Como são estranhos estes dias recentes
29-05-2018 - 06:32

Uma boa integração na comunidade de pertença, uma correcta estruturação familiar e as adequadas relações de vizinhança e de amizade preservam eficazmente as pessoas - mesmo que atingidas pela doença, por um acidente grave ou outras perdas violentas - do comportamento suicida.

Entre 1946 e 1950, num período em que esteve preso no Forte de Caxias, Júlio Pomar pintou "O Almoço do Trolha", uma obra maravilhosa, simultaneamente forte e máscula e delicada e feminina, um presépio cheio de ternura, de compaixão e de misericórdia, uma declaração de amor pela coisa humana e um manifesto realista sobre a consciência da sua imensa fragilidade e o acolhimento que esta deve ter nas consciências formadas. Está guardado na galeria do meu coração num lugar especial e estelar, sempre um pouco mais central e mais evidente que os Boticelli e os Modigliani que pedem soberanamente neste museu imaginário. O quadro – vendido para uma coleção privada em 2015, Ai! – esteve presente em 2017 numa mostra do Atelier-Museu Pomar, premonitoriamente chamada «Estranhos dias recentes de um tempo menos feliz», com a curadoria de Hugo Dinis.

Mas o presépio de Pomar guarda também o poder de nos lembrar o país que éramos, esse «império» condenado, provinciano e fechado, tão pouco herdeiro de façanhas e humanismos passados. E hoje, nestes dias recentes, ameaçados por populismos vários e infames negligências no cuidado dos deserdados, a morte de António Arnautt deveria lembrar-nos que as democracias inclusivas são generosas e se fazem de visão, de determinação, de trabalho e desse amor cuidante do sofrimento e da dor, sublimemente retratado no Trolha, na esposa, no menino enfaixado com cuidado, nas pobres tábuas de resguardo, nas sandálias de pescador, no tijolo fundacional, na manjedoura de cimento. Arnautt também criou a sua Obra de Arte, o seu Trolha chamava-se «Serviço Nacional de Saúde» e é certamente, juntamente com a Escola, o melhor que Portugal fez em quase cinquenta anos de putativa democracia.

E enquanto nos despedíamos destas duas grandes figuras, António Costa, cujo grau de apreço pelas artes e a saúde pública verdadeiramente não conhecemos, teve o seu momento "Porreiro, Pá!". Tão icónica explosão de consciência política e lucidez governamental não surgiu imediatamente com os esforços de abjuração da causa socrática mas foi comunicada, posteriormente, de modo casual e económico, no apoio aos projectos de lei que pretendem favorecer a legalização da eutanásia. O argumento invocado é a "liberdade".

Não farei comentários de ordem legal, nem sobre a ética da profissão médica, e adianto já, para os recém-chegados, que o suicídio assistido é, para mim, um assunto encerrado: sou católica e creio num Deus criador que oferece a vida à sua criatura bem-amada, criada à semelhança desse criador; a vida é, pois, um dom, um empréstimo que não nos pertence e, de qualquer modo, não convém que a sua decisão final fique entregue a seres limitados e pecadores como nós, quantas vezes ameaçados e fracassados nos seus intentos de lutar contra a doença, a deficiência, a morte. Não estou de acordo com a pena de morte – cuja recusa me parece uma conquista civilizacional importantíssima – e, apesar de ter nascido no hospital da Estrela, também me oponho a soluções belicistas, quantas vezes mais centradas em defender os interesses da indústria do armamento do que os direitos dos civis, entretanto mortos.

Posto isto, acho que percebo um pouco o que sentem os que carregam o peso da doença, a progressiva e inesperada perda de capacidades e de autonomia, aquele receio permanente das temidas recidivas, o stress pós-traumático resultante do diagnóstico e da violência dos tratamentos, o abandono dos amigos, o cansaço das famílias. E é escura, muito escura, a noite longa das depressões, como longas são as noites solitárias das insónias, das dores, dos medos, da ideia do «fim», do quando e do como adiantados, que se desconhecem e profundamente se receiam. Às vezes queria-se morrer um pouco para não se morrer de todo.

Durkheim, que brilhantemente estudou o suicídio, e a quem todos os mestres da psicopatologia citam com confiança, mostrou que este varia na razão inversa da integração na sociedade religiosa, na sociedade política e na sociedade doméstica. Uma boa integração na comunidade de pertença, uma correcta estruturação familiar e as adequadas relações de vizinhança e de amizade preservam eficazmente as pessoas – mesmo que atingidas pela doença, por um acidente grave ou outras perdas violentas – do comportamento suicida. Fazem-no favorecendo a auto-estima e os recursos adaptativos necessários para enfrentar os desafios vitais. 80% das pessoas que desejam morrer por ação própria apresentam um quadro depressivo e a depressão é universalmente reconhecida como uma condição psicológica mórbida de tristeza vital e profunda, que envolve o indivíduo e afecta todas as esferas da sua vida. A pessoa perdeu o prazer de viver e sofre de uma incapacitação progressiva da memória, do pensamento e da capacidade de tomar decisões adaptadas. Por vezes, a decisão de morrer fornece um alívio momentâneo no conjunto da tormenta interior em que se vive pois o nosso cérebro premeia as tomadas de decisão uma vez que, em geral, decidir favorece a sobrevivência do organismo. Mas, tal como na pena de morte, depois não há regresso, nem arrependimento, nem segundas oportunidades.

Legalizar o suicídio assistido, de facto, aumenta a liberdade para as cativações do Dr. Centeno na saúde, a liberdade de os governos se sentirem mais tranquilos face à escassez dos cuidados paliativos, a oportunidade dos fortes imporem as suas vontades egoístas aos mais fracos: agora pede-se para a doença terminal, depois será para a doença psicológica, a doença social, a idade, talvez a cor da pele, a etnia, o vizinho incómodo, o parente rico, a forma de vida. E ainda há aquela coisa medonha que consiste em incluir as crianças.