Monjas contemplativas estão há 75 anos em Campo Maior
Editado por Rosário Silva
Inserido em 16-06-2017 11:55

Restaurada a Ordem da Imaculada Conceição em Portugal, as monjas chegaram ao Alentejo 1942. Hoje, a comunidade está viva e há vocações.

Na época, era arcebispo de Évora, D. Manuel Mendes da Conceição Santos. Devoto de Santa Beatriz da Silva, o prelado desejava que a sua diocese tivesse um grupo de monjas contemplativas e, como existia um convento franciscano em ruínas, em Campo Maior, adquiriu-o e pediu ajuda à Comunidade de Villa Franca del Bierzo, Espanha.

Apesar das consequências da Guerra Civil espanhola e de estar em curso a Segunda Guerra Mundial, sem receios, uma dezena de religiosas oriundas dessa comunidade espanhola respondeu positivamente ao apelo do prelado para a missão de fundar um novo mosteiro de concepcionistas no próprio berço do nascimento da sua fundadora. Foi há 75 anos.

“É uma data com um significado muito profundo a nível espiritual mas também humano”, diz à Renascença, emocionada, a madre Maria dos Anjos.

A abadessa do convento alentejano conta que “foram momentos muito difíceis" para as irmãs, que "porém, não tiveram medo e vieram para aqui. Estamos agora a dar volta ao nosso arquivo e é emocionante ler as cartas e os testemunhos que nos deixaram sobre o seu amor à terra de Santa Beatriz.”

Com emoção e alegria, é assim que a comunidade campomaiorense celebra, ao longo deste ano, esta efeméride com um conjunto de iniciativas entre celebrações religiosas, exposições, concertos, uma mesa-redonda e uma iniciativa que denominada “Rota da Fé”. Nela já participaram Fernando Santos, o seleccionador nacional e a jornalista da Renascença Aura Miguel. No próximo dia 8 de Julho, para falar sobre a Imaculada e o povo português, vai estar em Campo Maior, o professor João César das Neves.

“Para nós é importante esta proximidade, termos estes momentos de encontro com as pessoas que têm respondido de uma forma extraordinária às nossas iniciativas”, sublinha a superiora.

Uma comunidade viva

Há 15 anos que está aberto o noviciado no Convento de Campo Maior e as vocações continuam a surgir.

“A última rapariga que entrou foi a 29 de Maio. É uma jovem com 28 anos, estava a exercer a sua profissão, enfermeira e agora está connosco. Está feliz no meio de nós”, conta-nos a Madre Maria dos Anjos.

“Neste momento somos 18 irmãs e acompanhamos um grupo lá fora para percebermos se é essa a sua vocação. O que lhe posso dizer é que a comunidade está profundamente viva o que nos alegra”, diz.

Na mesma linha, as palavras do arcebispo de Évora. “O mosteiro de clausura é uma fonte de revitalização espiritual para toda a diocese e ultimamente as vocações de vida consagrada cresceram muito aqui no mosteiro”, confirma D. José Alves.

E não se pense que o convento está fechado ao mundo. Quem quiser visitar e contactar com as monjas pode fazê-lo. “Basta que nos telefonem e marcamos o encontro. É com muita alegria que vos recebemos e até pedimos que venham pois queremos muito”, diz a abadessa.

Oração, trabalho e convívio

O dia-a-dia da comunidade religiosa é pautado pela simplicidade. O sino toca às seis da manhã. Meia hora depois as monjas iniciam a labuta com a oração litúrgica de laudes e Eucaristia.

A sua actividade contempla, para além da oração, os trabalhos domésticos e manuais, a “Lectio Divina” (meditação da Bíblia) e o estudo. Sendo a vida comunitária um dos elementos estabelecidos pela Ordem, a oração litúrgica e os trabalhos manuais são realizados em grupo. É, contudo, no silêncio que passam a maior parte do tempo.

Em dois pequenos recreios consagrados na rotina, depois das principais refeições, há sempre espaço para colocar a conversa em dia, seja sobre a vida contemplativa, seja sobre o que se passa para lá das portas do Mosteiro. O dia termina com a oração de completas (oração da noite) por volta das 22 horas.

Campo Maior tem museu que evoca a primeira santa portuguesa

De portas abertas desde 2013, a casa-museu dedicada à primeira santa portuguesa, Beatriz da Silva, é um espaço museológico que evoca o percurso da fundadora da Ordem da Imaculada Conceição.

Depois de recuperada a habitação onde viveu no século XV, nos diversos pisos é, hoje, possível uma ideia de como é viver em clausura. A vida no mosteiro campomaiorense está retratada em textos e imagens que ganham vida através de ecrãs interactivos. A casa-museu tem também uma pequena capela propositadamente concebida para momentos de recolhimento.

Um espaço que o arcebispo de Évora, D. José Alves, considera essencial pois “evoca uma mulher de fé, dinâmica para o seu tempo e com um ideal de vida que acabou por originar a fundação da Ordem da Imaculada Conceição.”

Nos 75 anos da chegada das monjas à vila alentejana, o prelado realça a “vida contemplativa e o carisma da comunidade religiosa que consegue transpor os claustros do Mosteiro, permanecendo de uma actualidade que é necessário evidenciar”.

Santa alentejana canonizada por Paulo VI

Beatriz da Silva, nascida por volta do 1437, em Campo Maior, viveu desde os 14 anos em reclusão no mosteiro de São Domingos de monjas dominicanas, em Toledo (Espanha).

Santa Beatriz alcançou, em 1489, uma primeira aprovação papal para a sua comunidade monástica através da bula "Inter Universa", do Papa Inocêncio VIII, mas só após a sua morte (1492) a Ordem da Imaculada Conceição obteria a bula fundacional "Ad Statum Prosperum", no ano de 1511, com a assinatura do Papa Júlio II.

Em Portugal, existem duas comunidades refundadas no século XX - uma em Campo Maior e outra perto de Viseu na Quinta do Viso. Beatriz da Silva foi canonizada pelo Papa Paulo VI a 3 de Outubro de 1976.