“Os santos são campeões a receber”
Editado por Filipe d'Avillez
Inserido em 30-06-2016 14:50

Maria Durão, vocalista dos Simplus, trabalha actualmente no Vale de Acór onde acompanha toxicodependentes e alcoólicos em recuperação. É um mundo onde a misericórdia se vê em cada olhar.

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Muitos católicos apenas entram em contacto com os santos já estes foram canonizados, pelo que se pode pensar que as pessoas em causa sempre foram assim. Mas não foram. Por detrás de cada auréola existe uma história, um processo de formação. A chave, segundo Maria Durão, vocalista dos Simplus, está na capacidade de receber misericórdia.

“Pensamos normalmente em como eles são misericordiosos, como são perfeitos e fazem bem, mas a mim impressiona-me como tudo o que eles são, tudo o que vem para fora, é porque primeiro receberam. Vê-se muito isso na Madre Teresa de Calcutá, mas vê-se em todos os santos, que o primeiro trabalho deles, a primeira preocupação, é receber.”

“Eles são santos porque são campeões a receber. Acho que os santos são o resultado de anos e anos a acolher e depois, quase sem o planear, dão por si santos, dão por si a agir de uma maneira diferente, há uma mudança de vida”, diz a cantora.

“Os Santos e a Misericórdia” é precisamente o título do sexto guião da Santa Sé para acompanhar o jubileu proclamado por Francisco para este ano. Publicado em Portugal pela Paulus, o pequeno livro inclui resenhas biográficas de vários santos e passagens que fazem a ligação entre as suas vidas e o tema da misericórdia.

Teresa de Calcutá está longe de ser a única, mas é talvez aquela com quem mais pessoas se identificam, apesar de ainda não ter sido oficialmente canonizada, o que certamente contribuiu para que o Papa a escolhesse como um dos cinco santos do jubileu.

Madre Teresa de Calcutá, rosto da misericórdia


“O que me impressiona nela é esta capacidade de olhar as pessoas pelo que elas são. Acho que a grande misericórdia é isso. Quando nos sentimos olhados com misericórdia, é alguém que olha para nós por aquilo que somos e não aquilo que estamos a parecer naquele momento, ou que o nosso mal parece fazer de nós naquele momento. Há qualquer coisa mais verdadeira em nós e mais profunda. Quando fazemos essa experiência sentimos que estamos a ser alvo de misericórdia”, diz Maria Durão.

“Por isso é que ela era capaz de olhar para um pobre e tratá-lo como um rei, porque percebia que ele era mais do que a sujidade em que se encontrava, a fragilidade em que se encontrava. Percebia que dentro daquela aparência havia um valor infinito.”

Um vale de misericórdia

Esta questão ganha particular relevância neste ano da misericórdia, considera, uma vez que não são apenas os pobres e os doentes que estão carentes de misericórdia. Quem o diz é o próprio Papa. “Estamos muito habituados a ouvi-lo a falar das periferias e dos pobres, mas é redutor, porque o Papa fala muito também do homem contemporâneo, do homem normal. Ele diz que o homem contemporâneo está muito ferido e já não acredita que o seu mal possa ser abraçado, curado. Aí estamos num plano mais abrangente, já não são só os pobres, mas o homem contemporâneo que está tão ferido como o homem pobre.”

Há anos que Maria Durão se dedica a servir os outros. Formada em gestão, optou por trabalhar sempre na área social, primeiro com jovens grávidas em risco e seus bebés, até que surgiu a oportunidade de ir trabalhar como terapeuta para o Vale de Acór, uma instituição católica que trabalha com pessoas que sofrem de dependências, nomeadamente de álcool ou drogas, entre outros.

O trabalho entre esta “periferia” tem sido para ela uma “escola de misericórdia”, diz.

“Todos eles fizeram muito mal. Estamos a falar de pessoas que roubaram, que mataram, todos eles fizeram mal, nem que seja o mal que fizeram a eles próprios. A misericórdia não é esquecer o que se passou – porque não seria também humano nem verdadeiro – mas é possível como eu sou, e eu sou isto, sou esta história toda que trago aqui, sou tudo isto que fiz, e onde é possível recomeçar. Sou tudo isto que fiz, mas também sou mais”, explica.

Utentes do Vale de Acór. Foto: O Mensageiro


De todas as experiências que tem vivido, uma que a marcou de forma particular foi a morte de um utente do Vale de Acór que sofria de cancro. “Foi uma pessoa que teve, como todos os outros, uma vida com violência, com muita coisa para esquecer, e que encontrando o Vale de Acór ganhou uma docilidade. Foi uma coisa impressionante vê-lo morrer, porque era uma pessoa que teria tudo para morrer amargurado, por não ter aproveitado a vida.”

“Podemos estar dominados pelo nosso mal. Teria tudo para morrer amargurado. Quem me dera a mim morrer com esta gratidão! Ele que nem falava muito de Deus, mesmo à beira da morte, dizia: ‘Como é possível que Deus tenha posto tanta gente à minha volta?’, porque no hospital, nos últimos dias, era um rodopio nas visitas e de facto é uma coisa impressionante, ver que alguém que estava sozinho e que estava no meio do mal, de repente muda de vida e é possível morrer com esta gratidão pela realidade, pelos outros e por Deus."

A certeza da vinda

Maria Durão é uma pessoa profundamente ligada à música. Com Luís Roquette, forma os “Simplus”, um dueto com vários discos já editados e cujas músicas têm uma clara inspiração cristã. O álbum mais recente, “Podes vir”, inclui vários temas que entroncam precisamente na misericórdia, embora não tenha sido pensado propositadamente para o jubileu.

“Começámos a perceber que havia um tema que cruzava todas as músicas, que é o tempo da espera por alguém, alguém de quem já se tem a certeza que vem. E lembrámo-nos que isso também tem a ver com a misericórdia, porque me parece que a experiência da misericórdia é sobretudo este esperar e receber, esta vinda. Na nossa vida Deus está sempre a vir, é uma questão de estarmos atentos e de o receber.”

É também para a música que a cantora se vira quando se lhe pede uma referência que remeta para a ideia de misericórdia. Neste caso o escolhido é Tiago Bettencourt, nomeadamente a sua música “O Lugar”.

“Quando ouço a música faz-me pensar neste lugar onde somos abraçados com aquilo que somos, mas onde somos elevados de novo à nossa dignidade. Ele tem uma frase que é ‘onde tudo morre, tudo pode renascer’ e foi isto que me tocou. Mesmo que não seja propositado, é uma música que me lembra sempre esta mudança que a misericórdia traz à vida das pessoas. Onde tudo parece estar a morrer, onde parece já não haver possibilidade… Na verdade não é assim.”

“Só que a solução vem de fora, não vem de nós, não vem do meu esforço de me vencer a mim própria. A verdade é que depois entra um olhar novo, este olhar de misericórdia, que me pode reconstruir sobre o meu mal e encaminhar-me para onde tenho de ir”, conclui.