra de grande efectivo, foram tocadas duas vezes, um enorme sucesso de público, mas esse sucesso não conta. Porquê? Porque no ano seguinte o que interessa é fazer aquilo que muitos programadores dizem explicitamente, uma grande temporada internacional. Esta ideia está de tal modo interiorizada nos responsáveis culturais que, na verdade, julgo que, mais do que aquilo que disse, era preciso uma espécie de lavagem total dos conceitos por parte do poder político/cultural.

O seu novo disco reúne a Orquestra Metropolitana de Lisboa, o Coro Gulbenkian e os maestros Cesário Costa e Paulo Lourenço. É um orgulho ter toda esta gente à volta da música? É um documento para memória futura?

Do ponto de vista do registo, devo dizer que tenho que fazer um certo esforço, tenho que obter o apoio das instituições. Se virar a capa do disco tem lá os logótipos todos porque se eles não tivessem apoiado, cedido as gravações, autorizado que a orquestra participe sem custos, etc., não seria possível editar esse disco. Esta é a primeira parte da resposta, a institucional.

Segunda parte, as pessoas a fazer a música e esses momentos são aquilo que me mantém vivo. Porque é de uma tal intensidade ver, por exemplo, no caso do “Requiem”, a Fundação Gulbenkian esgotada no primeiro dia do espectáculo, praticamente esgotada no segundo dia e no fim os aplausos, o calor… Eu guardo esses momentos únicos.

Nunca esqueci uma frase do Carlos Paredes, numa entrevista já na fase final da sua vida, mas ainda de boa saúde. Perguntaram-lhe o que é que ele pretendia quando tocava, quais eram as suas motivações e a resposta é uma maravilha: “No fundo, o que eu quero é fazer as pessoas felizes”. E eu posso dizer que nos casos que falei nesta segunda parte da resposta as pessoas estavam felizes, as que estavam no palco e as que estavam a assistir. E isso é a maior satisfação que podemos ter.

Gostava que este álbum e estas vozes chegassem onde?

Sabe, eu espero que ele chegue onde possa chegar. Não vou definir um objectivo concreto porque o mundo é enorme e esta prática musical tem os seus problemas – há milhões de compositores no mundo de que não sei o nome, milhares e milhares de excelentes compositores nas mais variadas práticas musicais dos mais diversos estilos. Não tenho nenhuma arrogância, não tenho nenhuma sensação de superioridade em relação a excelentes músicos que têm outras práticas musicais. O mundo é diverso e isso é uma riqueza, não um factor de pobreza.

Para além da comenda da Ordem do Infante D. Henrique, atribuída em 1995 pelo Presidente da República Mário Soares, dos prémios José Afonso, Camões e Universidade de Coimbra, o António Pinho Vargas tem vindo a receber ao longo da sua carreira inúmeras distinções. Este reconhecimento só é possível com trabalho, trabalho e trabalho, certo?

Não posso se não concordar com o que está a dizer, se não se trabalhar não se chega a lado nenhum. Seja qual for o objectivo em questão. Sabe, tocar um instrumento são horas e horas de cada dia. Não há sábados nem domingos. Trabalho é absolutamente a palavra-chave. E depois há algumas pessoas dotadas de bom senso que reconhecem que é preciso uma outra coisa: num dado momento da nossa vida, ter sorte. Não quero especificar porque eu próprio não sei exactamente em que momento é que tive sorte. Nem sequer sei em que momento eu pude admitir “tu és capaz de ter algum talento” ou uma ideia deste género.

Como seria este mundo sem música?

Pior!